Mais de duas décadas após o crime que paralisou o Brasil, Suzane von Richthofen volta aos holofotes para narrar a própria versão da história. Em um documentário de quase duas horas, provisoriamente intitulado Suzane vai falar, a ex-estudante de Direito reconstrói os passos que a levaram de uma jovem de classe alta em São Paulo à condenada a 39 anos de prisão. Atualmente em regime aberto, Suzane utiliza o espaço para descrever uma infância marcada por rigidez acadêmica e distanciamento emocional dentro da mansão da família.
Segundo o relato de Suzane, o ambiente doméstico era desprovido de afeto. Ela descreve o pai, Manfred, como uma figura "zero afeto" e relata ter presenciado episódios de violência doméstica contra a mãe, Marisia, ainda na infância. "Eu e meu irmão fomos ficando invisíveis dentro de casa", afirmou, detalhando que o isolamento a fez buscar refúgio em Daniel Cravinhos. O relacionamento, desaprovado pelos pais, teria sido o catalisador de uma vida dupla regada a mentiras, fugas para o litoral e o uso de drogas, culminando na ideia de que a vida seria melhor se os pais "não existissem".
De acordo com informações de Ulisses Campbell, jornalista do jornal O Globo e escritor do livro que deu vida à série Tremembé, o filme traz registros do cotidiano da família, incluindo cenas dentro da residência e até celebrações de Natal. O atual marido da condenada, o médico Felipe Zecchini Muniz, também participa, mas opta por não exibir o rosto, aparecendo de forma discreta.
A noite do crime
Sobre a execução dos pais em 2002, Suzane tenta delimitar sua responsabilidade técnica, afirmando que não planejou as armas, mas admite a culpa moral por ter aberto a porta para os executores. Ela descreve o momento do assassinato sob uma ótica de dissociação: "Eu não estava em mim. Era como um robô, sem sentimento". Suzane sustenta que permaneceu no andar inferior da casa com as mãos nos ouvidos para não escutar as agressões.
O documentário, que vai render aproximadamente 1 milhão de reais para a criminosa, também apresenta contrapontos contundentes. A delegada Cíntia Tucunduva, responsável pelo caso na época, relembra que a postura de Suzane nos dias seguintes ao crime era incompatível com o luto, mencionando uma suposta confraternização na casa onde o sangue dos pais ainda era sentido. Suzane nega a festa, afirmando que o odor no local tornava qualquer celebração impossível, expondo as divergências que ainda persistem entre sua narrativa e os laudos oficiais da investigação.
Nova vida e o peso do sobrenome
A produção revela ainda a rotina atual de Suzane ao lado do marido, o médico Felipe Zecchini Muniz, e do filho. Tentando traçar uma linha divisória entre o passado e o presente, ela afirma que a "antiga Suzane" morreu junto com os pais e que encontrou na maternidade um sinal de redenção espiritual. "Quando eu olho para o meu filho, tenho a certeza de que Deus me perdoou", declarou no longa, que ainda não possui data de estreia oficial na Netflix, apesar de trechos já circularem intensamente nas redes sociais.
Mesmo tentando reconstruir a vida no interior de São Paulo, Suzane admite que o estigma do crime é eterno. Ela relata que o "ar para" sempre que entra em lugares públicos e que o reconhecimento constante por onde passa serve como um lembrete de que o caso Richthofen nunca foi encerrado.
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