
Reconhecida mundialmente por sua voz angelical, é indiscutivelmente uma das artistas mais bem-sucedidas e influentes do século 21. Com sua capacidade vocal rara (com alcance de cinco oitavas) e seu talento para compor hits, Carey conquistou o mundo e criou um legado duradouro na indústria musical
Acervo Pessoal
A confirmação de que Mariah Carey trará sua turnê histórica de Natal pela primeira vez ao Brasil reacendeu a curiosidade dos fãs de música pop sobre a vida da estrela. A icônica "Rainha do Natal" agendou apresentações da turnê Christmas Time para o dia 17 de novembro no Allianz Parque, em São Paulo, e 21 de novembro na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro.
No entanto, por trás das cinco oitavas de alcance vocal, dos recordes históricos na Billboard e do glamour dos figurinos milimetricamente pensados, a trajetória de Mariah Carey é um verdadeiro testemunho de resiliência. Da infância humilde marcada pelo racismo estrutural às batalhas judiciais contra seus próprios parentes de sangue, a vida da artista é regida por uma complexa engrenagem de superação que envolve excentricidades, conquistas culturais e superação médica. Confira:
Raízes, racismo e o divórcio dos pais
Nascida em Long Island, Nova York, Mariah Carey cresceu em um ambiente financeiramente instável e profundamente hostil. Filha de uma mulher branca de origem irlandesa, Patricia, e de um homem negro de ascendência afro-americana e venezuelana, Alfred Roy Carey, a infância da cantora foi moldada pelas marcas do preconceito.
O casamento inter-racial de seus pais sofria ataques racistas violentos da vizinhança e até de familiares, gerando um clima de constante medo e agressividade em casa. Com apenas seis anos, a pequena Mariah chegou a ligar para as autoridades e pedir ajuda após presenciar a mãe ser agredida.
Incapazes de suportar a pressão externa e as crises domésticas, os pais de Mariah se divorciaram quando ela tinha apenas três anos de idade. Após a separação, a menina passou a fazer visitas semanais ao pai, mas a relação enfrentou barreiras quando ela manifestou o desejo de seguir a carreira musical — uma escolha profissional que Alfred considerava totalmente ilógica e instável. Apesar do distanciamento e da falta de incentivo inicial, os dois mantiveram um canal de afeto até a morte dele, em julho de 2002, vítima de um câncer no ducto biliar.
Relação tóxica com a mãe e os irmãos
A convivência com o restante do núcleo familiar foi consideravelmente mais destrutiva, servindo como gancho de sua biografia oficial, The Meaning of Mariah Carey, lançada em 2020. Foi nas páginas do livro que a artista expôs a necessidade drástica de romper laços biológicos para preservar sua própria saúde mental. "Para minha sanidade e paz de espírito, minha terapeuta me encorajou a literalmente renomear minha família", revelou. A partir daquele momento, a mãe passou a ser chamada apenas de "Pat", enquanto Morgan e Alison ganharam os títulos formais de "ex-irmão" e "ex-sister".
Patricia, que era cantora de ópera e professora de canto em Nova York, foi a grande responsável por introduzir Mariah ao universo da música, mas a relação das duas oscilava drasticamente. A diva definiu o laço materno como um misto de "traição e beleza, amor e abandono". O cenário com os irmãos mais velhos era ainda pior. Quando a artista alcançou o estrelato global nos anos 90, os parentes passaram a vender informações confidenciais e histórias íntimas da cantora para tabloides americanos em troca de dinheiro.
As revelações mais estarrecedoras de The Meaning of Mariah Carey envolvem episódios de violência física e psicológica extrema durante a infância da artista. Mariah relatou que, quando tinha apenas 12 anos, sua irmã mais velha, Alison, a drogou com o ansiolítico Valium, lhe ofereceu cocaína e tentou vendê-la para um cafetão. A cantora só conseguiu escapar do perigo após fugir para a rua e receber ajuda de um desconhecido. No livro, a cantora também acusa Alison de ter jogado chá quente e provocado queimaduras em seu corpo no passado, além de classificar o irmão mais velho, Morgan, como um jovem fisicamente violento e abusivo dentro de casa.
