
Estudar Medicina no Paraguai pode parecer mais barato, mas a revalidação no Brasil é um desafio que exige cautela
Divulgação/Freepik
Deixar tudo para trás e atravessar a fronteira em busca de um sonho é a realidade de muitos brasileiros que enxergam no Paraguai a chance de finalmente cursar Medicina. Pesquisa recente do Ministério da Educação do Paraguai aponta que 75% dos universitários de Medicina no país são brasileiros, vindos de diversas regiões do Brasil.
A promessa de mensalidades mais baixas, processo seletivo simplificado e a possibilidade de driblar a concorrência dos vestibulares brasileiros atraem centenas de estudantes todos os anos. Mas, por trás da aparente facilidade, há desafios financeiros, culturais e emocionais.
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A carioca Tamires de Andrade, 37 anos, formada em Biologia, viu na oportunidade de estudar Medicina fora do Brasil uma chance tentadora. “No segundo semestre de 2020, durante a pandemia, comecei o curso na modalidade EAD”, lembra. Com o avanço da retomada das aulas presenciais, porém, viajar para outro país tornou-se obrigatório algumas vezes por semana.
Tamires e família I Divulgação/ Vivian @boraláfotografar
“Foi muito difícil. Primeiro, por deixar minha família no Brasil — sou casada e já tinha dois filhos, sendo uma bebê”, conta. A decisão de se mudar com a família para ficar mais próxima da faculdade não foi simples. A logística envolvia o marido, os filhos (Bernardo José, dois anos, e Maria Agnes, ainda bebê) e a falta de apoio familiar próximo. Mesmo assim, Tamires e a família se mudaram para Foz do Iguaçu, na fronteira com o Paraguai. Hoje, a família conta com mais uma integrante, Aurora, que nasceu enquanto ela termina a faculdade.
A paranaense Lorena Taketomi, 44 anos, formada em Marinha Mercante e Odontologia, também reorganizou a vida familiar e cruza diariamente a fronteira para assistir às aulas. “Levo duas horas para ir e duas horas para voltar”, afirma. Ambas concordam que estudar fora exige coragem, maturidade e disposição para enfrentar barreiras além da sala de aula.
Lorena em seu ambiente de estudo I Divulgação/ Arquivo pessoal
O idioma é um dos maiores desafios. Lorena explica que, atualmente, o Paraguai exige proficiência em espanhol até o segundo ano do curso, quando se inicia o ciclo clínico. “Muita gente acha que aprende espanhol pela vivência, mas na região em que moro muita gente fala português, e isso atrapalha o aprendizado. ”
Tamires acrescenta que a barreira linguística impacta diretamente provas orais e raciocínio clínico. “Os professores exigem que você raciocine em espanhol. Não é fácil, exige dedicação e paciência”, destaca.
A adaptação cultural também exige esforço. “Não é fácil para quem está sozinho. A saudade da família e a relação com um país novo, com uma cultura muito diferente, são barreiras reais”, pontua Lorena.
Tamires reforça que preparo emocional é essencial: “Conheço pessoas que vieram, organizaram tudo e desistiram. É estressante. Muitos não conseguem vencer, principalmente se vêm sozinhos. Vir preparado de coração aberto é essencial. ”
Os custos surpreendem muitos estudantes. “A pessoa pensa que vai gastar só com a mensalidade, mas na prática os custos são três vezes maiores, somando transporte, alimentação e moradia. Todo semestre tem gente que desiste: uns por não conseguir passar, outros por não conseguir pagar ou por fatores emocionais. Muitos trabalham como Uber, cuidadores, professores particulares ou em farmácias para se manter”, explica Lorena.
Apesar das dificuldades, a qualidade do ensino é reconhecida por ambas. “É importante saber que o nível de exigência é alto. Na minha faculdade, se você reprovar em três matérias, precisa refazer o semestre. Muitos jovens passam mais anos estudando do que o período normal”, observa Lorena.
Tamires comenta que agora foca no internato e na preparação para o Revalida, exame que valida o diploma no Brasil. “É um desafio enorme revisar todo o conhecimento adquirido em seis anos, e o exame é caro, mas é um problema que terei que enfrentar”, completa.
O boom das faculdades paraguaias
Hoje, estima-se que cerca de 40 mil brasileiros cursam Medicina no Paraguai. A proximidade geográfica, a dispensa de vestibular e os custos menores atraem muitos estudantes, mas os desafios surgem ao tentar exercer a profissão no Brasil. Para validar o diploma, é obrigatório passar pelo Revalida, que inclui prova teórica e prática, comprovação de carga horária compatível e documentação regularizada.
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Alta taxa de reprovação
A decisão de estudar Medicina no Paraguai exige uma análise realista. O custo inicial é menor, mas a insegurança na revalidação pode transformar o investimento em prejuízo. Segundo dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), dos 15.949 candidatos presentes na primeira etapa do Revalida 2025/1, apenas 4.500 foram aprovados, o que representa uma taxa de 28,21% de aprovação.
A maior dificuldade recai sobre estudantes com pouca prática hospitalar, sem vivência clínica consistente, além de exigências legais como proficiência em português técnico, que impacta quem estudou parte do curso em espanhol.
Vale a pena ou não?
Estudar Medicina no Paraguai pode ser uma alternativa viável para quem não tem condições financeiras de arcar com mensalidades brasileiras ou não quer esperar por novas tentativas de vestibular. No entanto, é um caminho cheio de riscos, especialmente pelo alto índice de reprovação no Revalida.
Para quem avalia essa escolha, o recomendado é pesquisar profundamente a reputação da universidade, conversar com ex-alunos e planejar os custos extras da revalidação. O sonho da Medicina pode até começar no Paraguai, mas só terá valor no Brasil se for validado com preparo sólido e estratégico.
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