
Analisar os anos anteriores é estratégico para se preparar para a próxima edição
Divulgação/Freepik
A edição de 2026 do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) terminou marcada por uma onda de relatos de candidatos nas redes sociais. Queixas sobre instabilidade no sistema, oscilações abruptas nas notas de corte e dificuldade para compreender as regras de ampla concorrência, cotas e remanejamentos passaram a dominar o debate público ao longo do processo.
Para educadores e especialistas em políticas públicas, a combinação entre mudanças estruturais e falhas operacionais ampliou a sensação de insegurança, sobretudo nos cursos de maior concorrência, como Medicina. Para ajudar o estudante a entender o que, de fato, aconteceu e como se preparar melhor para a próxima edição, o Quero Estudar Medicina ouviu dois especialistas que analisam os problemas e apontam caminhos.
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Para Marcel Costa, diretor e professor da IntegralMind, os problemas desta edição têm naturezas distintas. “É fundamental separar o que é ajuste estrutural saudável do que é erro operacional grave”, afirma. Para ele, a possibilidade de usar as melhores notas de anos anteriores corrige uma distorção histórica do Sisu, ao reduzir o peso excessivo de um único exame. “Ao ampliar a validade da nota, o sistema passa a representar melhor o desempenho real do candidato ao longo do tempo”, diz.
O avanço, porém, foi acompanhado de falhas técnicas que não podem ser relativizadas. “Quando o sistema falha, ele impede o estudante de exercer uma escolha consciente. Isso é um erro grave em um processo de alto impacto social”, avalia.
Notas de corte: indicador, não sentença
As notas de corte, que subiram rapidamente nos primeiros dias, foram um dos principais focos de angústia. Marcel Costa explica que esse movimento é esperado no novo modelo. “A nota de corte é apenas um indicador momentâneo de um sistema em constante movimento”, afirma. Segundo ele, a entrada de notas de anos anteriores amplia o número de candidatos competitivos e gera uma inflação inicial, que tende a se dissipar com o avanço das inscrições.
O professor e estatístico Frederico Torres, especialista em Sisu, concorda que o formato do sistema favorece decisões estratégicas, mas alerta para a falta de previsibilidade. A cada edição, o Sisu apresenta alterações que não são comunicadas de forma adequada. Neste ano, segundo ele, “a ausência dessas informações gerou dúvidas sobre se determinadas situações eram regra ou falha do sistema”, avalia.
Ele destaca que, apesar do cenário, o Sisu ainda permite uma análise racional baseada em dados. “Quando o estudante estuda as movimentações de anos anteriores, ele toma decisões menos emocionais e mais assertivas”, afirma. Segundo Frederico, o estudo de padrões históricos, como o comportamento das notas de corte e das listas de espera, permite identificar tendências e aumentar as chances de aprovação, especialmente em Medicina, um dos cursos mais concorridos do país.
Para os especialistas, os mais prejudicados pelas mudanças e pela instabilidade do sistema são os estudantes sem acesso a orientação educacional qualificada — grupo que inclui, majoritariamente, alunos de baixa renda e de escolas públicas. “A desigualdade não está exatamente na regra, mas na possibilidade de compreender e navegar corretamente pelo sistema”, afirma Marcel Costa.
Frederico Torres reforça que a falta de comunicação do Ministério da Educação (MEC) agrava o cenário. “O pior ponto do Sisu hoje é a ausência de clareza e transparência. Professores e alunos precisam ‘descobrir’ como o sistema está funcionando em pleno processo”, avalia.
Como se preparar para a próxima edição
Os especialistas são unânimes ao afirmar que o Sisu exige, cada vez mais, estratégia e planejamento. “O estudante precisa dominar seus próprios dados e decidir por tendência, não por pânico”, resume Marcel Costa. Organizar notas, entender os pesos por curso, analisar o histórico das instituições e tratar a nota de corte como um termômetro e não como um veredito são passos essenciais para tornar o processo mais controlável.
Para Frederico Torres, o Sisu continua sendo previsível para quem estuda o sistema. O estudante que analisa dados, históricos e padrões de convocação transforma um processo emocional e angustiante em uma tomada de decisão racional e estratégica. Ele afirma ainda que acompanhar o trabalho de profissionais que estudam o Sisu há anos ajuda o candidato a interpretar corretamente os movimentos do sistema e reduzir erros estratégicos.
5 dicas para se preparar melhor para o próximo Sisu
1. Organize seus dados antes da inscriçãoReúna todas as notas válidas do Enem, analise seu desempenho por área e entenda como cada curso calcula a pontuação. A média geral não conta toda a história; os pesos fazem diferença.
2. Estude o histórico dos cursos, não só a nota do diaObserve como as notas finais e as listas de espera se comportaram em anos anteriores. Dados históricos ajudam a tomar decisões mais racionais e menos emocionais.
3. Trate a nota de corte como termômetro, não como sentençaNos primeiros dias, a nota costuma estar inflada por movimentações estratégicas. O mais importante é acompanhar a tendência, e não reagir a números isolados.
4. Decida com estratégia, não com pânicoMonte um plano real com opções A, B e C. Defina critérios antes do Sisu para mudar de curso ou instituição e evite decisões impulsivas durante o processo.
5. Use dados para decidir, não só intuiçãoAcompanhe sua posição, entenda as chances reais na lista de espera e baseie suas escolhas em informações concretas. Decidir sem dados aumenta o risco de perder uma vaga possível.
