
Estudante superou luto e burnout para retomar o sonho da medicina
Arquivo Pessoal
A trajetória até a medicina nem sempre segue uma linha reta. Para Kézya Vitorino Tavares, 30, o caminho foi marcado por pausas, recomeços e, sobretudo, resiliência. Hoje, no 7º período do curso de medicina na Faseh, ela carrega uma história que atravessa dificuldades financeiras, perdas familiares e uma reinvenção pessoal profunda.
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Natural de Belo Horizonte (MG), Kézya conta que o desejo de fazer medicina surgiu ainda na adolescência, impulsionado pelo cuidado com o outro e pela vontade de ajudar. A inspiração também vinha de histórias familiares: a avó materna, parteira no interior de Minas Gerais, tornou-se uma referência, mesmo sem que Kézya tivesse convivido com ela.
Apesar da vocação, o sonho parecia distante. Sem recursos para uma faculdade particular, tentou vestibulares por dois anos, sem sucesso. A realidade bateu à porta e exigiu uma mudança de rota. A aprovação em Enfermagem, com bolsa integral na PUC Minas, marcou o início de uma nova fase, inicialmente difícil, mas que se transformou em propósito.

Kézya e o avô I Crédito: Arquivo pessoal
Formada em meio à pandemia de Covid-19, Kézya viveu a intensidade da linha de frente. Trabalhou em dois hospitais simultaneamente, enfrentando jornadas exaustivas e o medo constante de contaminar familiares.
Especializou-se em urgência, emergência e terapia intensiva neonatal e pediátrica, avançou para a gestão hospitalar e chegou a liderar cinco setores em um hospital filantrópico, onde foi reconhecida como profissional destaque.
Mas foi em 2023 que sua história ganhou um novo capítulo. Após enfrentar um quadro de burnout, deixar o emprego e lidar com a perda do avô, a quem considerava um segundo pai, Kézya se viu sem perspectivas.
Foi o incentivo do marido que reacendeu uma antiga chama: retomar o sonho da medicina. A decisão mudou o rumo de sua vida.
Estava à deriva, como em uma boia no meio do oceano. A medicina me trouxe de volta. Me deu fôlego e esperança. Kézya Vitorino Tavares
A aprovação veio de forma inesperada, após um processo seletivo para obtenção de novo título. O ingresso na faculdade trouxe novos desafios: mudança de cidade, dificuldades financeiras, adaptação ao método de ensino ativo (PBL) e a distância do marido durante a semana.
Ainda assim, Kézya seguiu firme, sustentada por uma rede de apoio familiar que, até hoje, contribui coletivamente para custear sua formação.
Na rotina acadêmica, ela destaca o impacto da prática desde os primeiros períodos e o olhar humanizado da formação médica. Entre os momentos mais marcantes está o primeiro diagnóstico de câncer realizado ao lado de um professor, experiência que, segundo ela, jamais será esquecida.
Mais madura, conta que aprendeu a lidar com a pressão e a autocobrança. “Entendi que as prioridades mudam e que está tudo bem. A autoaceitação é fundamental”, reflete.
Sem definir ainda a especialidade, Kézya considera áreas como cardiologia e neonatologia, influenciada, talvez, por suas origens e vivências. Para ela, independentemente da escolha, o objetivo é ser uma médica humana, que enxergue o paciente além da doença.
Para quem sonha em seguir o mesmo caminho, ela deixa um recado: “Não desista. Tenha disciplina e mantenha os pés na realidade. Se for vocação, vale a pena”.
A história de Kézya não é apenas sobre chegar à medicina, mas sobre reencontrar sentido na vida e provar que, mesmo após desvios, alguns caminhos continuam esperando para serem trilhados.
