Educação

“Lei Felca” impõe novas regras para redes sociais e proteção de menores

Nova legislação amplia controle sobre plataformas, proíbe práticas abusivas e reforça papel das famílias; especialista da USP aponta desafios de implementação e equilíbrio com privacidade

Da redação
DA REDAÇÃO

17/03/2026 • 12:15 • Atualizado em 17/03/2026 • 12:15

Resumo

Promulgação da Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, estabelece regras para proteção de crianças e adolescentes no ambiente online, atribuindo obrigações concretas a empresas de tecnologia quanto à verificação de idade, controle parental, restrição de publicidade direcionada, combate ao uso compulsivo, remoção rápida de conteúdos nocivos e regulação de jogos eletrônicos, com sanções que incluem multas e suspensão de atividades.

Influenciador Felipe Bressanim Pereira impulsionou o debate público e político sobre a exposição de menores na internet, levando à aceleração da tramitação do projeto no Congresso e à popularização do termo “Lei Felca”, enquanto especialistas destacam avanços na responsabilidade das plataformas, desafios técnicos para verificação etária, necessidade de equilíbrio entre proteção e privacidade, além da importância da supervisão contínua pelos responsáveis legais.

Implementação plena da lei depende de regulamentações detalhadas por órgãos como a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, especialmente sobre critérios técnicos e limites para verificação de idade, funcionamento da supervisão parental e parâmetros de fiscalização, em meio a um cenário de ampla presença digital de jovens e altos índices de exposição a conteúdos inadequados, sendo essencial o engajamento das famílias e a estruturação da fiscalização estatal.

Entrou em vigor nesta terça-feira (17) a Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital — um marco regulatório que estabelece novas regras para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online. A legislação foi sancionada em setembro de 2025 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e passa a valer para redes sociais, jogos eletrônicos, serviços de streaming e lojas de aplicativos.

Compartilhar

O texto ganhou destaque nacional após denúncias do influenciador Felipe Bressanim Pereira, que expôs a sexualização e exploração de menores nas redes sociais. A repercussão acelerou a tramitação do projeto no Congresso e levou à popularização do termo “Lei Felca”.

O que é o ECA Digital

O ECA Digital não substitui o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, mas amplia suas diretrizes para o ambiente virtual. A lei incorpora o princípio constitucional da proteção integral e estabelece que produtos e serviços digitais devem ser concebidos para proteger menores de 18 anos desde a origem.

Na prática, a legislação transfere parte da responsabilidade para as empresas de tecnologia, que passam a ter obrigações concretas na prevenção de riscos e na moderação de conteúdo.

Principais mudanças com a nova lei

A legislação cria um conjunto amplo de exigências para plataformas digitais:

Verificação de idade obrigatóriaA autodeclaração deixa de ser aceita. Empresas deverão implementar mecanismos técnicos eficazes para comprovar a idade dos usuários, como biometria ou outros métodos de validação.

Controle parentalContas de usuários com até 16 anos devem ser vinculadas a responsáveis legais, que poderão supervisionar o tempo de uso, interações e conteúdos acessados.

Proibição de publicidade direcionadaA lei veta o uso de dados de menores para segmentação publicitária, incluindo criação de perfis comportamentais e uso de análise emocional.

Combate ao uso compulsivoFerramentas que incentivem permanência excessiva, como rolagem infinita e reprodução automática de vídeos, passam a ser restritas.

Remoção de conteúdo nocivoPublicações envolvendo exploração sexual, violência, bullying ou incentivo à automutilação devem ser removidas em até 24 horas.

Restrições a jogosMecanismos como as “loot boxes”, presentes em jogos como Roblox, passam a ser alvo da legislação por estimularem comportamento semelhante a apostas.

SançõesEmpresas podem sofrer multas de até R$ 50 milhões ou 10% do faturamento, além de suspensão das atividades no país.

Papel do Felca na aprovação

O influenciador Felipe Bressanim Pereira teve papel central ao levar o debate sobre a exposição de menores ao grande público. Em vídeo publicado em 2025, ele denunciou práticas de exploração e monetização de conteúdos envolvendo crianças e adolescentes.

Especialistas avaliam que o tema já estava em discussão no Congresso, mas ganhou tração política e social após a repercussão do caso.

Especialista da USP aponta desafios e avanços

Para o professor Juliano Maranhão, da Faculdade de Direito da USP, o ECA Digital representa uma mudança relevante ao impor deveres diretos às plataformas.

