“O problema não é o aluno, é o jeito que se ensina”, diz especialista em cursinhos de Medicina

Marcel Costa critica o modelo tradicional de ensino e explica por que aprender bem é mais importante do que estudar muito para passar em Medicina

PRISCILLA VIERROS

03/09/2025 • 23:20 • Atualizado em 03/09/2025 • 23:20

O segredo do vestibular não está em decorar conteúdos, mas em entender o que será cobrado

O segredo do vestibular não está em decorar conteúdos, mas em entender o que será cobrado

Divulgação/Arquivo pessoal

Entrar em Medicina é um dos maiores desafios acadêmicos do Brasil. A concorrência é altíssima e, para muitos, a aprovação parece distante. Mas o problema estaria no aluno ou no jeito que se ensina? Para Marcel Costa, engenheiro da USP e diretor do IntegralMind – cursinho individual voltado à aprovação em Medicina –, o ponto central não é a carga de estudo, mas como o estudante aprende.

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Segundo Costa, que começou a dar aulas particulares aos 15 anos e acumulou experiência ao longo de duas décadas em escolas, cursinhos e na direção pedagógica, até criar uma metodologia própria, as dificuldades surgem cedo, ainda no ensino fundamental, quando falta conexão entre teoria e vida real.

Eu percebi que os alunos não gostavam de estudar porque não viam sentido no que estavam aprendendo

O acúmulo de lacunas gera ansiedade, agravada pela pressão da escola, dos cursinhos e da família. “O aluno entra em pânico, a cognição diminui e o desempenho despenca. Muitas vezes, quem estuda menos vai melhor porque chega mais tranquilo à prova”, diz.

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A engenharia educacional do vestibular

Para o especialista, estudar para Medicina exige estratégia. Ele chama seu método de “engenharia educacional”, que une diagnóstico individual, foco nos pontos fracos e treino direcionado para cada exame, com simulações de provas específicas.

“No modelo que desenvolvi na IntegralMind, as aulas são individuais e duas vezes por semana. A partir delas, o aluno recebe tarefas personalizadas, acompanhadas em tempo real por aplicativos de organização. É diferente de sentar horas na sala de aula só ouvindo. Isso gera ocupação real e foco no que importa”, explica Costa.

Ele ainda ressalta que cada exame tem um estilo. O Enem cobra muito texto, enquanto outras provas exigem cálculo. “Não é só saber o conteúdo, é jogar o jogo daquela prova. Muitos cursinhos fazem o aluno estudar três vezes mais do que precisa, e isso só aumenta a pressão”, afirma.

Estudar bem é mais importante do que estudar muito

Costa também destaca o impacto emocional. “Existe um ponto ótimo entre cobrança e tranquilidade. Se o estudante relaxa demais, não evolui; se é pressionado em excesso, trava. Sem lidar com a parte emocional, o potencial fica desperdiçado.”

O segredo do vestibular não está em decorar conteúdos, mas em entender o que será cobrado. “Aprender a estudar é, na verdade, aprender a entregar. Não é ler o livro inteiro, mas saber o que o professor vai perguntar. É pensar com a cabeça de quem formula a prova”, afirma.

Concorrência e elitização

Para Costa, o vestibular de Medicina tem uma lógica particular, por causa da altíssima concorrência. Ele cita a própria Fuvest, vestibular da USP, como exemplo:

“A prova da Fuvest, até 2015, vinha ficando cada vez mais difícil, principalmente por causa da Faculdade de Medicina. Eles não podiam deixar mais de cem candidatos gabaritarem, porque não havia critério para desempatar. Então, começaram a complicar: questões longas, etapas adicionais. Chegou uma hora que ficou insano e eles mesmos precisaram rever a estratégia”, explica.

Segundo o especialista, esse movimento gerou uma cultura de elitização em torno de Medicina. “Cursinho de Medicina é mais caro, o vestibular é tratado como o mais difícil, há uma aura de exclusividade em torno da carreira. Isso acaba sendo muito mais uma jogada comercial do que algo realmente necessário”, critica.

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O marketing dos cursinhos

A diferença de preços também chama atenção: enquanto cursinhos tradicionais para outras áreas custam entre R$ 200 e R$ 300, os especializados em Medicina chegam a R$ 1.500.

“A matéria é a mesma. O que eles fazem é dar mais do mesmo: mais listas, exercícios mais difíceis, mais horas de aula. Pouquíssimos realmente oferecem algo diferente, como aprofundamento em temas muito específicos. No geral, é uma jogada de marketing”, avalia Costa.

Para ele, um estudante poderia passar em Medicina fazendo um cursinho comum — ou até estudando sozinho. “O problema não é a carga de estudo, mas a ineficiência do processo. Tem gente que lê um texto vinte vezes sem entender. Se tivesse uma leitura eficaz, com compreensão de primeira, já bastava. O que falta é orientação”, diz.

O colapso do modelo tradicional

Na avaliação do engenheiro, os cursinhos nasceram como revisão do ensino médio, mas não se adaptaram à nova realidade. “As provas ficaram mais complexas e a solução foi empurrar mais carga. É como forçar uma chave errada na fechadura: o sistema quebra. Hoje vemos alunos ansiosos, doentes, perdidos”, afirma.

A internet trouxe alternativas, mas, segundo ele, também com limitações. “O online tem material, mas não tem diagnóstico. O aluno precisa saber se a dificuldade vem de falta de base, hábito ou disciplina. Sem isso, estudar sozinho é como andar no escuro.”

Não existe receita milagrosa. Não tem um lugar que você paga e garante a aprovação

Costa pontua que o essencial é que o estudante se torne participante ativo do próprio aprendizado — algo raro em escolas e cursinhos. "O que interessa é aprender de verdade e ter autonomia no estudo”, afirma.

O papel do Enem na democratização

Se, por um lado, há um mercado concentrado em torno da Medicina, por outro, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem ampliado o acesso. Marcel vê a prova como um avanço importante para democratizar o ingresso em faculdades.

“Graças a Deus o Enem trouxe uma deselitização. Hoje, com Programa Universidade para Todos (Prouni) e Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), alunos de baixa renda conseguem chegar a Medicina. Isso é fundamental, porque precisamos de bons profissionais em abundância, não só de quem pode pagar escolas caríssimas”, defende.

Ele lembra que o Enem nasceu em 1998 como um exame simples de verificação de alfabetização e foi evoluindo até se tornar relevante nas instituições. “Estudar bem para o Enem abre várias opções ao mesmo tempo”, afirma.

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Dicas para quem sonha com Medicina

Ao final da entrevista, Marcel Costa deixa um recado aos vestibulandos: “Se você tiver boa vontade, já tem tudo para passar. Use a internet para entender a prova e foque nela.”

Ele recomenda planejar bem os estudos, simulando notas e priorizando os pontos fracos. “Duas horas diárias, com rotina e estrutura, bastam para passar em Medicina pelo Enem, sem precisar de aulas extras”, conclui.

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