Educação

Ele era catador de feijão, mas aos 58 anos se tornou estudante de medicina

Após infância dedicada à roça, 21 anos na lavoura, José Aparecido da Silva inicia a faculdade de Medicina em Presidente Prudente e se inspira na filha médica

Da redação
DA REDAÇÃO

06/08/2026 • 13:53 • Atualizado em 06/08/2026 • 13:55

José Aparecido da Silva em foto oficial da cerimônia de acolhimento, no Teatro César Cava, em Presidente Prudente

José Aparecido da Silva em foto oficial da cerimônia de acolhimento, no Teatro César Cava, em Presidente Prudente

Ector Gervasoni

Aos 58 anos — prestes a completar 59 em dezembro —, José Aparecido da Silva vive a realização de um sonho que começou a ser desenhado ainda no trabalho rural. O ex-agricultor e ex-frentista é um dos novos alunos da Faculdade de Medicina de Presidente Prudente (Famepp), da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste). Na manhã de quarta-feira (5), ele participou da recepção aos calouros no Teatro César Cava, em Presidente Prudente (SP).

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Conhecido popularmente como Cido do Posto, o estudante comemora a virada de chave em sua trajetória. Para se dedicar ao curso em tempo integral, ele deixará o trabalho no setor de combustíveis, onde atuou nos últimos 32 anos como frentista, caixa e gerente. Inicialmente, o custeio dos estudos virá da venda de suas cotas do posto e de um imóvel. No fim do ano, Cido pretende prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para tentar uma bolsa ou financiamento pelo Sisu, Prouni ou Fies.

Infância na roça e 21 anos de trabalho no campo

A trajetória do novo universitário é marcada pelo trabalho pesado desde a infância. Nascido em Álvares Machado (SP), Cido começou a ir para a roça com os pais aos sete anos de idade. Foram 21 anos dedicados às lavouras de algodão, feijão e amendoim, com passagens pelo distrito de Costa Machado, em Mirante do Paranapanema (SP).

Sem força física suficiente para arrastrar os sacos de estopa pesados na colheita manual do algodão quando criança, Cido utilizava latas para recolher as plumas antes de despejá-las nos sacos. Já na vida adulta, trabalhou como motorista de caminhão canavieiro antes de se mudar para Presidente Prudente, em 1994, e iniciar a carreira nos postos de combustível.

A aprovação no vestibular de Medicina veio cerca de 40 anos após a conclusão do ensino básico na rede pública, na Escola Estadual Zulenka Rapchan. Sem frequentar cursinhos preparatórios, o ex-agricultor revisou os conteúdos por conta própria antes de prestar o exame. "Sempre fui um bom aluno, mas não foi fácil passar no vestibular", destacou Cido sobre a conquista na Unoeste, instituição avaliada pelo Ministério da Educação (MEC) com nota máxima no curso de Medicina.

Exemplo na família e transformação de vida

A vocação para a área da saúde também se estende à família. A filha de Cido, Ana Caroline, formou-se em Medicina pela própria Unoeste há três anos e trabalha no Programa Mais Médicos em Capela do Alto (SP). O filho mais velho do casal, Wallas Douglas, mora em Portugal e atua como cozinheiro.

Além da conquista acadêmica, Cido passou por uma grande mudança no estilo de vida. Após cirurgias cardíaca e de vesícula em 2019, ele iniciou uma reeducação alimentar e uma rotina de exercícios no ano passado, chegando a perder 28 kg com caminhadas e corridas de até 10 km praticadas ao lado da esposa, Maria do Socorro.

Integrado à 63ª turma da Famepp, José Aparecido da Silva foi recebido com festa pelos colegas de classe, pela coordenadora do curso, Dra. Nilva Galli, e pelo diretor-presidente da mantenedora da Unoeste, Dr. Augusto César de Oliveira Lima.