
De jaleco, Gabriel vive o sonho de cursar medicina
Arquivo pessoal
Gabriel Galvão, 26, morador de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, sempre foi incentivado pela família a estudar. Desde a infância e a adolescência, buscava uma carreira que o mantivesse próximo da tecnologia, das ciências e do que chama de “fronteira do conhecimento”. Hoje, estudante do segundo semestre de medicina, ele vive uma realidade que durante muito tempo considerou distante: a de se preparar para ser médico.
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A trajetória até a faculdade, porém, foi marcada por mudanças, perdas e recomeços. Aos 17 anos, com a nota do Enem 2016, Gabriel conseguiu uma vaga em biofísica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Foram anos que ele guarda com carinho. “Aprendi muito, amadureci como ser humano e ganhei uma grande bagagem intelectual e inteligência emocional”, conta.
A pandemia de Covid-19, no entanto, mudou os rumos de sua vida. Em meio à crise sanitária, Gabriel viu os pais adoecerem. “Foram dias muito difíceis. Minha mãe ficou internada por cerca de duas semanas, e meu pai, cerca de um mês e meio, chegando a ser entubado e extubado algumas vezes. Infelizmente, ele não resistiu e, no dia 1º de julho de 2021, perdi o meu pai, vítima da pandemia”, lembra.
A perda afetou profundamente Gabriel. Ele conta que desenvolveu depressão, ansiedade e transtorno bipolar. Filho único, precisou lidar com o adoecimento dos pais e, ao mesmo tempo, com a pressão da faculdade. Diante daquele cenário, decidiu trancar o curso de Biofísica.
Mesmo em meio ao sofrimento, uma lembrança do pai permaneceu como referência. Ele costumava dizer ao filho: “Tenha sempre um propósito em sua vida”. As palavras ganharam outro significado nos anos seguintes. “Em 2021 e 2022, eu me via completamente perdido, com a faculdade de Biofísica trancada, sem nenhum propósito. Tentei ser muitas coisas por muitos anos”, conta.
Gabriel chegou a estudar e trabalhar como editor de vídeo e designer. Em 2023, por recomendação da família, decidiu se dedicar aos concursos públicos. Foram anos de preparação, até o início de 2026, quando descobriu uma possibilidade que mudaria novamente sua trajetória.
O Quero Estudar Medicina mudou a trajetória de Gabriel
No início de 2026, Gabriel conheceu o projeto Quero Estudar Medicina. Alguns episódios do videocast chamaram sua atenção, principalmente os conteúdos sobre vestibulares de medicina, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Fies Social.
Foi acompanhando os conteúdos que ele descobriu que poderia utilizar a nota do Enem de 2016 para tentar uma vaga pelo programa. A informação abriu uma possibilidade que, até então, parecia distante.
Eu tentei uma vaga na UNIABEU, pelo Fies Social, e consegui, seguindo as dicas principais dos especialistas que estavam naqueles episódios do Quero Estudar Medicina. Gabriel Galvão
A escolha da faculdade também levou em consideração a proximidade de sua casa. Dessa forma, a família poderia ajudá-lo a lidar com os custos relacionados à graduação. Como o curso é integral, Gabriel conta que suas principais despesas são com transporte, alimentação e o seguro do financiamento.
“Graças a Deus não falta comida, temos um teto e agradeço muito todos os dias por isso. Durante o curso, estou me mantendo com a ajuda financeira da minha família. Moro com o meu avô paterno, meu tio e minha mãe. Sonho que, além de poder fazer algo que amo, que é a medicina, futuramente poderei dar a qualidade de vida que minha família merece.”
A primeira pessoa com quem compartilhou a aprovação foi a mãe. A notícia também trouxe de volta a lembrança do pai, que Gabriel considera seu melhor amigo e seu maior incentivador nos estudos.
“Depois de ver o resultado, eu corri para ela, a abracei e falei: ‘Mãe, eu consegui! Passei em medicina!’. Fiquei superemocionado e ela também, pois lembramos do meu pai. Ele era o meu melhor amigo e o maior incentivador aos estudos que já tive na vida. Ele estaria muito orgulhoso de mim.”

Para Gabriel, o importante é nunca desistir de sonhar I Crédito: Aqruivo Pessoal
Um sonho que parecia distante
Gabriel conta que, por muito tempo, sequer considerou a possibilidade de cursar medicina. Embora admirasse a profissão, não sabia quais caminhos poderia seguir para tornar o sonho possível.
“Na verdade, eu tentei fazer outros cursos porque medicina sempre me pareceu muito distante. Mesmo admirando a profissão e sonhando alto com isso, eu nunca soube como fazer para realizar esse sonho.”
