
Relacionamento liberal
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Um relacionamento livre, onde você pode ser o quiser. Casar com uma pessoa que sabe, para além de suas qualidades e defeitos, seus maiores desejos e fetiches, é um sonho distante para alguns, mas a realidade dos casais liberais.
Descobrir cada sensação na cama é muito importante para eles, mas a forma com que essas pessoas fazem isso ainda é tratada como promiscuidade. Mas será que é isso mesmo?
Mulheres no controle
A Sexlog, maior rede social de sexo e swing da América Latina, fez uma pesquisa com suas inscritas em 2023 e descobriu que 68% das entrevistadas sentem que recuperaram a autoestima após terem contato com o meio liberal.
Historicamente, o fetichismo foi mais associado aos homens, enquanto as mulheres eram colocadas em uma posição passiva no sexo. No entanto, com o passar do tempo, muitas se sentem cada vez mais livres para assumir e explorar suas preferências eróticas.
O meio liberal é aberto a todo tipo de relacionamento e acolhe quem quiser participar. Existe uma infinidade de possibilidades a serem exploradas: swing, troca de casal, ménage, BDSM (bondage e disciplina, dominação e submissão, sadismo e masoquismo), nudismo, exibicionismo… o importante é a liberdade sexual.
Sexo traz felicidade
Outra pesquisa da Sexlog, com mais de 11 mil pessoas, descobriu que 92,7% das mulheres se sentem mais felizes quando transam, e tudo isso tem a ver com a autoestima, afeição entre o casal, intimidade e carinho. Prova disso, é Camila Voluptas, escritora, psicanalista e influenciadora digital.
Ela frequentava a igreja evangélica Congregação Cristã quando conheceu o ex-marido. Ela conta que teve um namoro religioso, isto é, sem sexo. Não usava saia curta, decotes ou escutava músicas que não fossem gospel. Tudo conforme os princípios da religião.
Mas foi na lua de mel em que ela entendeu como seriam os próximos anos de sua vida. Após ter a primeira relação sexual com o marido, pediu mais no dia seguinte e acabou agredida. Ela o perdoou. Mas a cada dia em que vivia o casamento, tinha seus desejos sexuais ainda mais reprimidos.
Eu sofria por não ter sexo com ele, porque eu achava que não estava sendo uma boa esposa. Ele preferia ver pornografia. Quando chegava o momento do sexo, só pedia para eu me tocar para ele ficar olhando. Ele não tocava em mim e nem me beijava. Foi muito traumático.
Quando a influenciadora conseguiu sair do relacionamento, estava machucada. Após um período solteira, reencontrou um amor de adolescência e se casou novamente. Mas após descobrir que não sentia prazer no sexo, buscou o meio liberal.
“Eu não queria transar. Sexo para mim era só com a finalidade de engravidar, porque eu não sentia prazer”, conta a psicanalista. Só que, dessa vez, a história foi diferente. O marido a incentivou a descobrir o que a faria sentir prazer.
“A gente começou a falar sobre os nossos desejos e o meio liberal foi uma possibilidade”, explica. No fim, dos 12 anos de casamento, 10 deles são no meio liberal.
Construímos uma história linda e a gente se completa muito. Hoje, nós temos muito tesão um pelo outro. Transamos muito. Só que, agora, gostamos da ideia de ter mais mãos e bocas. Acontece de se apaixonar? Claro! Mas passa. E quem está sempre comigo é meu marido.
Voluptas conta que neste momento de sua vida não há espaço para outro relacionamento. Contudo, é preciso saber que a possibilidade do parceiro conhecer outra pessoa e amá-la, existe. Por isso, os casais precisam conversar e estar preparados para a experiência.
"A gente aprendeu a se respeitar porque realmente confia um no outro. A confiança não é só na fidelidade, mas também no respeito pelas fraquezas do parceiro", comenta.
Seja sincero e estabeleça regras
Camila e o marido, Edgar, dão palestras para casais e pessoas solteiras que querem conhecer mais sobre o meio liberal. Eles abordam temas como ciúme, preconceito, comportamentos, autoestima, relações sociais, entre outras regras e dicas.
“As pessoas precisam lembrar que não é brincadeira. É preciso ter responsabilidade e certeza”, diz. A influenciadora explica que o casal que deseja testar alguma prática do meio liberal tem que entender os motivos e conhecer ambientes liberais para observar e descobrir qual prática ou lugar combina mais com os interesses de cada um.
Outro passo para frequentar o meio liberal é ser sincero consigo mesmo e, principalmente, com o parceiro, sobre seus desejos, inseguranças e medos. Estabelecer regras e limites que façam sentido para a sua realidade é fundamental.

