Como começar na pesquisa científica ainda na faculdade de medicina

Estudante detalha etapas, bases de dados e estratégias para dar os primeiros passos na pesquisa médica

PRISCILLA VIERROS

16/03/2026 • 19:07 • Atualizado em 16/03/2026 • 19:07

Fernando Baía orienta acadêmicos sobre bases de dados e início na pesquisa científica

Fernando Baía orienta acadêmicos sobre bases de dados e início na pesquisa científica

Divulgação/ Arquivo pessoal

O estudante do último ano de Medicina Fernando Baía, criador de um curso especializado em metanálise, detalha as etapas fundamentais para acadêmicos que desejam ingressar na pesquisa científica. Em entrevista, ele destaca que o início da trajetória exige uma mudança de hábitos, foco na leitura crítica de artigos científicos e na compreensão dos princípios da medicina baseada em evidências.

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Segundo Baía, a pesquisa na medicina divide-se entre básica e clínica. Enquanto a clínica envolve estudos com seres humanos, a básica está mais relacionada a investigações laboratoriais e experimentais, sendo também o caminho mais comum entre acadêmicos. Ele ressalta a importância de o estudante valorizar diferentes delineamentos, como revisões sistemáticas, ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte, relatos de caso e a metanálise, que ocupa o topo da hierarquia de evidências.

Para quem não conhece nada sobre o tema, Baía afirma que o primeiro passo é a geração de ideias e a formulação de uma pergunta de pesquisa estruturada, algo que surge da mudança de comportamento voltada, sobretudo, à leitura de artigos científicos. Ele explica que o estudante precisa sair do ciclo comum de apenas estudar anatomia, fisiologia, farmacologia e semiologia e passar a consultar bases de dados. “O hábito de pesquisa exige uma abordagem distinta, que inclui compreender essas bases e desenvolver a habilidade de localizar e selecionar artigos relevantes”, avalia o estudante.

Bases de dados e pensamento crítico

Na visão do estudante, três bases de dados internacionais são consideradas essenciais: PubMed, Embase e Cochrane. Ele compara o PubMed a um “Google global de artigos científicos”, por reunir algumas das principais revistas da área. O estudante reforça que o pesquisador iniciante deve desenvolver pensamento crítico para diferenciar publicações de maior e menor qualidade metodológica.

Fernando Baía aponta que revistas como JAMA, The New England Journal of Medicine e The Lancet são as principais referências na área. Ele alerta ainda para o risco das chamadas revistas predatórias, que publicam conteúdos sem revisão por pares rigorosa, geralmente mediante pagamento. Para garantir a qualidade científica, o acadêmico ressalta que o estudo deve ser indexado e submetido a processo de revisão por pares antes de ser publicado oficialmente.

Como funciona a publicação

O processo de publicação científica exige resiliência. Conforme explica Baía, após a elaboração da estrutura inicial do manuscrito, o trabalho é submetido a uma revista científica e passa pela avaliação por revisores em sistema de revisão por pares duplo-cego. Ele pondera que raramente um artigo é aceito na primeira submissão, sendo os pareceres fundamentais para ajustes e aprimoramento do texto. Além disso, destaca que, embora não seja obrigatória a presença de um orientador, o acompanhamento de um professor pode auxiliar na condução do processo de submissão e revisão.

Para ter sucesso na área, o estudante afirma que é importante possuir noções básicas de inglês e de estatística. Ele relata que muitos acadêmicos não recebem esse suporte durante a graduação e precisam buscar cursos externos para ampliar a compreensão do raciocínio clínico e científico. Baía também recomenda a leitura integral dos artigos, em vez de se limitar apenas ao resumo (abstract).

Sobre a participação em eventos científicos, o pesquisador oferece uma visão estratégica. “Congresso não é, necessariamente, o principal espaço para aquisição de conhecimento, já que isso pode ser obtido por meio de outras fontes. Nesses eventos, o mais importante é a interação com outras pessoas”, afirma Baía. Para ele, o maior benefício para o acadêmico nesses ambientes é o networking com orientadores, preceptores, médicos renomados da área e representantes da indústria farmacêutica.

Da curiosidade científica ao papel de mentor

Atualmente, Fernando Baía possui três metanálises publicadas em revistas científicas indexadas no PubMed e acumula mais de dez apresentações em congressos acadêmicos, incluindo apresentações orais em eventos realizados na Universidade de São Paulo e no Hospital Israelita Albert Einstein. A experiência na produção científica acabou levando o estudante a se tornar uma referência para colegas que buscam entender como iniciar na pesquisa médica.

A decisão de empreender surgiu depois que quatro estudantes da PUC Minas, ainda nos primeiros períodos da graduação, o procuraram em busca de orientação sobre o tema. “Resolvi dar aulas teóricas e práticas para ajudar futuros colegas de profissão, como uma forma de transmitir o conhecimento que adquiri durante a faculdade”, afirma.

Segundo Baía, essa demanda espontânea foi o que motivou a criação de um curso chamado MetaEvidence, uma iniciativa voltada ao ensino de pesquisa científica. Atualmente, ele compartilha, na prática, os métodos que aprendeu ao longo da formação, especialmente na área de revisão sistemática e metanálise.

“Meu conhecimento partiu de uma curiosidade que eu tinha. Com o tempo, isso acabou se transformando em uma metodologia própria, que agora ensino”, explica o estudante. A proposta, segundo ele, é mostrar aos futuros médicos que é possível desenvolver autonomia científica e compreender o processo de produção de evidências, mesmo sem depender exclusivamente da estrutura das universidades.

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