Por isso, encontrar informações sobre o Fies teve um peso importante em sua decisão. Segundo Gabriel, sem o financiamento, dificilmente conseguiria arcar com os custos de uma graduação particular em medicina. A alternativa seria continuar se preparando durante anos para conquistar uma vaga em uma universidade pública.
“Seria impossível sem o Fies Social, por isso falo tanto dele. Talvez eu teria que ficar anos estudando para entrar em uma universidade pública, e seria impossível pagar as mensalidades de medicina em uma particular. Só foi por causa do Quero Estudar Medicina que aprendi como fazer meu sonho acontecer.”
Os primeiros desafios da faculdade de medicina
A chegada à faculdade trouxe novas descobertas. No segundo semestre do curso, Gabriel percebe que a realidade da graduação é diferente da imagem que muitos estudantes constroem antes de ingressar em medicina. “A grande maioria das pessoas que entram em medicina fantasia muito o curso."
Para ele, os primeiros meses foram marcados por inseguranças, uma rotina intensa de estudos e a necessidade de aprender a lidar com algumas frustrações. Entre as experiências que mais o surpreenderam está o trabalho em equipe, incentivado desde os primeiros períodos.
Gabriel entende que essa dinâmica também funciona como preparação para a futura rotina médica. “Vamos lidar com humanos. Além de precisarmos sempre ter humanidade, é essencial que todos, unidos, saibam fazer a sua parte”, destaca.
Nesse processo, as palavras de incentivo dos professores também ganharam um significado especial. “Eu sou muito apegado a esse lado emocional e motivacional”, conta.
Depois de ter passado por outra graduação antes de chegar à medicina, o estudante afirma ter aprendido a respeitar o próprio ritmo e a evitar comparações com os colegas. Para ele, reconhecer os próprios limites também faz parte da formação.
A morte do pai continua sendo a experiência mais difícil de sua trajetória, mas também se transformou em uma fonte de força. “Tirei força de onde eu não tinha e consegui chegar onde estou”, afirma.
No futuro, Gabriel espera se tornar um médico cuidadoso e humilde, capaz de “olhar no olho” dos pacientes e preservar a humanidade como parte essencial da profissão.

Gabriel, ao lado da mãe e do pai I Crédito: Arquivo Pessoal
Um sonho que vale a persistência
Para quem ainda busca a aprovação em medicina, Gabriel deixa uma mensagem baseada na própria experiência. Sua trajetória, marcada pela perda do pai, pela interrupção de uma graduação e por anos de incerteza até encontrar um novo propósito, tornou-se uma prova de que o caminho pode ser difícil, mas também pode ser possível.
“Nunca desista do seu sonho. Muitos vão te dizer que não será possível. Mas prove que eles estão errados”, aconselha.
A rotina da graduação também trouxe desafios que ele não imaginava antes de ingressar no curso, como as noites de estudo e a intensidade da formação. Ainda assim, acredita que o esforço tem valido a pena. “Todos sabemos como o curso é puxado. Mas, sim, cada segundo de estudo vale a pena. Está valendo, e muito”, afirma.
Aos familiares e amigos de quem escolhe seguir esse caminho, Gabriel pede apoio e compreensão diante das dificuldades. Para ele, apesar dos desafios, o orgulho de seguir uma profissão que realmente ama torna a jornada especial. “No futuro, colheremos todos os frutos. Siga seu propósito”, aconselha.
Da preparação para concursos à inspiração para outros estudantes
O propósito de ajudar outras pessoas a seguirem seus sonhos também encontrou espaço fora da faculdade. Em 2024, Gabriel criou no YouTube o canal Gabe Concursos Públicos, inicialmente voltado para dicas de estudo e preparação para concursos.
O projeto cresceu e hoje reúne mais de 15 mil inscritos. Desde que foi aprovado em medicina, Gabriel também passou a compartilhar com os seguidores momentos de sua rotina como estudante e os caminhos que percorreu até chegar à faculdade.
A experiência de ajudar outras pessoas, aliás, se tornou uma das atividades de que mais gosta na nova fase da vida. “Uma das minhas coisas prediletas hoje em dia na medicina é ajudar e saber que pude mudar algo, para bom, na vida de alguém”, conta.
Recentemente, ele compartilhou com os seguidores mais uma conquista: a aprovação em medicina pelo Fies Social. Desta vez, porém, a novidade carregava um significado ainda maior. A história de superação que um dia foi apenas sua agora também pode servir de inspiração para outros estudantes que sonham com a medicina, mas ainda não sabem qual caminho seguir para chegar até lá.
