El Niño forte pode pressionar inflação em até 0.53 pontos, projeta Rabobank
Estudo do Rabobank mostra que itens in natura lideram alta de preços após choque climático e pressionam a inflação do país por até dois anos.

O fortalecimento do fenômeno climático El Niño pode elevar a inflação de alimentos no Brasil, com impacto direto no orçamento das famílias cerca de seis meses após o início da safra agrícola 2026/2027, que tem início a partir do próximo mês. A constatação integra um estudo elaborado pelos economistas Maurício Une e Renan Alves, do banco holandês Rabobank, especializado em agronegócio.
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Para dimensionar o impacto financeiro que pode acontecer nos próximos meses, os pesquisadores cruzaram o histórico do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados de intensidade do fenômeno da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos. E a pesquisa apontaque o repasse aos preços vai variar conforme a intensidade do evento climático, as condições das safras no campo e o cenário macroeconômico vigente no país.
Em um cenário de El Niño com intensidade moderada, a alta dos alimentos in natura adicionará em torno de 0,36 ponto percentual ao IPCA acumulado em 12 meses. Ao incluir produtos semielaborados e industrializados na conta, o acréscimo extra atinge 0,41 ponto percentual.
Em caso de evento com força severa, o encarecimento dos itens in natura gera um impacto adicional de 0,53 ponto percentual na inflação oficial. Quando somadas as categorias de semielaborados e processados, a elevação chega a 0,83 ponto percentual.
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Os alimentos in natura — produtos agrícolas consumidos em seu estado natural, como frutas, legumes e verduras — são os primeiros a sofrer reajustes expressivos. Por serem mais sensíveis a intempéries e variações de temperatura, essas culturas registram perdas imediatas nas lavouras, o que reduz rapidamente a oferta nos centros de distribuição e supermercados.
Nos itens semielaborados, a exemplo de carnes e grãos que passam por beneficiamento simples, o encarecimento ocorre de forma gradual. Esse movimento decorre do aumento nos custos de insumos agrícolas e ração animal. Já entre os alimentos industrializados, o impacto do clima é mais brando. Nessa categoria, outros custos exercem peso maior na formação do preço final, como embalagem, processamento industrial, frete e comercialização.
A transmissão do choque climático para o bolso do consumidor não acontece de maneira instantânea. Segundo o levantamento do Rabobank, o reflexo nos preços surge cerca de seis meses após a ocorrência da anomalia meteorológica. De acordo com Alves, caso ocorra um choque de oferta sobre a produção agrícola em setembro, os efeitos inflacionários mais intensos aparecem nas prateleiras a partir de março do ano seguinte.
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A percepção desse aumento também varia segundo a região do país. Estados e cidades com maior exposição e dependência de produtos in natura enfrentam uma pressão inflacionária mais concentrada e rigorosa. O estudo ressalta que o impacto econômico é expressivo, mas não permanente. A pressão diminui de um a dois anos após o El Niño, período em que a normalização do clima e das safras dissipa os resquícios de alta.
Além de afetar as compras para consumo doméstico, a alta dos alimentos gera um efeito secundário na alimentação fora do domicílio. Esse repasse pressiona o setor de serviços, como restaurantes e lanchonetes, criando obstáculos adicionais para a condução da política de juros pelo Banco Central.
Como as pressões decorrem de quebras de oferta no campo, o estudo avalia que os instrumentos tradicionais de política monetária possuem capacidade limitada para conter a disparada de preços no curto prazo.
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