Largou a enfermagem para cursar medicina: conheça a história de Viviane

Inspirada pelo desejo de cuidar das pessoas, ela superou desafios financeiros, longas jornadas de trabalho e o TDAH para seguir o sonho de se tornar médica

PRISCILLA VIERROS

01/08/2026 • 11:00 • Atualizado em 01/08/2026 • 11:00

Aos 40 anos, estudante de medicina transforma o cuidado em propósito de vida

Aos 40 anos, estudante de medicina transforma o cuidado em propósito de vida

Crédito: Arquivo pessoal

A vocação de Viviane Aparecida de Souza, 40 anos, para a área da saúde nasceu muito antes da aprovação no curso de medicina. Hoje, no 6º período da graduação na Faculdade da Saúde e Ecologia Humana (FASEH), em Vespasiano (MG), ela carrega uma trajetória construída pelo cuidado e pela certeza de que acolher pessoas é mais do que uma profissão: é um propósito.

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Antes de vestir o jaleco de estudante de medicina, Viviane já atuava como enfermeira. Mas a vontade de ampliar seus conhecimentos para oferecer uma assistência ainda mais completa aos pacientes fez com que decidisse encarar um novo desafio.

“O desejo pela medicina nasceu muito cedo. Sempre estive envolvida com o cuidado das pessoas da minha família”, conta.

Esse sentimento foi fortalecido por exemplos marcantes. Um deles foi a tia, Matilde Eremita de Souza, missionária que dedicou mais de duas décadas ao trabalho humanitário na África, onde participou da construção de um hospital para atender pacientes com a doença do sono e treinou agentes de saúde em diferentes regiões.

A tia, Matilde Eremita de Souza, durante missão na África I Crédito: Arquivo pessoal

A tia, Matilde Eremita de Souza, durante missão na África I Crédito: Arquivo pessoal

Mas foi dentro de casa que Viviane descobriu, na prática, o significado do cuidado. Ainda jovem, acompanhou de perto a avó durante os anos em que ela enfrentou o Alzheimer. Mais tarde, viveu uma experiência semelhante ao cuidar da tia Gelma, que tinha síndrome de Down e passou os últimos cinco anos de vida acamada.

Essas vivências moldaram sua visão sobre a profissão. “Aprendi que cuidar vai muito além da técnica. É estar presente, aliviar o sofrimento, oferecer dignidade e fazer com que a pessoa se sinta acolhida, mesmo nos momentos mais difíceis.”

A rotina entre trabalho e faculdade

Conciliar a graduação com a vida profissional se tornou um dos maiores desafios da estudante. Durante um período, Viviane trabalhava como enfermeira em plantões noturnos de urgência e emergência, no regime 12x36, e, muitas vezes, seguia diretamente para a faculdade após uma noite inteira de trabalho.

Além da rotina intensa, enfrentava cerca de 110 quilômetros de deslocamento diário entre Sete Lagoas, onde mora, e Vespasiano, onde estuda. “Houve momentos em que pensei que não daria conta”, lembra.

Para manter o sonho vivo, reorganizou completamente a rotina profissional. Atualmente, atua na área de fotobiomodulação, terapia baseada em evidências científicas que utiliza o laser para auxiliar na recuperação de pacientes. A mudança proporcionou mais flexibilidade para conciliar trabalho e estudos.

Antes de ingressar na FASEH, Viviane iniciou a graduação na Argentina. Posteriormente, foi aprovada tanto no processo de transferência externa quanto no processo de obtenção de novo título e optou por continuar os estudos na instituição mineira. O financiamento estudantil, aliado ao apoio da família e ao próprio trabalho, tornou possível seguir na graduação.

O diagnóstico que trouxe respostas

Outro desafio surgiu fora da sala de aula. Viviane convive com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), mas passou grande parte da vida sem diagnóstico.

Durante anos, acreditou que suas dificuldades estavam relacionadas à falta de capacidade. Com o tratamento adequado, compreendeu que apenas aprendia de uma forma diferente e desenvolveu estratégias para potencializar os estudos.

Ela destaca que, mesmo precisando dedicar mais tempo ao aprendizado, nunca deixou que isso diminuísse sua vontade de seguir em frente.

Ao longo dessa caminhada, encontrou apoio na família, no amigo e enfermeiro Leonardo Dutra, que iniciou a trajetória na medicina ao seu lado, e na esposa, Gabriela Lanza, médica anestesiologista, que considera uma das maiores incentivadoras de sua formação.

O cuidado com a tia Gelma, que tinha síndrome de Down, reforçou o significado de cuidar I Crédito: Arquivo pessoal

O cuidado com a tia Gelma, que tinha síndrome de Down, reforçou o significado de cuidar I Crédito: Arquivo pessoal

Medicina e humanidade

O contato direto com os pacientes é o momento que mais confirma que fez a escolha certa. Para Viviane, conhecimento científico e acolhimento devem caminhar juntos. Seu objetivo é seguir carreira na Psiquiatria e exercer uma medicina que considere não apenas os sintomas, mas também a história e o contexto de vida de cada paciente.

Quero que nenhum paciente passe por mim sem se sentir verdadeiramente visto, acolhido, ouvido e respeitado. Viviane Souza

Para quem sonha em cursar medicina, ela reforça que, antes de escolher a profissão, é preciso gostar de pessoas.

“A medicina exige estudo, disciplina e dedicação. Mas nada disso faz sentido se não existir um verdadeiro interesse pelo ser humano. Se você ama cuidar de pessoas, siga em frente. O caminho não é fácil, mas vale a pena quando existe um propósito.”