Anestesiologia: como é a carreira do médico que decide em segundos

Especialidade reúne decisões críticas, rotina intensa e papel central na segurança do paciente, da cirurgia ao parto

PRISCILLA VIERROS

12/06/2026 • 11:00 • Atualizado em 12/06/2026 • 11:00

Anestesiologista monitora paciente e garante segurança durante a cirurgia

Anestesiologista monitora paciente e garante segurança durante a cirurgia

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Muito além do silêncio das salas cirúrgicas, a anestesiologia é uma das especialidades médicas mais estratégicas da medicina moderna. Responsável por garantir conforto, segurança e estabilidade clínica do paciente durante procedimentos, o anestesista atua em decisões críticas que podem definir o desfecho de uma cirurgia.

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Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre especialidades médicas, desenvolvida para auxiliar estudantes de medicina na escolha de suas futuras carreiras. O objetivo é apresentar os bastidores, os desafios e a realidade prática de cada área, oferecendo um guia realista para quem está prestes a decidir seu caminho profissional.

A trajetória da médica anestesiologista Marina Cestari de Rizzo revela o que está por trás dessa escolha profissional. O interesse pela medicina surgiu ainda no ensino fundamental, impulsionado pelo gosto por biologia e pela possibilidade de impactar diretamente a vida das pessoas.

Durante a graduação, a afinidade com situações de emergência e pacientes críticos a afastou do consultório tradicional. Foi no internato, ao vivenciar a anestesia, que veio a decisão definitiva.

“O anestesista é decisivo. O cirurgião não trabalha sozinho; ele precisa de um profissional que acompanhe todos os momentos e necessidades imediatas do paciente, principalmente nas emergências”, diz Marina Cestari de Rizzo.

Marina Rizzo I Crédito: Arquivo Pessoal

Marina Rizzo I Crédito: Arquivo Pessoal

Na prática, o papel do médico vai muito além de “fazer o paciente dormir”. Cabe ao anestesista promover analgesia, relaxamento muscular e monitorar continuamente as condições clínicas durante todo o procedimento. Isso inclui intervenções rápidas, como exames e transfusões, sempre que necessário.

Rotina intensa e decisões em tempo real

Com mais de três décadas de experiência, Marina coordena o serviço de anestesia de uma maternidade em São Paulo, com foco em anestesia obstétrica. A rotina começa cedo, entre 5h e 5h30, com a checagem de intercorrências da madrugada. No hospital, participa de reuniões multidisciplinares e divide o tempo entre gestão e atuação em casos complexos.

A carga horária gira em torno de 10 horas diárias, mas a conexão com o trabalho é praticamente contínua. “A obstetrícia não escolhe hora. Eu nunca desligo completamente”, relata.

O ritmo intenso já se mostra um desafio desde a residência. “O choque de realidade é perceber o tempo prolongado dentro do centro cirúrgico, em cirurgias longas. É uma rotina pesada que o estudante nem sempre dimensiona”, explica.

Entre os momentos mais críticos estão hemorragias e complicações cardiológicas, em que decisões precisam ser tomadas em segundos. Nesses cenários, a integração com o cirurgião e a equipe é fundamental.

Não se faz anestesia sem entender o tempo cirúrgico. Em situações críticas, toda a equipe segue uma liderança para salvar o paciente. Marina Cestari de Rizzo

O desgaste emocional também faz parte da rotina

Além da exigência técnica, o desgaste emocional também faz parte da rotina. Perdas maternas e neonatais estão entre as situações mais difíceis. “Eu lembro o nome de cada uma”, diz.

Outro desafio recente vem da relação com pacientes que chegam com informações desencontradas, muitas vezes vindas de redes sociais, o que pode gerar resistência ao cuidado médico.

Apesar disso, a médica afirma que é possível equilibrar vida pessoal e carreira, desde que haja estrutura e limites bem definidos. Atividades como esporte, caminhada e momentos com a família ajudam a manter esse equilíbrio.

Mercado aquecido e especialidade em alta

A anestesiologia segue como uma das especialidades mais buscadas na residência médica. Segundo Marina, a inserção no mercado é praticamente imediata para bons profissionais, embora a concorrência nas vagas de formação tenha aumentado.

Do ponto de vista financeiro, a carreira atende às expectativas, mas ela faz um alerta: “O médico precisa ter cuidado para não trabalhar demais e sacrificar a qualidade de vida apenas para aumentar os ganhos.”

Mitos sobre a profissão

Entre os principais equívocos sobre a área está a ideia de que o anestesista tem um papel secundário ou pouco ativo durante as cirurgias. “Existe o mito de que o anestesista ‘não faz nada’. Na verdade, somos intensivistas dentro da sala cirúrgica”, afirma.

Para quem considera seguir essa especialidade, o conselho é que o futuro médico tenha em mente o compromisso absoluto com o paciente. “Mesmo que ele não esteja consciente, você precisa ter certeza de que está oferecendo o melhor cuidado possível.”

Após 33 anos de carreira, Marina não hesita ao olhar para trás: “Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. A anestesia obstétrica é uma bênção. Participar desse momento transformador da maternidade é algo único.”