Economia

Motoristas de app têm maior risco de endividamento, alerta TST

Pesquisa do TST mostra que gastos superam R$ 5 mil por mês

Da redação
DA REDAÇÃO

23/06/2026 • 09:14 • Atualizado em 23/06/2026 • 09:33

Motoristas de aplicativo

Motoristas de aplicativo

Rovena Rosa/Agência Brasil

Resumo

Pesquisa do Tribunal Superior do Trabalho revela que motoristas de aplicativo enfrentam vulnerabilidade financeira devido à instabilidade de renda, altos custos da atividade e empréstimos oferecidos pelas plataformas, o que aumenta o risco de endividamento.

Realidade de motoristas como Bárbara Sousa, de Brasília, mostra que despesas inesperadas, jornadas exaustivas e falta de cobertura para custos resultam em dívidas e dificuldades para equilibrar renda e gastos mensais, que ultrapassam R$ 5 mil para muitos profissionais.

Avaliação de especialistas e do presidente do TST aponta que o trabalho por aplicativos é caracterizado por precarização, exploração adaptada ao ambiente digital, ausência de vínculo empregatício e transferência integral dos riscos e custos aos trabalhadores.

O trabalho como motorista de aplicativo tem levado muitos profissionais a uma situação de vulnerabilidade financeira. Uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (23) pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) aponta que a categoria enfrenta maior risco de endividamento devido à instabilidade da renda, aos altos custos da atividade e à oferta de empréstimos vinculados às próprias plataformas.

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A realidade é conhecida pela motorista de aplicativo Bárbara Sousa, de 28 anos, de Brasília. Recentemente, ela precisou arcar com um conserto inesperado no veículo após problemas no motor e vazamento de óleo, acumulando uma dívida de R$ 2,5 mil. O valor foi parcelado no cartão de crédito.

Segundo Bárbara, mesmo conseguindo faturar cerca de R$ 300 por dia, a renda nem sempre é suficiente para cobrir os gastos quando o carro fica parado ou quando surgem despesas extras.

“É preciso trabalhar muito, umas 10 a 12 horas, para poder conseguir uma renda para sobreviver e pagar as dívidas”, relata.

O levantamento do TST destaca que os motoristas estão expostos a um cenário de imprevisibilidade financeira. Além disso, muitos recorrem a empréstimos oferecidos pelas próprias plataformas, que podem ser descontados diretamente dos ganhos obtidos nas corridas, em percentuais que chegam a 30%.

Para os pesquisadores, esse modelo reproduz práticas históricas de exploração da mão de obra, agora adaptadas ao ambiente digital.

Atualmente, mais de 1,7 milhão de brasileiros trabalham por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços. As empresas do setor não reconhecem vínculo empregatício com os trabalhadores, que assumem integralmente os custos e os riscos da atividade.

A pesquisa também calculou o impacto financeiro da profissão. Considerando uma jornada de 22 dias por mês, oito horas diárias de trabalho e velocidade média de 25 km/h em áreas urbanas, os gastos mensais ultrapassam R$ 5 mil.

Os custos chegam a R$ 5.566 para motoristas que utilizam veículo próprio e a R$ 5.706 para aqueles que trabalham com carros alugados.

Entre as despesas estão combustível, manutenção, depreciação do veículo, seguros, impostos, internet móvel, multas e alimentação. A média semanal de trabalho dos profissionais de aplicativos é de 44,8 horas.

Na avaliação do presidente do TST, o ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, a ideia de “liberdade empreendedora” associada ao trabalho por aplicativos mascara condições precárias de trabalho.

“O trabalho em plataformas digitais é marcado pela profunda precarização, cumprimento de jornadas extenuantes, baixas remunerações e alto controle por algoritmos”, afirmou.

O tema também já foi alvo de críticas do cientista político Leonardo Sakamoto, que defende que muitos motoristas foram levados a acreditar que atuariam como empreendedores independentes, enquanto parte significativa dos ganhos fica com as plataformas.

Após quatro anos na atividade, Bárbara resume a dificuldade enfrentada por muitos colegas.

“É tudo do nosso bolso. Não tem como não se endividar. Eu não me imagino fazendo isso daqui a cinco anos”, afirma.

*Com informações da Agência Brasil.

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