Segundo ele, “o cerne da nova legislação é obrigar plataformas e empresas de tecnologia a adotarem medidas sobre quais conteúdos podem ou não ser acessados por menores”.

O especialista afirma que a lei segue o princípio constitucional de proteção integral e amplia a responsabilidade compartilhada entre Estado, empresas e famílias. Ele ressalta, no entanto, que a internet também tem papel positivo no desenvolvimento social e educacional.

“A internet traz riscos, mas também benefícios importantes, como socialização, acesso à informação e apoio educacional. Por isso, o controle deve ser feito com supervisão, não com proibição absoluta”, explicou a Rádio Bandeirantes.

Verificação de idade é principal desafio

Um dos pontos mais complexos, segundo Maranhão, é a implementação da verificação etária.

Ele afirma que a lei acerta ao proibir a autodeclaração, mas alerta para os desafios técnicos e operacionais.

“A autodeclaração é frágil e não garante proteção efetiva. As empresas terão que adotar métodos mais robustos, como biometria e inteligência artificial”, diz.

Ao mesmo tempo, ele aponta um dilema central da legislação: o equilíbrio entre proteção e privacidade.

“Existe um trade-off entre garantir que o conteúdo seja adequado e preservar a privacidade e os dados pessoais da criança. Esse equilíbrio será fundamental na regulamentação”, afirma.

Controle precisa ser contínuo, diz especialista

Outro ponto destacado pelo professor é que o controle não se limita ao momento do cadastro.

“O controle não é só antes do uso, mas durante. O dispositivo pode ser compartilhado entre adultos e crianças, então a supervisão precisa ser contínua”, explica.

Ele também destaca que o modelo brasileiro considera a realidade das famílias, onde dispositivos são frequentemente compartilhados.

Papel das famílias é reforçado

O ECA Digital amplia o papel dos responsáveis na supervisão digital. Para Maranhão, a família continua sendo o principal núcleo de proteção.

“O núcleo de proteção da criança e do adolescente está na família, e isso foi reforçado no ambiente digital”, afirma.

Ele orienta que pais e responsáveis:

  • acompanhem o uso da internet pelos filhos
  • conheçam os aplicativos utilizados
  • busquem informações sobre riscos
  • utilizem ferramentas de controle disponíveis

“Os pais precisam se informar e acompanhar. A participação deles é essencial para que a lei funcione”, diz.

Lei depende de regulamentação

Apesar de já estar em vigor, parte das regras ainda precisa ser detalhada por órgãos como a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

Segundo Maranhão, pontos como:

  • critérios técnicos de verificação de idade
  • limites para uso de biometria
  • parâmetros de tempo de uso
  • funcionamento da supervisão parental
  • ainda carecem de regulamentação.

“A legislação trouxe obrigações efetivas, mas precisa de ferramentas e detalhamento técnico para ser plenamente aplicada”, afirma.

Fiscalização é outro desafio

A efetividade da lei também dependerá da capacidade de fiscalização do Estado.

O professor avalia que a ANPD terá papel central, mas precisa de estrutura adequada.

“A autoridade precisa de orçamento, equipe e capacidade técnica para fiscalizar. Sem isso, a aplicação pode ficar limitada”, diz.

Por que a lei foi criada

A nova legislação surge em um cenário de ampla presença digital entre jovens no Brasil:

  • 92% das pessoas entre 9 e 17 anos usam internet
  • 85% têm redes sociais
  • mais da metade já teve contato com conteúdos inadequados

Além disso, estudos apontam altos índices de violência online, incluindo exploração sexual e exposição a conteúdos sensíveis.

Pontos que ainda devem gerar debate

O ECA Digital também traz aspectos que ainda devem ser aprofundados:

  • compartilhamento de “sinal de idade” entre aplicativos
  • exigência de relatórios periódicos de impacto pelas plataformas
  • proibição de análise emocional para publicidade
  • definição de limites entre proteção e privacidade

Esses temas devem ser detalhados em regulamentações futuras e podem abrir espaço para novos debates jurídicos e tecnológicos.

Um novo marco para o ambiente digital

O ECA Digital representa uma das iniciativas mais abrangentes do país para regular o ambiente online voltado a crianças e adolescentes. Impulsionada pela pressão pública após denúncias de Felipe Bressanim Pereira, a lei inaugura uma nova fase de responsabilização das plataformas.

Ao mesmo tempo, como apontam especialistas, sua efetividade dependerá da regulamentação, da capacidade de fiscalização e do engajamento das famílias na proteção dos jovens no ambiente digital.