O racha definitivo se consolidou em processos judiciais. Após o lançamento das memórias de Mariah, o irmão Morgan acionou os tribunais a acusando de difamação por expor o histórico violento da família. A irmã Alison, por sua vez, também processou a cantora por abuso emocional e a própria mãe por supostos abusos sofridos na infância. Antes de morrer, Alison utilizava as plataformas digitais para expor sua situação de extrema pobreza, alegando ter perdido a dentição por estresse psicológico e culpando a irmã famosa pelo abandono financeiro.
Casamento abusivo e diagnóstico de saúde mental
A busca de Mariah Carey por um ambiente seguro acabou resultando em outro período traumático de sua juventude. Sua fita demo chegou às mãos de Tommy Mottola, o poderoso presidente da Columbia Records, que se encantou por seu talento vocal raro e lançou o álbum autointitulado de estreia da cantora em 1990. O sucesso foi avassalador, mas a relação profissional rapidamente transformou-se em um casamento aprisionador em 1993.
Mottola controlava rigidamente cada passo da carreira e da vida pessoal da artista, a vigiando constantemente dentro de uma mansão hiperprotegida. Sentindo-se sufocada e artisticamente limitada, Mariah conseguiu o divórcio em 1998, um passo fundamental para começar a ditar suas próprias regras estéticas e transitar para o mercado do R&B e do hip-hop, consolidando hits gigantescos como We Belong Together, Always Be My Baby e Hero.
O acúmulo de traumas e a pressão desmedida da indústria cobraram seu preço no início dos anos 2000. Após uma série de colapsos públicos amplamente explorados pela mídia da época — conhecidos como "breakdowns" —, Mariah Carey foi diagnosticada em 2001 com transtorno bipolar.
A cantora manteve o diagnóstico em absoluto segredo por quase duas décadas, enfrentando o preconceito e o medo do isolamento profissional. Ela só falou publicamente sobre o assunto em 2018, convertendo sua vulnerabilidade em uma importante ferramenta de conscientização e apoio para pessoas que enfrentam o mesmo transtorno e que buscam bem-estar emocional.
Mitos da diva, reality show e a boneca Barbie
A reclusão que Mariah adotou para se proteger do assédio familiar e midiático ajudou a alimentar a fama de uma artista extravagante, arrogante e cheia de caprichos surreais. Em sua autobiografia, ela aproveitou para desmistificar histórias clássicas de bastidores, negando enfaticamente que só tome banho com água engarrafada ou que tenha exigido vinte gatos filhotes em um camarim para se entreter durante uma entrevista. Por outro lado, confirmou que possui uma postura rigorosa com sua imagem técnica, permitindo ser fotografada apenas do seu lado direito e contando com assistentes para inspecionar escadarias antes de sua entrada.
Seu histórico amoroso posterior incluiu um casamento com o comediante Nick Cannon, pai de seus filhos gêmeos Monroe e Moroccan — batizados em homenagem à Marilyn Monroe, de quem a cantora é fã declarada, e ao design marroquino de seu apartamento em Nova York —, e um noivado relâmpago com o bilionário australiano James Packer, um relacionamento que ela simplesmente optou por deletar de seu livro por "considerá-lo totalmente irrelevante".
Sua imagem de diva pop é tão marcante que a própria artista já brincou com o estereótipo. Em 2016, ela estrelou seu próprio reality show documental, Mariah's World, transmitido pelo canal E!, mostrando os bastidores divertidos de sua turnê europeia e os preparativos de seu casamento que acabou não acontecendo. Além disso, seu status de ícone cultural foi imortalizado pela Mattel, que lançou uma boneca Barbie oficial de Mariah Carey vestida com o clássico vestido vermelho de suas apresentações natalinas, consolidando seu apelo com diferentes gerações de fãs.
Desbancada apenas pelos Beatles
Hoje, estabilizada e com mais de 200 milhões de discos vendidos no mundo, Mariah ostenta o título de artista solo com o maior número de canções em primeiro lugar na história da Billboard Hot 100, somando 19 singles no topo. O único obstáculo que a impede de reinar de forma absoluta no topo do ranking histórico da música mundial são os Beatles. Como a banda britânica soma 20 faixas em primeiro lugar, a dona de All I Want for Christmas Is You precisa de apenas mais duas composições no topo para superar o quarteto de Liverpool e cravar, em definitivo, seu nome no topo isolado da cultura pop internacional.
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