Carnaval

Qual a origem do samba? Lendas da música desmistificam ritmo brasileiro

Série especial do Band Folia mergulha nas raízes do gênero e revela como a matriz baiana resistiu à perseguição para se tornar a alma da identidade nacional

Júlia Cabral
JÚLIA CABRAL

15/02/2026 • 17:10 • Atualizado em 15/02/2026 • 17:10

Qual a origem do samba?

Qual a origem do samba?

Juliana Vitulskis/Agência Brasil

Embora a canção "Pelo Telefone" marque o registro oficial de 110 anos do gênero, a verdadeira certidão de nascimento do samba é anterior aos discos e aos palcos. Genuinamente oral, o ritmo nasceu da experiência do povo negro, na vida em comunidade e na fé. Durante a transmissão do Band Folia, especialistas e lendas do samba desmistificaram a trajetória do gênero, reafirmando que, antes de conquistar o Rio de Janeiro, o samba já pulsava no Recôncavo Baiano.

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O encargo das Tias Baianas

A historiografia musical é clara: o samba nasce na Bahia, com registros que remontam ao século XVIII. No entanto, foi no século XIX que um movimento migratório em massa levou essa matriz cultural para o Rio de Janeiro, então capital do Império. Os protagonistas dessa travessia foram corpos negros, liderados por mulheres conhecidas como as "Tias Baianas".

Tia Ciata, nascida em Santo Amaro em 1854, tornou-se a guardiã dessa tradição. Em seus quintais no Rio, o samba encontrou proteção contra a perseguição policial da época. Ali, a guia carregava a fé, o prato de comida marcava o tempo e o corpo virava instrumento. É por essa raiz histórica que, até hoje, a ala das baianas é obrigatória e abre os desfiles das escolas de samba de Rio e São Paulo — uma reverência eterna à terra natal do ritmo.

O samba que nasce do chão e do labor

Para o músico e pesquisador Roberto Mendes, natural de Santo Amaro, o samba não nasceu para o mercado, mas para a sobrevivência. No Recôncavo, a tradição nunca foi interrompida. Ele explica que o ritmo surge do "canto de labor", a poesia que organizava o trabalho cotidiano. Daí surge a chula, a base do samba de roda, onde a vida vira verso: "Saveiro não me leva, trem que nunca chega, avião que vira nuvem, nuvem que vira chula".

Essa resistência é personificada por figuras como Dona Dalva, de Cachoeira. Nascida em 1927 e fundadora do grupo Suerdic, ela é patrimônio vivo da cultura e preserva a tradição das charuteiras, mantendo o samba como um movimento familiar e operário que atravessa gerações de filhas, netas e genros.

Salvador e a crônica da malandragem

Ao chegar em Salvador, o samba ganhou um corpo urbano. Riachão, um dos maiores cronistas musicais da capital baiana, transformou a indignação em arte. Ao ler em uma revista a frase "Se o Rio não escrever, a Bahia não canta", ele decidiu provar o contrário. Compôs mais de 500 canções, começando por "Eu Sei Que Sou Malandro", e provou que a Bahia produzia uma caravana de gênios como Batatinha, Edil Pacheco e Ederaldo Gentil, independentemente do eixo carioca.

Identidade e resistência cultural

O samba baiano também foi o alicerce para movimentos modernos. O Ijexá, o Samba-Reggae e blocos afro como o Ilê Aiyê, Olodum e Malê de Balê beberam diretamente dessa fonte. Paulinho do Reco, autor de "Negrume da Noite", e Nelson Rufino são testemunhas dessa evolução. Rufino, inclusive, celebra a quebra de barreiras raciais no gênero: "Felizmente agora, sem racismo, vejo o branco sambando... o samba está vingando em Salvador".

O samba, portanto, revela-se mais do que um gênero musical: é um projeto de acolhimento e resistência. Cresceu nos quintais, protegeu-se na coletividade e atravessou o mar para contar quem somos como país. Uma identidade construída na dor, na festa e, acima de tudo, na memória ancestral.

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