Os sintomas da menopausa podem gerar perdas superiores a R$ 2 bilhões por ano em produtividade no Brasil, segundo um estudo divulgado pelo Instituto Esfera de Estudos e Inovação. O levantamento aponta que cerca de 1,9 milhão de brasileiras deixam de trabalhar alguns dias ao longo do ano em razão de sintomas associados ao climatério — fase de transição para a menopausa.
De acordo com a pesquisa, intitulada “A Força Invisível da Economia: Mulheres na Menopausa e o Futuro do Trabalho no Brasil”, aproximadamente 29 milhões de mulheres no país estão no climatério ou já passaram pela menopausa. O número foi estimado com base em dados do Censo 2022.
Entre elas, 63% estão economicamente ativas, integrando uma das faixas etárias mais qualificadas da força de trabalho. O estudo também indica que 33% dessas mulheres são as principais responsáveis pela renda familiar. Ainda assim, a prevalência de sintomas associados à menopausa chega a 87,9% desse grupo.
O cálculo das perdas econômicas considera apenas o absenteísmo — quando a trabalhadora precisa se afastar do trabalho por motivos de saúde. O estudo não inclui outros fatores que também podem afetar a produtividade, como o presenteísmo (quando a pessoa trabalha com desempenho reduzido), a redução de jornada, aposentadorias antecipadas ou custos médicos indiretos.
Para as autoras da pesquisa, a falta de políticas públicas estruturadas voltadas ao climatério contribui para que o impacto econômico permaneça pouco visível nas estatísticas oficiais.
Segundo a pesquisadora Clarita Costa Maia, que coordenou o estudo, a menopausa ainda é tratada majoritariamente como uma questão privada, apesar de seus efeitos sobre saúde, renda e permanência das mulheres no mercado de trabalho.
“Estamos diante de uma omissão que produz efeitos concretos sobre saúde, renda e permanência no mercado de trabalho. Os instrumentos normativos existem, mas faltam coordenação e decisão política baseada em evidências”, afirma.
Propostas para políticas públicas
O estudo recomenda a criação de uma política nacional de atenção ao climatério, com diretrizes clínicas específicas e integração entre áreas como saúde, trabalho e previdência.
Entre as sugestões para o setor público estão:
- elaboração de protocolos clínicos específicos para climatério no Sistema Único de Saúde (SUS);
- criação de um registro nacional da menopausa para reunir dados clínicos e sociodemográficos;
- inclusão de um módulo sobre menopausa na Pesquisa Nacional de Saúde;
- capacitação de profissionais de saúde para atendimento especializado;
- articulação entre políticas de saúde, trabalho, previdência e direitos das mulheres.
As autoras também defendem a inclusão da política nos instrumentos orçamentários, com metas e financiamento definidos.
Mudanças no ambiente de trabalho
O estudo também sugere medidas para empresas, como adaptação de ambientes de trabalho e maior flexibilidade nas rotinas profissionais.
Entre as recomendações estão a adoção de controle térmico nos locais de trabalho, revisão de códigos de vestimenta, possibilidade de teletrabalho, horários flexíveis e inclusão da menopausa nos programas de saúde ocupacional. A pesquisa também sugere que planos de saúde corporativos passem a cobrir terapia hormonal quando indicada.
Para a médica Fabiane Berta, pesquisadora em climatério, intervenções simples podem reduzir significativamente os impactos dos sintomas no cotidiano das trabalhadoras.
“A literatura científica demonstra que o acesso à terapia hormonal da menopausa, quando indicada, e adaptações simples no ambiente de trabalho reduzem significativamente as perdas econômicas e elevam o bem-estar”, afirma.
Impacto global
O relatório também reúne dados internacionais para contextualizar o tema. Nos Estados Unidos, as perdas de produtividade relacionadas à menopausa chegam a US$ 1,8 bilhão por ano. Quando considerados os custos médicos, o valor ultrapassa US$ 26 bilhões anuais.
Globalmente, as perdas de produtividade associadas à menopausa superam US$ 150 bilhões, segundo estimativas citadas no estudo.
As autoras destacam que, com o envelhecimento da população, políticas voltadas à saúde de mulheres em idade climatérica podem ter impacto direto na economia e na participação feminina no mercado de trabalho.

