
Entenda o peso econômico dos principais parceiros comerciais do Brasil
Alan Santos/Presidência
O Brasil é reconhecido como um dos principais responsáveis pela segurança alimentar do mundo, com destaque para a exportação de grãos, carnes, frutas. Isso diversifica as nossas parcerias comerciais, mas põe sob alerta os Estados Unidos, que impuseram tarifas de 50% a produtos brasileiros importados pelos americanos.
A desculpa inicial do governo de Donald Trump tem a ver com o processo em que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é réu por tentativa de golpe de Estado, sob a alegação de perseguição política por parte do Supremo Tribunal Federal (STF).
Por outro lado, especialistas veem mais que isso, pois acreditam que a investida americana objetiva barrar as articulações do Brics, grupo formado pelas principais economias emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Essa análise, com foco na influência chinesa no mundo, foi debatida no Canal Livre exibido no dia 2 de agosto, trazida pelo professor de relações internacionais Leonardo Trevisan.
“O recado para o Brasil é: ‘Cuidado com a influência chinesa’. A influência chinesa não é o Porto de Chancay, no Peru, em que eles botaram 4 bilhões de dólares lá para fazerem o porto, único da América Latina que recebe cargueiro de contêiner daquele tamanho. Mas eles não fizeram só isso. Eles estão fazendo o Porto de Chancay e toda a estrutura de transporte dentro do Brasil, a [Ferrovia] Bioceânica. E há um aviso dos chineses: ‘Se a eleição para o nosso lado for favorável, nós vamos trazer a tecnologia para furar os Andes’”, explicou o professor.
Entre tarifaço de Trump e influência de Pequim no Brasil e América Latina, os Estados Unidos e a China aparecem como os nossos principais parceiros comerciais. De janeiro a julho deste ano, por exemplo, os dois países representaram US$ 82,16 bilhões das nossas exportações.
Parceria da China
Atualmente, o principal mercado consumidor do Brasil é a China, justamente a rival dos americanos na disputa pela hegemonia global. Desde 2009, o país asiático assumiu o posto que era dos Estados Unidos.
Os principais produtos brasileiros exportados para a China são soja, minério de ferro, petróleo e carne bovina. Já o Brasil compra de lá, prioritariamente, produtos manufaturados, eletrônicos e bens de consumo.
Quando levamos em conta a balança comercial, entre janeiro e julho deste ano, apresentamos um superávit de US$ 16,26 bilhões (US$ 58,44 bilhões em exportações contra US$ 42,18 bilhões em importações da China, Hong Kong e Macau), segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.
EUA como 2º maior parceiro, mas com relação estremecida
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro do Brasil, um mercado importante que consome muito da nossa industrialização, a exemplo das operações com a Embraer, a companhia brasileira referência mundial em fabricação de aeronaves. Outros grandes destaques das importações brasileiras para terras americanas são o café e a carne bovina.
O problema é que tanto o café como a carne bovina foram sobretaxados por ordem de Donald Trump, apesar de esses produtos do Brasil representarem fatias expressivas do consumo dos americanos. O nosso grão, por exemplo, representa um terço do que os EUA importam, enquanto a nossa proteína animal é ingrediente essencial para a produção de hambúrguer, prato que simboliza a culinária ianque.
Além da questão política, pró-Bolsonaro e intervencionista, Trump alegou que os EUA teriam déficit na balança comercial com o Brasil e que isso justificaria as sobretaxas de 50% às importações, o que, prontamente, foi negado pelo governo brasileiro.
Fato é que, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, essa relação comercial teve saldo negativo para o Brasil, por comprar mais (US$ 25,97 bilhões) que vender (US$ 23,72 bilhões), de janeiro a julho deste ano. Dados oficiais apontam, inclusive, que a balança comercial brasileira é deficitária com os EUA desde 2009, período em que as exportações americanas superaram as importações em US$ 88,61 bilhões.
Os produtores e sistema financeiro brasileiros ainda são alvo de uma investigação americana que acusa o país cometer supostas práticas desleais. Entre as denúncias, produção de alimentos em áreas desmatadas, mercado de etanol, proteção de propriedade intelectual e o risco do Pix para bandeiras americanas de cartões de crédito e débito.
A diplomacia do Brasil, porém, “não reconhece a legitimidade de investigações, determinações ou potenciais ações retaliatórias tomadas fora do arcabouço legal da OMC”, em defesa enviada para o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR).
Argentina passou a comprar mais do Brasil
Em nível regional, outro parceiro estratégico é a Argentina, cujas exportações de produtos brasileiros cresceram 53,2% e atingiram US$ 10,78 bilhões, entre janeiro e julho de 2025, quando comparadas com o mesmo período do ano anterior. Já as nossas compras chegaram a US$ 7,27 bilhões. Com isso, a balança comercial apresentou saldo positivo de US$ 3,51 bilhões para o Brasil.
Apesar dos bons resultados, a política de Javier Milei é de ataques ao governo brasileiro, em especial ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e ao Mercosul, inclusive com ameaças de saída do bloco econômico que reúne países da América do Sul.
União Europeia
Por falar em Mercosul, o Brasil lidera a articulação de países sul-americanos para, enfim, o acordo de livre comércio com a União Europeia (UE) sair do papel, até porque o bloco econômico europeu também entra na lista dos nossos principais parceiros.
Entre janeiro e julho deste ano, as vendas para a UE cresceram 3,9% e atingiram US$ 28,53 bilhões. As importações também apresentaram alta (5,7%) e totalizaram US$ 29,23 bilhões.
O tão sonhado acordo UE-Mercosul, há 20 anos em negociação, pode amenizar o impacto do tarifaço de Trump contra o Brasil, visto que o governo brasileiro atua com o setor produtivo na busca por novos mercados. A principal resistência do bloco europeu é a França, que adota política protecionista e faz exigências ambientais mais rígidas.
Na esteira do tarifaço, após ligação de Lula para o presidente francês, Emmanuel Macron, o Palácio do Planalto informou que os dois líderes se comprometeram a dialogar em prol da assinatura do acordo UE-Mercosul.
“Macron e Lula comprometeram-se a ultimar o diálogo com vistas à assinatura do acordo Mercosul-União Europeia ainda neste semestre, durante a presidência brasileira do bloco”, disse o Palácio do Planalto.
Brasil teve superávit de US$ 74 bi em 2024
Numa perspectiva geral, em 2024, a balança comercial do Brasil teve superávit de US$ 74,6 bilhões, o segundo maior da série histórica, atrás apenas do registrado em 2023, de US$ 98,9 bilhões.
Um dos destaques do período foi o recorde de exportação de US$ 181,9 bilhões pela indústria de transformação, maior valor desde o início da série histórica (1997). Por outro lado, a agropecuária apresentou queda de US$ 9 bilhões (-11%) nas vendas para o exterior.
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