
Geração Z faz menos sexo, mas é a que mais tem ISTs
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Apesar dos diversos métodos contraceptivos, tecnologias e medicamentos para prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e maior liberdade sexual, a geração Z parece estar vivendo menos experiências sexuais.
Nascidos entre 1995 e 2010, mesmo criados em um mundo mais aberto à sexualidade, têm uma média de parceiros sexuais duas vezes menor que a geração X, de nascidos entre 1965 e 1981, segundo a pesquisa iGen, da psicóloga Jean W. Twenge.
O estudo aponta que membros da geração Z também iniciaram a vida sexual mais tarde e que dos ‘zillenials’ entrevistados, 30,9% viviam um certo tipo de ‘celibato’, quando se mantém solteira ou sem nenhum parceiro sexual à vista.
Dentre os motivos para a vida sexual menos ativa, a reportagem de Band.com.br ouviu jovens de forma anônima, entre 20 e 26 anos, que citam principalmente a pressão das redes sociais, medos e inseguranças com um possível parceiro sexual.
“Nem sempre somos o que apresentamos na internet. O medo é de não atingir a expectativa que a pessoa tenha por mim”, diz Paula*. “As redes sociais podem gerar uma quebra de expectativa, desinteresse e outras situações chatas. Além de que hoje parece que uma conversa mínima sem um celular parece ter se tornado impossível”, avalia Marcela*.
Do lado dos homens, a rede social não é o principal fator que os fazem ter uma vida sexual mais lenta, mas pode ter complicado a jornada até ‘os finalmentes’. Para João*, a conexão em um nível digital fez a relação ficar mais burocrática. “A pessoa pode trocar a maior ideia no Tinder, mas chega na hora trava, porque não aprendeu a se portar”, afirma.
Já para Pedro*, o medo principal são os problemas que um relacionamento podem gerar. “O homem é mais desleixado com as redes sociais, meu medo é de não ser a pessoa certa, além de estar mais difícil de chegar nas mulheres, que são mais independentes e seguras de si”, diz.
Segundo a psicóloga do Reinserir Raiani Cheregatto, a digitalização das redes sociais faz a socialização ser mais superficial. “Tudo acontece nas telas, como o flerte, sexo, brigas e até as reconciliações, distante da intimidade real”, explica.
Raiani pontua que a pressão das redes e busca por padrões, como citado por Paula*e Marcela*, aumentam as inseguranças. “Isso dificulta a entrega emocional. A sexualidade se torna mais voltada para a gratificação imediata e afastada da construção de vínculos profundos, deixando muitas pessoas desconectadas de uma experiência mais íntima e relacional”, diz.
Essa falta de conexão é vivida diariamente por Júlia*, de 27 anos, que chegou a ouvir de um parceiro em potencial que “compensa mais pagar garota de programa do que ter um encontro e uma conversa interessante”. “Ninguém quer ter o mínimo de troca, não tenho paciência para fazer sexo casual sendo que em 90% das vezes a experiência não é boa”, afirma.
“A rapidez na escolha de um pretendente – baseado numa ideia específica do que se busca naquele momento – cria uma dinâmica mais superficial. Se o outro não atende às expectativas, é fácil descartá-lo e partir para a próxima pessoa”, diz Raiani Cheregatto.
Relacionamentos abusivos e ‘perda de tempo’ são medos da geração Z

Medos e pressões afastam geração Z da ‘Hora H’ | Reprodução/Unsplash
Outra razão para a geração Z não ser tão aberta a uma vida sexual mais ativa é o medo de cair em um relacionamento abusivo. José*, que já viveu relações complicadas e hoje é solteiro, tem medo de se relacionar. “Criei uma barreira que evita minha aproximação com mulheres. Por não conhecer muito a pessoa, tenho medo de dar errado e acabo não me relacionando”, diz.
Apesar de não ter inseguranças, Júlia* afirma que a violência contra a mulher é um fator para se pensar antes de investir em uma relação sexual. “Tenho visto tantos casos de violência que é de se entender o medo de muitas mulheres. Além do fato nos tratarem como descartáveis”, pontua.
A psicóloga Raiani Cheregatto afirma que o assédio constante e a objetificação feminina pode causar estes sentimentos de medo e insegurança em mulheres. “Isso faz com que muitas se sintam isoladas, desamparadas e, em muitos casos, desenvolvam medo de se envolver sexualmente”, explica.
O medo de ‘perder tempo’ em investir em alguém até chegar no sexo é um desmotivador para Marcela*. “Já não ligo muito para ter relações estando em um relacionamento. Quando solteira, eu foco ainda mais em outras áreas da minha vida, então não sinto falta”, afirma.
Cultura antissocial afasta geração Z do sexo
Nos últimos anos, termos como Incel e Redpill têm povoado as redes sociais. Os celibatários involuntários e os homens que ‘tomaram a pílula vermelha’ são considerados grupos que promovem a depreciação feminina, com conservadorismo exacerbado.
Tais comportamentos podem causar a desconexão de jovens com o sexo. “Essas subculturas objetificam as mulheres e tira dos homens a ideia de que o sexo é algo consensual e respeitoso, e transformando-a em algo ligada à busca de poder e controle”, explica Raiani.
Júlia* sente que a cultura que se populariza na internet faz com que homens sejam mais parados quando o assunto é flertar e chegar até à cama. “O aumento desses incels e redpills me fez sentir que os homens se esforçam demais para gostar de uma mulher. O comportamento deles nas redes pode até desanimar na hora de ficar com alguém”, diz.
A pornografia também pode afetar a relação dos jovens da geração Z, como aponta Raiani. “Ela apresenta o sexo como algo instantâneo e isolado, sem considerar o envolvimento relacional. Isso acaba desumanizando a experiência, reduzindo-a a um simples ato de prazer individual”, diz. Segundo ela, a pornografia pode reforçar padrões e inseguranças.
Saúde é preocupação, mas geração Z é a que mais tem ISTs

Apesar de técnicas de prevenção, infecções aumentaram | Reprodução/Unsplash
Mesmo com a distribuição de medicamentos, como PrEP e PEP, que previnem o HIV e de camisinhas, que previnem também a sífilis, casos de doenças sexualmente transmissíveis aumentaram no Brasil, justamente entre a geração Z.
Nos últimos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde sobre infecções por HIV e sífilis, os dados mostram que apesar de transarem menos, os brasileiros entre 20 e 29 anos são os que mais se infectam com as doenças sexualmente transmissíveis.
Pelo menos 37,8% dos homens com sífilis no Brasil em 2024 eram da faixa etária da geração Z. Já no caso das mulheres, o percentual é de 32,9% no ano. Sobre os casos de HIV, o boletim do Ministério da Saúde aponta que 54,8% dos casos em 2023 eram de homens entre 25 a 29 anos. Dentre as mulheres, a faixa etária representa 13,3% dos casos.
Com o aumento dos registros de ISTs no Brasil, muitos jovens da geração Z preferem evitar o sexo para poder se prevenir completamente. “Tenho bastante insegurança com quem quer ir muito rápido e não pensam na saúde ou higiene. Esses são pontos importantes para mim, por isso conversar é algo que não abro mão”, diz Marcela*.
“Saúde e limpeza para mim são as maiores inseguranças. Ter um parceiro só para mim é higiênico. Tem saliva, toque, então tudo isso eu levo em conta”, diz Paula*.
*Nomes foram preservados por privacidade.

