
Quem é Casimiro Miguel
Divulgação
Se você consome futebol ou entretenimento pela internet no Brasil, é praticamente impossível não ter sido impactado pelo fenômeno Casimiro Miguel. Aos 32 anos, o carioca de comentários espontâneos e bordões que viraram mania nacional já não é apenas o streamer mais popular do país: ele é a imagem e um dos sócios de um dos maiores impérios de mídia e transmissões esportivas da América Latina.
A trajetória de "Cazé", porém, nem sempre envolveu números astronômicos e contratos bilionários. A construção do negócio que hoje compete diretamente com emissoras tradicionais começou no modelo clássico da televisão e passou por uma virada de chave ousada no ambiente digital.
Do salário fixo na TV ao faturamento milionário nas transmissões ao vivo
Antes de arrastar milhões de pessoas para o YouTube e a Twitch, Casimiro traçou um caminho tradicional na comunicação. Durante sua passagem pelo SBT Rio como comentarista e apresentador, o jornalista recebia um salário fixo de R$ 15 mil mensais.
Enquanto cumpria sua jornada na televisão, o comunicador começou a investir em transmissões ao vivo na internet durante a madrugada. O tom de conversa de bar, os comentários de futebol com humor afiado e a interação constante com o chat fizeram sua audiência crescer de forma exponencial. Em pouco tempo, a internet deixou de ser um projeto paralelo para se tornar sua principal fonte de renda.
Um levantamento com base em dados públicos de monetização indicou que, entre agosto de 2019 e outubro de 2021, o streamer arrecadou mais de US$ 576 mil apenas com suas lives — o equivalente a cerca de R$ 3,7 milhões na cotação atual. No período de 27 meses analisado, a média mensal de faturamento foi de aproximadamente R$ 137 mil, valor R$ 122 mil superior ao salário que ele recebia na emissora carioca.
A saída definitiva da TV abriu espaço para um modelo de faturamento diversificado, baseado em publicidade, patrocínios de grandes marcas, assinaturas e acordos comerciais diretamente ligados aos seus canais digitais.
A criação da CazéTV e o estouro na Copa do Mundo do Catar
O divisor de águas na carreira do influenciador aconteceu no final de 2022. Em uma parceria estratégica com a empresa de marketing esportivo LiveMode — fundada por Edgar Diniz e Sérgio Lopes, os mesmos criadores do Esporte Interativo —, nasceu a CazéTV.
A plataforma foi lançada oficialmente em novembro daquele ano, durante o Mundial de Seleções do Catar, após a LiveMode adquirir os direitos digitais da competição junto à FIFA. A transmissão gratuita pelo YouTube, combinada com o carisma e a informalidade de Casimiro, quebrou recordes mundiais de audiência simultânea na internet e transformou o canal no principal polo de cobertura do evento no país.
Desde então, o projeto expandiu seu catálogo e passou a transmitir grandes eventos globais, incluindo a Copa do Mundo Feminina, os Jogos Olímpicos, a Eurocopa e partidas do Campeonato Brasileiro. Estimativas do mercado apontam que a operação do canal no YouTube tem potencial para gerar um faturamento de até R$ 13,7 milhões por mês.
Estrutura societária, investidores globais e sócio Cristiano Ronaldo
A rápida ascensão da CazéTV exigiu uma reestruturação profissional na gestão do negócio. A operação diária, os contratos de transmissão, a montagem da grade e a contratação de equipes passaram a ser comandadas pela LiveMode. Por sua vez, Casimiro é sócio da holding que controla a marca e atua como embaixador e principal apresentador do canal.
Essa holding responsável pelo ecossistema tem sede nas Ilhas Cayman — polo frequente para conglomerados internacionais de mídia — e reúne uma lista de acionistas de peso. O quadro inclui executivos da indústria, fundos de investimento, o próprio Casimiro e astros do esporte mundial, como o atacante português Cristiano Ronaldo.
O potencial de crescimento do canal atraiu aportes expressivos do mercado financeiro. Em 2024, a empresa recebeu investimentos do fundo XP Private Equity II e um aporte da gestora norte-americana General Atlantic, estimado pelo mercado em cerca de R$ 450 milhões.
Lei do Mandante e a disputa por R$ 8,5 bilhões no futebol brasileiro
O sucesso do ecossistema construído por Casimiro e a LiveMode surfou em uma mudança na legislação esportiva brasileira. A aprovação da Lei do Mandante, em 2021, permitiu que os clubes negociassem os direitos de exibição de suas partidas jogadas em casa de forma independente, quebrando o monopólio de poucas emissoras.
Nesse novo cenário, a LiveMode se posicionou como a parceira comercial da Futebol Forte União (FFU), bloco que reúne dezenas de clubes brasileiros. A empresa passou a intermediar a venda desses pacotes de transmissão para gigantes como Globo, Record, Amazon Prime Video e o próprio YouTube.
Segundo a LiveMode, os contratos fechados sob essa nova modelagem superam a marca de R$ 8,5 bilhões ao longo de cinco anos. Parte dessas partidas encontra na CazéTV sua principal vitrine gratuita na internet.
O desafio de manter a essência da "sala de casa"
O crescimento acelerado traz desafios para o futuro da plataforma. O grande diferencial da CazéTV sempre foi o improviso, o tom informal e a sensação de que o público está assistindo ao jogo na sala de casa ao lado de Casimiro.
Manter essa linguagem leve e autêntica em meio a cobranças de investidores internacionais, metas rígidas de audiência e contratos bilionários é o ponto de equilíbrio buscado pelo projeto.
Se por um lado a LiveMode cuida da engenharia financeira e das negociações de bastidores, por outro, Casimiro Miguel segue como o coração do canal. A combinação entre a precisão do mercado executivo e a espontaneidade do comunicador redesenhou o consumo de esportes no Brasil e definiu os novos rumos da mídia digital.
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