Como o Ueno Bank desencadeou crise que derrubou o presidente do Paraguai
Impulsionada pelo governo, instituição teve ascensão meteórica e alcançou clientela de 60% da população adulta no país
O colapso do Ueno Bank, no Paraguai, gerou uma crise econômica e política que levou à renúncia do presidente Santiago Peña, nesta quinta-feira (06/11), à saída do presidente do Banco Central do Paraguai (BCP) e a protestos em massa pelo país, que tem cerca de 60% da população adulta entre os clientes da instituição financeira.
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Lançado em 2021, o Ueno vinha sendo comparado a outros bancos digitais em rápido crescimento, como o Nubank, o Monzo ou o Revolut. Em junho, a empresa informou ter cerca de 3 milhões de clientes – em um país com 6,5 milhões de habitantes – e administrar aproximadamente 850 milhões de dólares em recursos públicos, incluindo verbas provenientes de instituições estatais e órgãos relacionados a previdência.
A rápida expansão do banco o tornou um dos casos de sucesso financeiro mais notáveis do Paraguai. No entanto, nos últimos meses, a instituição passou a ser alvo de investigação regulatória devido a supostas concessões excessivas de crédito a empresas ligadas ao seu acionista controlador, o Grupo Vázquez.
O Banco Central do Paraguai interveio após constatar que o Ueno havia violado os requisitos mínimos de solvência, o que desencadeou uma crise que deixou milhões de clientes temporariamente impossibilitados de acessar suas contas.
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O que levou à ascensão do Ueno Bank?
Logo após obter a licença bancária em 2023, a Ueno parecia estar em toda parte no Paraguai. A instituição financeira digital, uma versão renomeada de uma empresa financeira com décadas de existência, atraiu clientes com generosas ofertas de cashback em compras de supermercado, expandiu-se para mais de 70 agências, patrocinou a seleção paraguaia de futebol e colocou seu nome no principal estádio do país, o Defensores del Chaco, em Assunção.
O dinheiro do governo paraguaio foi canalizado para os cofres da Ueno durante o governo de Peña, que teve início em 2023. O presidente do Partido Colorado, de direita, também nomeou Carlos Carvallo, presidente da Financiera Ueno, antecessora do Banco Ueno, para dirigir o Banco Central Paraguaio, órgão encarregado de supervisionar a instituição financeira digital.
Mês passado, o Ueno Bank tinha cerca de 800 milhões de dólares provenientes de depósitos públicos, o que representava aproximadamente um quarto do total da instituição, incluindo recursos do fundo estatal de Previdência e saúde e das operadoras das gigantescas usinas hidrelétricas do Paraguai.
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Enquanto as economias dos aposentados e outros recursos públicos se acumulavam no Ueno, as preocupações aumentavam dentro do Banco Central. Em junho, investigadores do órgão identificaram, segundo a imprensa paraguaia, um padrão de empréstimos de risco a pessoas ligadas ao banco. O Ueno havia concedido grandes somas a empresas ligadas aos seus proprietários, além do permitido por lei e sem garantias suficientes para cobrir as dívidas caso elas se tornassem inadimplentes. Em um único dia, em setembro de 2025, quase 39 milhões de dólares foram destinados a três dessas empresas.
Peña ignorou repetidamente os alertas. Ainda no mês passado, ele defendeu o Ueno e a supervisão do Banco Central, alegando que havia uma campanha difamatória para criar temor na população.
A queda e as suspeitas em torno do banco digital
Na última segunda-feira (02/11), o Ueno desabou. Órgãos reguladores que investigavam os empréstimos do banco a empresas ligadas aos seus proprietários constataram operações de crédito mal documentadas, além de despesas que o banco havia contabilizado erroneamente como ativos.
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Depois que os livros contábeis foram corrigidos, o capital do Ueno – a reserva que os bancos devem manter para absorver perdas – caiu para menos da metade do mínimo legal. O Banco Central tomou o controle da instituição na terça-feira (03/11) e anunciou planos para transferir as contas dos clientes, juntamente com outros ativos que ainda tenham valor, para outros bancos antes de liquidar o que restou.
O aplicativo, os cartões e as transferências do Ueno deixaram de funcionar e as agências fecharam as portas. Clientes desesperados fizeram filas do lado de fora, sem poder sacar suas economias. Na quarta-feira, a corrida para abrir novas contas em outros bancos travou os aplicativos móveis de outras instituições, alimentando o pânico da população.
Autoridades pediram calma e afirmaram ter começado a reembolsar os depositantes, abrindo novas contas em outros bancos para cerca de 280 mil pessoas que mantinham tinham contas exclusivamente no Ueno.
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"O sistema bancário está sólido", afirmou Pedro Acosta Bernal, presidente interino do Banco Central desde a quarta-feira, após a renúncia de Carvallo a pedido de Peña.
Autoridades paraguaias detiveram oito executivos de alto escalão do Ueno, incluindo o fundador Miguel Vázquez e o presidente do banco, Juan Manuel Gustale. O Ministério Público também indiciou 27 funcionários da instituição financeira e parceiros de negócios por crimes que incluem abuso de confiança e tentativa de fraude.
O que implica Santiago Peña?
Próximo de Donald Trump, presidente dos EUA, e Javier Milei, da Argentina, Peña chegou à presidência em 2023. Ele já havia sido membro da diretoria do Banco Central do Paraguai, economista do Fundo Monetário Internacional (FMI), ministro da Fazenda (2015-2017) e foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025, quando vendeu sua participação.
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Parlamentares da oposição acusaram Peña de conflito de interesses, uso indevido de fundos de previdência e de ter encoberto as falhas do banco. Peña rejeita ter tido vínculos indevidos com o banco digital.
Em meio à crise, Peña apresentou a sua renúncia nessa quinta-feira (06/11), após ter perdido apoio dentro do próprio partido. O Congresso do Paraguai, no entanto, rejeitou a renúncia do presidente e abriu um processo de impeachment por unanimidade. Isso porque, no Paraguai, ex-presidentes se tornam automaticamente senadores vitalícios e, assim, mantêm a imunidade parlamentar e direitos políticos.
No Paraguai, o processo de impeachment exige uma maioria de dois terços dos deputados presentes na Câmara para encaminhar o caso ao Senado, onde seria necessária outra maioria de dois terços para destituir Peña.
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Enquanto isso, manifestações tomam as ruas do Paraguai. Participam delas clientes, estudantes universitários, trabalhadores e aposentados – que têm parte de suas pensões pagas pelo banco agora falido. Na quinta, centenas de funcionários do Ueno e de outras empresas pertencentes ao Grupo Vázquez protestaram em frente ao Ministério do Trabalho, exigindo indenizações e salários atrasados e retidos no banco falido.
No estádio Defensores del Chaco, que antes levava o nome de Ueno, o logotipo do banco foi removido.
