
Geração Z no mercado de trabalho
Reprodução/Freepik
Resumo
Em plataformas voltadas ao mundo corporativo e até mesmo em redes sociais mais populares, não é difícil achar postagens sobre as relações de trabalho envolvendo os mais jovens. Na verdade, muitas dessas publicações citam, nominalmente, a Geração Z, composta por quem nasceu entre 1995 e 2010.
Os conteúdos dessas postagens podem ser críticos à falta de algumas habilidades essenciais ao mundo corporativo ou um reconhecimento positivo do empoderamento do perfil mais jovem na hora de se submeter a uma vaga.
Apesar de nativos do mundo digital, os profissionais da Geração Z também estão sujeitos a julgamentos, principalmente da geração anterior, por não dominar ferramentas tidas como básicas, a exemplo do Word, Excel e PowerPoint. Por outro lado, talvez, isso não seja uma questão tão essencial, sob a ótica desses jovens, mas pode gerar um conflito geracional entre grupos, de ambas as partes, que optam por não darem o braço a torcer.

O Band.com.br reuniu postagens com críticas sobre a Geração Z no trabalho
O consumo da tecnologia pela Geração Z
De um lado, jovens habituados à inteligência artificial e à instantaneidade das mensagens, redes sociais e envio de arquivos, como fotos, vídeos e áudios, de forma intuitiva. Na outra ponta, quem veio antes e que, por necessidade profissional, investiu numa educação tradicional para se inserir no ambiente digital exigido pelas corporações.
“O que vemos, na prática, é que a Geração Z cresceu utilizando a tecnologia de forma muito mais intuitiva, para se comunicar, consumir conteúdo e se entreter, e não, necessariamente, com foco em produtividade ou lógica organizacional”, pontuou o especialista em gestão de empresas Marcus Marques, em entrevista ao Band.com.br.
A Pesquisa TIC Domicílios 2024 expõe bem esse cenário envolvendo a imersão da Geração Z no mundo digital, onde 95% dos jovens de 16 a 24 anos têm acesso à internet, dos quais 47% usam o celular exclusivamente. O mesmo levantamento também traz dados sobre as habilidades digitais do brasileiro, de forma geral, independentemente da faixa etária.
Enquanto 52% dos usuários de internet, no Brasil, usaram a rede para verificar a veracidade de uma informação, apenas 19% aplicaram fórmula em uma planilha de cálculo, enquanto 17% criaram uma apresentação de slides. As duas últimas habilidades, geralmente, fazem parte do arcabouço de cobranças das empresas na hora da contratação.

Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros. Fonte: Divulgação/Cetic
“Excel deveria ser mais dinâmico”
A estudante de psicologia Rafaela Oliveira, de 21 anos, ilustra essa realidade do que as empresas cobram sobre as ferramentas do Pacote Office, por exemplo. Em um seletivo, ela contou que precisou passar por uma avaliação prática no Excel, até porque usa o programa diariamente no trabalho.
Também é o caso da jovem Priscilla Leão, a estudante de gestão de recursos humanos de 20 anos que precisou fazer um curso para aprender a usar o Pacote Office, mas que só foi compreendido, de fato, quando começou a pôr em prática a teoria no ambiente de trabalho.
Eu acho que o Excel deveria ser mais dinâmico, de acesso mais fácil, porque você tem que pesquisar muito para entender a usar (Priscilla Leão, estudante de gestão de recursos humanos)
Ferramentas queridinhas da Geração Z
Para essas jovens entrevistadas pelo Band.com.br, existem alternativas mais fáceis que podem gerar os mesmos resultados. No universo on-line, por exemplo, o Google Docs e Google Planilhas substituem o Word e Excel, enquanto o Canva pode ser usado para o preparo de uma apresentação de slides e até mesmo edição de imagem e vídeo.
Essas opções de ferramentas, inclusive, tendem a ter uma aparência mais atrativa, autoexplicativa e vinculada à inteligência artificial, o que pode otimizar a execução das tarefas. Por serem on-line, são usadas em qualquer lugar, sem a necessidade de o funcionário se deslocar para a empresa.
O advogado Camilo Alfeu Zanette, diretor-executivo de uma consultoria de recursos humanos, reconhece que a empresa onde atua já identificou a falta de proficiência em ferramentas como Word e Excel por parte dos mais jovens. Para superar possíveis impactos negativos na execução de tarefas mais analíticas e formais, a firma aposta em treinamentos e busca alternativas que complementem os programas tradicionais.
“Para suprir essa lacuna, nossa empresa investe em treinamentos internos e workshops, focados em capacitar os colaboradores mais jovens a utilizarem essas ferramentas com maior eficiência. Além disso, a empresa também se adapta à forma como esses jovens preferem trabalhar, oferecendo suporte contínuo e incentivando o uso de soluções tecnológicas inovadoras que complementam as ferramentas tradicionais”, considerou Zanette.
O poder de barganha
Mesmo sob eventuais críticas, a Geração Z é vista como um grupo com grande poder de barganha por se tratar de uma força de trabalho importante. Nas redes, admiradores destacam a forma como esse perfil não se submete a abusos, ao mesmo tempo em que busca as melhores colocações, salários competitivos e uma jornada menos cansativa.

