Médico relata como missão humanitária no Vietnã mudou sua visão da medicina

Em entrevista ao podcast, o ortopedista Gustavo Barbosa revela os desafios de operar crianças e a experiência que transformou sua carreira

Da redação
DA REDAÇÃO

13/07/2026 • 11:00 • Atualizado em 13/07/2026 • 11:00

Na avaliação do profissional, o restabelecimento da saúde depende diretamente da capacidade do médico de compreender o contexto psicossocial de quem busca ajuda

Na avaliação do profissional, o restabelecimento da saúde depende diretamente da capacidade do médico de compreender o contexto psicossocial de quem busca ajuda

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O médico ortopedista Gustavo Barbosa relata a experiência de participar de uma missão humanitária no Vietnã, voltada para operar crianças em situação de vulnerabilidade com deformidades congênitas. A declaração ocorre durante a gravação do episódio 42 do podcast Quero Estudar Medicina, apresentado por Babi Fava.

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Assista ao episódio completo:

O especialista viajou ao país asiático em 2025 para realizar procedimentos cirúrgicos complexos e detalha como a vivência transformou sua trajetória pessoal e profissional. De acordo com Barbosa, o país registra um alto índice de deformidades em membros superiores devido a fatores culturais, como casamentos consanguíneos, e a heranças históricas da guerra, como a exposição ao gás mostarda.

Segundo ele, a rotina de atendimentos exige adaptação rápida às limitações do sistema de saúde local. O médico explica que o equivalente ao sistema público de saúde do Vietnã ampara as crianças somente até os sete anos. Após essa faixa etária, o governo cessa a tutela médica, gerando uma urgência para solucionar as patologias cirúrgicas o mais cedo possível.

A sensação que eu tive é que a gente tem que resolver as patologias o mais breve possível, enquanto ainda é criança. Gustavo Barbosa

Conexão espiritual no centro cirúrgico

Durante o período de dez dias em Hanói, um procedimento cirúrgico específico em um bebê de um ano e oito meses marcou a equipe médica. A criança nasceu sem o polegar e passou por uma cirurgia de policização, que consiste em transferir e transformar um dedo sobressalente para restabelecer a função de pinça da mão. O procedimento delicado, feito com o auxílio de lupas, durou mais de cinco horas.

Ao final do procedimento, após a retirada do garrote para restaurar o fluxo sanguíneo, a extremidade operada permaneceu esbranquiçada, indicando falta de circulação. Enquanto os médicos ocidentais reagiram com frustração e preocupação técnica, dois cirurgiões pediatras vietnamitas fecharam os olhos e posicionaram as mãos sobre o membro da criança em sinal de meditação e prece.

O profissional goiano foi convidado pelos colegas locais a se juntar ao ato. Poucos minutos após a união das mãos da equipe sobre o paciente, o fluxo sanguíneo retornou, e a pele recuperou a coloração rosada.

Para Barbosa, embora o fenômeno encontre explicações científicas na física térmica e na vasodilatação gerada pelo calor das mãos em um ambiente cirúrgico frio, o acontecimento representou um ponto de virada espiritual na carreira. "Para mim, foi um dos momentos mais mágicos da minha vida como médico", enfatiza.

O propósito além da técnica

A trajetória do especialista começou na década de 1990, em Goiás, motivada pelo desafio de ingressar em um curso de alta concorrência. Ele e a irmã, Fernanda, que atualmente trabalha como neurologista clínica, foram aprovados juntos na Universidade Federal de Goiás (UFG).

A escolha pela ortopedia e pela subespecialidade em ombro e cotovelo ocorreu pelo desejo de Barbosa de atuar em uma área resolutiva e com respostas imediatas para dores incapacitantes.

Ao analisar o cenário da medicina atual, o cirurgião critica o distanciamento mecânico entre profissionais e pacientes. O médico defende a necessidade de resgatar o acolhimento e a escuta ativa nos consultórios, contrapondo-se ao modelo que apelidou de "tirador de pedido".

Na visão do profissional, o restabelecimento da saúde depende diretamente da capacidade do médico de compreender o contexto psicossocial de quem busca ajuda.

Para os estudantes que enfrentam os anos de preparação para ingressar na carreira médica, o profissional recomenda resiliência diante dos percalços acadêmicos e foco no compromisso com o cuidado humano. "Se você tem realmente esse sonho de se transformar em médico, na busca realmente de acalentar, de ajudar, de levar ou devolver, de certa forma, a qualidade de vida a alguém, não desista", aconselha Barbosa.

Não perca o próximo episódio do podcast

No episódio de amanhã, o Quero Estudar Medicina recebe as psicólogas Renata Freitas e Rafaela Lemos, que também é coordenadora do programa de saúde mental do Colégio Poliedro, para conversar sobre a importância de cuidar da saúde mental desde o ensino médio, período em que a pressão pelo vestibular começa a se intensificar.

Durante o episódio, as especialistas explicam como o estresse, a ansiedade e a alta cobrança podem afetar os estudantes e compartilham orientações para preservar o bem-estar emocional ao longo da preparação para o vestibular.

O programa será transmitido nesta terça-feira, às 20h, no canal Band Jornalismo no YouTube.