
Agência Brasil
A primeira decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) em 2026 deve manter a taxa Selic em 15% ao ano, repetindo o patamar observado desde meados de 2025. A avaliação é do Jorge Ferreira, professor de Administração da ESPM, que aponta cautela do Banco Central diante de um cenário ainda marcado por inflação de serviços elevada, expectativas parcialmente desancoradas e riscos fiscais relevantes.
Segundo o especialista, a reunião do Copom marcada para 27 e 28 de janeiro tende a confirmar a manutenção da taxa, com eventual sinalização mais clara apenas nos encontros seguintes. “O consenso de mercado é de manutenção da Selic em 15% na reunião de janeiro. Esse é o ponto de partida para 2026”, afirma.
Por que a Selic subiu de 10,5% para 15%
A elevação dos juros entre 2024 e 2025 não foi resultado de um único fator, mas da combinação de pressões inflacionárias e incertezas macroeconômicas. Ferreira destaca que a inflação chegou a convergir para a meta apenas no fim de 2025, depois de ter permanecido elevada por vários meses.
“Houve uma inflação persistente, especialmente puxada pelo setor de serviços, que saiu de algo em torno de 4% para perto de 7% ao ano”, explica. Mesmo com o IPCA encerrando 2025 próximo de 4,25%, dentro do intervalo da meta, os núcleos de inflação continuaram pressionados.
Outro ponto central foi a perda de ancoragem das expectativas. As projeções para a inflação de 2025, que estavam perto de 3,7% no início de 2024, chegaram a superar 5,6% ao longo do período. “Quando as expectativas se desancoram, as curvas de juros sobem porque o prêmio de risco aumenta”, diz o professor.
A esse quadro se somaram o risco fiscal, com revisão das metas e aumento do déficit projetado, além da volatilidade cambial e de um mercado de trabalho aquecido, com desemprego em níveis historicamente baixos — fator que sustenta o consumo e pressiona preços.
Manutenção em 15% é cautela, não erro
Para Jorge Ferreira, a decisão de manter a Selic elevada por várias reuniões consecutivas não indica falha de diagnóstico do Banco Central, mas sim prudência. “Não é inércia nem erro. As métricas do BC são bem estabelecidas. Trata-se de uma política monetária deliberadamente contracionista”, avalia.
Ele cita o conceito de “overshoot moderado”, estratégia em que a autoridade monetária aceita manter os juros mais altos por mais tempo do que o mínimo necessário, justamente para evitar uma nova rodada de indexação de preços e garantir a reancoragem das expectativas.
O que o Copom vai observar na reunião de janeiro
Na decisão de janeiro, o Banco Central deve concentrar sua análise em quatro grandes blocos de informações, com foco no horizonte de 2026 e 2027:
- Inflação corrente e núcleos, especialmente o comportamento dos preços de serviços;
- Expectativas de inflação, observando se as projeções começam a convergir para algo próximo de 3% a 3,5%;
- Câmbio, pelo impacto potencial sobre preços via inflação importada;
- Mercado de trabalho, que segue aquecido e influencia o consumo.
“Sem uma reancoragem clara das expectativas, qualquer corte agora seria prematuro”, resume Ferreira.
Quando a Selic pode começar a cair
Apesar da manutenção esperada em janeiro, o professor vê espaço para o início de um ciclo de cortes ao longo do ano, caso os dados confirmem melhora consistente. “O que está sendo precificado hoje é um primeiro corte de 0,25 ponto percentual a partir de março, dependendo do comportamento da inflação nos dois primeiros meses do ano”, afirma.
Na avaliação dele, o cenário-base do mercado indica que a Selic pode encerrar 2026 em torno de 12,5% ao ano, com reduções graduais ao longo do período. Ainda assim, os juros reais devem permanecer acima do nível considerado neutro.
Selic em 15% combate a inflação ou trava a economia?
Ferreira reconhece que a taxa atual tem forte efeito contracionista. “Estamos falando de juros reais muito elevados, mais de nove pontos percentuais acima da inflação, o que encarece o crédito, reduz consumo e investimento e aumenta a inadimplência”, afirma.
Por outro lado, ele destaca que os juros altos também atuam no canal cambial, ampliando o diferencial de taxas em relação ao exterior e tornando o Brasil mais atrativo para investidores. Isso ajuda a conter a depreciação do real e reduz pressões inflacionárias adicionais.
“O grande dilema do Banco Central é avaliar se o benefício marginal de manter a Selic em 15% ainda supera o custo para a atividade econômica”, diz. Segundo o professor, enquanto o risco fiscal e a desancoragem das expectativas persistirem, o custo de cortar juros cedo demais pode ser maior do que o de mantê-los elevados.
À medida que a inflação converge para a meta, as expectativas melhoram e a atividade mostra sinais de enfraquecimento, esse equilíbrio tende a mudar. “Esse é o ponto em que o Banco Central começa, gradualmente, a reduzir o aperto monetário”, conclui.
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