
A atriz Amanda Azevedo é a protagonista de "Lago dos Afogados"
Reprodução/Instagram/amandaazeved.o
Na série adolescente De Volta aos 15, Amanda Azevedo viveu Luiza, personagem que rendeu momentos engraçados como a famosa “viagem ao Canadá”, uma referência a talvez um dos primeiros memes a dominar a internet. Agora, a atriz mergulha em uma temática bem mais soturna: o feminicídio. Ela é a protagonista de “Lago dos Afogados”, curta-metragem atualmente em produção e que trata de assassinatos misteriosos de mulheres.
O Band.com.br visitou o set de filmagens e conversou com a atriz, que interpreta Tabata, uma jovem policial que participa da investigação desses crimes. Logo, ela se vê envolta em uma trama que envolve intrigas, traumas do passado e uma dose do sobrenatural.
“Eu já estava nos últimos anos depois do De Volta aos 15 explorando esse lugar de histórias mais adultas. Acho que o seriado tem histórias que conectam muito com o adulto, porque tem a coisa da nostalgia, mas a diferença é a forma que contamos e os assuntos que nos aprofundamos”, frisa a artista.
No filme, Tabata precisa lidar não apenas com o terror de ver mulheres violentadas, mas precisa navegar um ambiente cheio de preconceitos e até mesmo hostil às mulheres. Um reflexo da realidade, segundo a própria atriz.
“Eu acho que quando uma mulher sofre algum abuso, todas sofrem juntas. É um filme que fala de justiça. A Tabata está em busca da história dela e ao mesmo é a história de todas. Achei muito desafiador. Tem esses embates e coisas vulneráveis que ela sente, mas ela precisa colocar alguns obstáculos pois o lugar em que ela está pede. Senão ela vai ser retirada do caso, vai ser descredibilizada. Então como é ir criando essas estratégias para ser respeitada?”, reflete ela.
Apesar da temática pesada e do desafio de entrar em um universo policial, algo que nunca havia experimentado na carreira, a intérprete vê o atual trabalho como a oportunidade de lançar luz em um tema urgente da sociedade.
“Não é dolorido, mas é revoltante. Usamos [o filme] como grito, esse grito é muito internalizado também. Fiquei pensando em como é para essas mulheres cuja profissão é receber muito esses casos e como é frustrante não conseguir não avançar com alguns porque o ambiente todo quer arquivar essas histórias”, frisa.
Mitos e diversidade

O lago ao qual o título do filme faz referência está ligado não apenas aos crimes, mas também aos mitos do Brasil. O projeto permeia sua narrativa com aspectos do mito da Iara, sereia do folclore que ficou muito conhecida por sua representação em obras infanto-juvenis, mas cuja origem é muito mais complexa.
Quem explorou estas origens foi a diretora e roteirista do curta, Stefany Taglialatella, inspirado também em suas próprias vivências.
“Acho que temos uma versão muito infantilizada desses mitos e uma das pesquisas que eu fiz trazia a Iara nesse lugar: uma guerreira que foi morta pelos irmãos. Pensei que nada mais justo do que trazer uma guerreira para lutar e fazer justiça, lutar por essas mulheres, por esses corpos violentados. Tenho uma facilidade de contar histórias que se espelham muito na minha vivência. Não forço uma narrativa, ela está lá”, destaca ela.
O roteiro, que contou com consultoria de figuras indígenas, tem como uma das bases histórias de mulheres que foram alienadas pela justiça. Stefany relembra, por exemplo, em vídeo que chegou a ver em meio ao noticiário que a deixou particularmente chocada.
“Foi uma mulher que fez um vídeo próprio para a família dela. Ela tinha atropelado o ex-marido dela e falou: ‘Chamei a polícia, vou ser presa. Mas hoje era ele ou eu, ele ia me matar. Vou ser presa, estou me entregando, porque já fiz vários boletins de ocorrência e nunca fizeram nada’. Isso foi uma coisa que me chocou muito”, destaca.
Por meio de imagens como essa, ela busca construir uma história que denuncie a forma como as mulheres ainda são caladas no dia a dia.
Usamos a nossa dor para comunicar coisas e talvez diminuir a dor de outras pessoas, acho que o processo não dói, ele liberta.
A diretora também buscou trazer diversidade para o elenco e para a produção do filme. Como um policial colega de Tabata, foi escalado o ator Anderson Negreiro e a atriz trans Clodd Dias interpreta a mãe de uma das jovens mortas na história.
“Ela ser uma mãe trans não muda o fato de ela ser uma mãe. Acho muito importante ter essa diversidade de corpos representando simplesmente o cotidiano porque é simplesmente a realidade. Essas pessoas estão vivendo dessa forma. Sinto que forçar o estereótipo, na verdade, é trazer uma retratação não real. Eu não sou uma pessoa privilegiada, eu cresci em uma vila, sou periférica, sou a primeira pessoa da minha família a ter uma formação. Eu cresci em um meio onde esses corpos apareciam e viviam. Então para mim é muito natural tanto debater esses temas quanto representar esses corpos”, ressalta Stefany.