Postagem que defende a Geração Z viraliza no X
“São essas pessoas que vão melhorar a qualidade do trabalho. Nós, de outra geração, fomos doutrinados a acreditar que precisaríamos fazer de tudo para se manter em um emprego. Agora que vemos essa ‘revolta silenciosa’, ficamos indignados, mas, se fizéssemos igual, teríamos mais salários”, escreveu uma usuária do X ao responder uma publicação viral sobre o tema.
“Trabalho é extensão da identidade”
O especialista em gestão de empresas entrevistado pelo Band.com.br destaca que esse fenômeno, quanto ao poder de escolha da Geração Z, pode ser explicado pelo fato de que o trabalho vai além da fonte de renda. Na verdade, para Marques, trata-se de uma extensão da identidade do funcionário.
“O trabalho, para eles [Geração Z], não é só fonte de renda. É uma extensão da identidade. Eles querem participar de algo que faça sentido. Isso os torna mais seletivos. As empresas que não oferecem clareza, desenvolvimento e ambiente saudável, muitas vezes, nem chegam a ser consideradas por esses jovens. A barganha deles vem muito mais do desejo por coerência entre valores pessoais e profissionais do que por postura de confronto”, analisou Marques.
Com 24 anos, a advogada Nathália Bassani faz parte do público jovem que não se submete a qualquer vaga. Segundo contou ao Band.com.br, na hora de aceitar ou recusar uma proposta, avalia, além do salário, benefícios trabalhistas, as relações interpessoais e até a possibilidade de trabalhar de casa, em alguns dias da semana, mesmo que a empresa fique perto de onde mora.
“Primeiro, eu quero ver como a vaga vai me beneficiar. Se eu for bem tratada, tiver um salário bom e benefícios bons, sim, aceitaria. Essa é a vaga que eu procuro. Mesmo que a vaga seja boa e, no dia que eu for ao ambiente e não me sinta bem, eu recuso do mesmo jeito”, ponderou a jovem, também pós-graduanda em direito empresarial.
“Vida perfeita não existe”
Como contraponto, a professora de liderança e carreira Lilian Cidreira, da ESPM, avalia esse comportamento dos mais jovens não como um poder superior ao de gerações anteriores, mas como um fenômeno condizente com a contemporaneidade digital desse perfil. Na análise, ela destacou elementos positivos e negativos dessa conduta, sobretudo a partir do consumo de conteúdos on-line que exploram recortes de uma suposta vida profissional perfeita.
“Uma vez que existe essa pressão [dos mais jovens por melhores condições e flexibilidade sobre trabalho remoto], existe, também, o lado das empresas tendo que se adaptar [aos anseios da Geração Z]. Qual o lado negativo? Muitas vezes, esse comportamento espelha um desejo de uma vida muito perfeita [da rede social de terceiros], e a gente sabe que vida perfeita não existe”, considerou a especialista.
A observação da professora da ESPM condiz com a percepção da estudante Anna Carolina, de 21 anos. Ao Band.com.br, destacou a importância das oportunidades para quem começa a procurar emprego, de forma que, nesse caso, recusar uma vaga pode ser algo difícil para um recém-formado ou estagiário.
“Eu acredito que, agora no início, quando você está iniciando sua carreira, iniciando um primeiro emprego, iniciando até mesmo sua graduação, você acaba se submetendo a um salário baixo ou, às vezes, fazer o seu trabalho além, para ter um pouco de reconhecimento e, quem sabe, aumentar o seu posto dentro da empresa ou até mesmo ganhar um pouco mais. Então, sim, eu acho que vale a pena, dependendo do que seja essa questão”, compartilhou a estudante.
Jovem como porta-voz do trabalho
E quem ganha nessa relação geracional que envolve lideranças e subordinados, Geração Z e Millennials? Para a professora Cidreira, uma atuação mútua faz-se necessária, de forma que a empresa aproveite os potenciais dos jovens para fazer com que esses funcionários se sintam porta-vozes de onde trabalham.
Qual o grande erro? Muitas empresas trazem essa geração, mas não querem que essa geração traga sugestões, ideias, tenha uma voz mais ativa (Lilian Cidreira, professora de liderança e carreira)
Ensinar e aprender no mundo corporativo
Na biologia, existe o conceito de mutualismo, em que duas espécies distintas trabalham em conjunto em prol de benefícios para ambas. É algo parecido com isso que os especialistas passam a defender, quando o assunto é choque geracional no mercado de trabalho, para que todos tenham vantagens. O jovem precisa aprender, mas também tem a ensinar a um mundo corporativo que precisa se adaptar às transformações sociais e tecnológicas.
“Empresas que promovem uma liderança mais participativa, com foco em feedbacks contínuos, crescimento e flexibilidade, conseguem melhores resultados com esses talentos. É importante que o gestor também esteja disposto a aprender com eles, especialmente sobre novas linguagens, comportamentos e formas de consumo de informação. Essa troca é o que gera um ambiente de crescimento mútuo”, concluiu Marques.
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