Conheça as mulheres que abriram caminho para as médicas no Brasil

Inspiradas pelo desejo de cuidar, Maria Augusta Estrela, Rita Lobato e Maria Odília Teixeira venceram o preconceito e ajudaram a transformar a saúde no Brasil

PRISCILLA VIERROS

06/03/2026 • 16:35 • Atualizado em 06/03/2026 • 16:35

Maria Augusta Estrela, Rita Lobato e Maria Odília Teixeira deixam legado de humanização no cuidado

Maria Augusta Estrela, Rita Lobato e Maria Odília Teixeira deixam legado de humanização no cuidado

Reprodução

A história da presença feminina na medicina no Brasil é marcada por superação e por um profundo senso de cuidado. Antes de 1879, a legislação brasileira proibia mulheres de frequentar cursos superiores. O cenário começou a mudar com Maria Augusta Generoso Estrela, considerada a primeira médica brasileira. Embora tenha se formado em Nova York, em 1881, aos 21 anos, sua trajetória tornou-se uma força motriz para a pressão social sobre o poder público, contribuindo para que as universidades brasileiras passassem a abrir suas portas ao público feminino.

Compartilhar

Entre no canal do WhatsApp do Quero Estudar Medicina e receba conteúdos exclusivos.

A trajetória da primeira médica brasileira é marcada por um senso de dever social ainda precoce. Aos 13 anos, sofreu um acidente com a família e ajudou a salvar passageiros em um naufrágio. O desejo de estudar medicina ganhou forma em 1874, quando ela conheceu a história de Elizabeth Blackwell, a primeira mulher a se formar em medicina nos Estados Unidos.

Além da prática médica, Maria Augusta compreendeu que o cuidado com a mulher deveria ultrapassar as paredes do consultório. Juntamente com a colega Josefa Oliveira, fundou o jornal A Mulher. A publicação tornou-se uma ferramenta de luta voltada à defesa dos interesses e dos direitos das brasileiras, especialmente no que se refere ao acesso ao ensino superior e ao exercício profissional sem preconceitos.

Maria Augusta Generoso Estrela (1860–1946) foi a primeira médica brasileira I Divulgação/ Fonte desconhecida

Maria Augusta Generoso Estrela (1860–1946) foi a primeira médica brasileira I Divulgação/ Fonte desconhecida

Quando retornou ao Brasil, em 1882, revalidou seu diploma na Faculdade de medicina do Rio de Janeiro e passou a dedicar seu trabalho principalmente ao atendimento de mulheres e crianças. Faleceu aos 86 anos, em 1946, na cidade do Rio de Janeiro.

O cuidado como resposta à dor

Rita Lobato Velho Lopes, a primeira mulher a obter o diploma em Medicina em uma instituição brasileira I Divulgação/ Domínio público

Rita Lobato Velho Lopes, a primeira mulher a obter o diploma em Medicina em uma instituição brasileira I Divulgação/ Domínio público

Para Rita Lobato Velho Lopes, a primeira mulher a obter o diploma de medicina em uma instituição brasileira, em 1887, a escolha da profissão foi uma resposta direta a experiências pessoais de perda.

Rita decidiu ser médica após presenciar a morte da própria mãe durante um trabalho de parto. Motivada a evitar que outras famílias passassem pela mesma dor, matriculou-se inicialmente na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, transferindo-se depois para a Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador.

Após defender a tese A operação cesariana, obteve o título de médica, especializou-se em obstetrícia e retornou ao Rio Grande do Sul. Seu consultório era frequentado por mulheres de todas as classes sociais, consolidando a imagem da médica como uma figura de proteção e acolhimento.

Além da carreira médica, Rita foi uma importante ativista pelos direitos das mulheres, defendendo inclusive a educação igualitária. Foi eleita vereadora pelo Partido Libertador em 1935 e exerceu o mandato até a implantação do Estado Novo, em 1937. Faleceu aos 87 anos, na cidade de Rio Pardo.

A primeira médica negra e o combate ao racismo

Maria Odília Teixeira foi a primeira mulher negra a se formar em Medicina no Brasil e também a primeira professora negra da Faculdade de Medicina da Bahia I Divulgação/ Arquivo pessoal

Maria Odília Teixeira foi a primeira mulher negra a se formar em Medicina no Brasil e também a primeira professora negra da Faculdade de Medicina da Bahia I Divulgação/ Arquivo pessoal

Bisneta de uma mulher escravizada e filha do médico Dr. José Teixeira, Maria Odília Teixeira formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1909, tornando-se a primeira médica negra do Brasil. Cinco anos após a graduação, também se tornou a primeira professora negra da mesma faculdade onde estudou.

Apesar de médico, o patriarca da família era de origem humilde, e sua formação só foi possível graças à ajuda de um dos irmãos, Tertuliano Teixeira, bacharel em Direito, que contribuiu para que ela concluísse o curso. Sua trajetória foi marcada por uma resistência silenciosa e altiva diante do racismo e do machismo da época.

Fluente em cinco línguas, Maria Odília desafiou o chamado “racismo científico” de seu tempo com teses inovadoras sobre a cirrose. Ao atuar na Clínica Obstétrica, reforçou o legado de cuidado das pioneiras, acolhendo especialmente mulheres mais pobres e frequentemente invisibilizadas pelo sistema de saúde. Morreu em 1970, aos 86 anos.

O impacto do legado

Dados da Demografia Médica no Brasil 2025 mostram que as mulheres já representam 50,9% dos médicos em atividade no país e devem ampliar essa maioria nas próximas décadas. A projeção do estudo é que esse percentual chegue a 55,7% até 2035.

O levantamento também indica que especialidades como Pediatria, Ginecologia e Clínica Médica registram maior interesse entre mulheres, em contraste com a concentração masculina em áreas tecnológicas ou cirúrgicas.

A exemplo de Rita, Maria Augusta e Maria Odília, as mulheres tendem a priorizar áreas de atenção primária e de cuidado direto, sendo a atuação feminina frequentemente associada a melhores índices de atendimento a populações em situação de vulnerabilidade.

A trajetória iniciada no século XIX por essas pioneiras, que, além de médicas, defenderam no campo político o direito das mulheres ao estudo, hoje se reflete em uma medicina mais humanizada. O exemplo de sua luta continua a inspirar gerações que buscam não apenas o diploma, mas também a transformação social por meio do cuidado.