Sexo (Foto: Freepik)
Marina Roty, sexóloga e especialista em conexões e liberdade afetiva, alerta que é preciso ter cuidado com o sentimento de posse:
“Se estiver muito difícil lidar com esse sentimento de ciúme exagerado, vale buscar ajuda profissional. Por se tratar de uma emoção, ela está provavelmente ligada a alguma crença, pensamento ou algo que a pessoa aprendeu ser certo ou errado”, diz Roty.
Outra dica da sexóloga é olhar para as coisas que acontecem fora da relação a dois e na experiência liberal como algo que veio para somar e não para dividir.
Não somos acostumados a falar sobre sexo e entender a nossa própria sexualidade. Então, as pessoas que entram no meio liberal, costumam se descobrir em vários aspectos.
Quando não insistir no meio liberal
Uma outra pesquisa da Sexlog, com mais de 20 mil usuários, trouxe à tona dados surpreendentes: mais da metade dos entrevistados (53,1%) deseja participar de um swing. Os que já fizeram a troca de casais mais de uma vez são 27,8% e os que já tiveram a experiência pelo menos uma vez são 15,4%. Apenas 3,5% disseram que não têm vontade.
A frequência das visitas a casas de swing também foi analisada: a maioria (38,9%) relatou que frequenta esses locais, pelo menos, uma vez por ano. Outros 20,9% disseram que vão uma vez a cada três meses; 18,1% têm um encontro mensal; 15,9% praticam semestralmente e 6,8% semanalmente.
Apesar dos dados, é preciso saber quando não insistir no meio liberal. Nem todo mundo está pronto, ou mesmo alinhado, com as dinâmicas que esse estilo de vida exige. E tudo bem. Reconhecer esse limite é, na verdade, um ato de maturidade emocional.
A entrada no meio liberal muitas vezes vem carregada de curiosidade, desejo de explorar a sexualidade e até pressão de parceiros. Mas é preciso lembrar: a base de qualquer prática nesse ambiente deve ser o consentimento verdadeiro — aquele que não vem da insegurança, do medo de perder o outro ou da necessidade de agradar.
Um dos principais erros que as pessoas cometem ao se relacionar com vários corpos ao mesmo tempo, é ignorar seus próprios limites. […] Muitas vezes, o indivíduo se vê em situações desconfortáveis e, por medo de parecer inseguro ou imaturo, insiste. Isso pode gerar consequências emocionais e físicas.
Decidiu investir nas relações liberais? Veja como se cuidar
No universo das relações sexuais não-monogâmicas, como no caso de relacionamentos liberais, a busca por prazer e liberdade precisa vir acompanhada de responsabilidade. Camila destaca que, ao contrário do que muitos pensam, há uma forte preocupação com a saúde sexual no meio liberal:
A comunidade liberal fica muito assustada e recrimina quem diz que não usa preservativo.
Para ela, é fundamental ir além do básico: “É muito importante se cuidar. Não fazer sexo oral sem preservativo e tomar cuidado com quem coloca a mão em você. Às vezes, as pessoas fixam no preservativo e esquecem outros detalhes, como a mão, que também pode transmitir doenças. Um detalhe pode causar muitos problemas”.
A ginecologista Fernanda Torras reforça que o preservativo é o único método contraceptivo que protege contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), devendo ser utilizado inclusive com parceiros fixos. “Durante práticas com múltiplos parceiros, o preservativo deve ser trocado a cada nova penetração vaginal ou anal, mesmo com a mesma pessoa”, orienta. O mesmo cuidado deve ser adotado com brinquedos sexuais, que também podem transmitir doenças.

O uso de preservativos é fundamental (Foto: Canva)
Para além da proteção física, a prevenção passa também pelo cuidado com o corpo como um todo. “Nosso corpo se defende melhor quando está saudável. Dormir bem, se alimentar de forma equilibrada e praticar exercícios fortalece a imunidade e dificulta a proliferação de infecções”, afirma a sexóloga Marina, que também vive a sexualidade de maneira não convencional.
A médica alerta ainda para erros comuns em relações com múltiplos parceiros: confiar no histórico ou aparência, negligenciar o uso do preservativo e deixar de realizar exames periódicos. “É preciso estar atento e estabelecer regras claras entre os envolvidos”, considera.
A rotina ideal inclui testagens anuais para HIV, sífilis, hepatites, clamídia, gonorreia e HPV — tanto para homens quanto para mulheres. Em caso de exposição ou sintomas, a investigação deve ser feita quanto antes.
Outro ponto de atenção é o uso da pílula do dia seguinte. Embora eficaz quando usada corretamente, preferencialmente nas primeiras 24 horas após a relação desprotegida, o uso repetido pode comprometer sua eficácia. Além disso, fatores como mistura de remédios, náuseas e vômitos podem diminuir sua ação.
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