Esporte na Band

Como torcida organizada do São Paulo inaugurou sede luxuosa

Em entrevista exclusiva ao Band.com.br, presidente da Dragões da Real explica bastidores financeiros e institucionais

Matheus Gavazzi
MATHEUS GAVAZZI

12/02/2026 • 17:22 • Atualizado em 12/02/2026 • 17:22

Resumo

Crise financeira e institucional atinge o São Paulo, com dívida superior a R$ 900 milhões, renúncia de presidente e transição administrativa, enquanto a Dragões da Real, torcida organizada liderada por André Azevedo, inaugura uma sede milionária em frente ao Morumbi, destacando contraste entre situação do clube e da torcida.

Projeto da nova sede busca romper padrões das organizadas, oferecendo espaço aberto ao torcedor comum, com memorial que preserva a história do clube e reúne itens exclusivos, sendo financiado por parcerias comerciais, apoio de associados e leilões internos, sem aporte direto do São Paulo e com contrato de aluguel e compra obrigatória.

Presidente da Dragões detalha atuação institucional da torcida, participação de ídolos como Lugano em arrecadações, prática de repasse de ingressos como procedimento comum no futebol brasileiro e estratégia de ampliar influência política no clube por meio de associados e conselheiros, visando mudanças estruturais graduais.

O São Paulo vive uma crise financeira profunda, com dívida elevada e um período recente muito turbulento, marcado pela renúncia do presidente. Enquanto o clube tenta reorganizar sua estrutura administrativa, uma de suas torcidas organizadas inaugura uma sede luxuosa em frente ao Morumbi.

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Em entrevista exclusiva ao Band.com.br, o presidente da Dragões da Real, André Azevedo, detalha como o projeto foi viabilizado e explica os principais pontos que cercam a nova estrutura.

André Azevedo, presidente da Dragões da Real I Foto: Arquivo pessoal

André Azevedo, presidente da Dragões da Real I Foto: Arquivo pessoal

Contexto para inauguração da sede

A sede surge em um momento delicado para o clube. O São Paulo atravessa uma crise institucional após a renúncia de Júlio Casares e a posse de Harry Massis Jr., além de lidar com um endividamento que ultrapassa a casa de R$ 900 milhões.

À frente da Dragões da Real desde 2006, André Azevedo é uma das principais lideranças do movimento de torcidas organizadas no país. Frequentador do Morumbi desde a adolescência, participou da reorganização da Dragões após um período de inatividade no fim dos anos 1990.

Além de presidir a torcida são-paulina, também comanda a Associação Nacional das Torcidas Organizadas (ANATORG), entidade que reúne lideranças de diferentes clubes e atua no diálogo institucional do setor.

Uma sede para mudar a lógica das organizadas

Segundo André, a concepção do espaço nasce de uma decisão de romper com padrões históricos das torcidas organizadas. A proposta, afirma, não era criar um local exclusivo, mas um ambiente pensado para o torcedor comum e para a preservação da memória do clube.

“Vou propor uma mudança de comportamento e propor para as torcidas aquilo que elas nunca tiveram. Um banheiro limpo, a história do São Paulo sendo contada. Nós temos coisas aqui no nosso memorial que o São Paulo não tem”, afirmou.

Ele reforça que a sede funciona de forma aberta, com controle apenas por limite de público em dias de jogo, sem cobrança de entrada.

“Não foi uma casa pensada no sócio da Dragões. Foi pensada na coletividade são-paulina, na nação tricolor.”

Acervo histórico como centro do projeto

Boa parte do impacto do novo espaço está no acervo exposto. A Dragões reúne camisas usadas em jogos específicos, itens autografados e objetos doados por atletas e ex-atletas. Um dos símbolos é uma das letras originais do antigo letreiro do estádio Cícero Pompeu de Toledo, retirada após a adoção dos naming rights.

“A letra do antigo nome Cícero Pompeu de Toledo está em exposição aqui. Não tem outro lugar onde ela esteja exposta”, disse André.

A letra "O" do antigo nome Cícero Pompeu de Toledo em exposição I Foto: Torcida Dragões da Real

A letra "O" do antigo nome Cícero Pompeu de Toledo em exposição I Foto: Torcida Dragões da Real

Ele detalha que a aquisição ocorreu por meio de leilão oficial, no qual a torcida não venceu inicialmente.

“Nós ficamos em terceiro. Os dois primeiros não pagaram. Quando a leiloeira me ligou, eu falei: a gente vai ficar com a letra pelo valor que tinha parado no lance. Fizemos o pagamento e hoje ela está aqui exposta.”

O valor pago pela peça foi de R$ 22 mil.

O espaço também abriga camisa utilizada no jogo comemorativo do centenário do Paulistano, clube que está na raiz do São Paulo, chuteiras ligadas à despedida de Rogério Ceni, luvas levadas por Rafael na final da Copa do Brasil de 2023 e camisas assinadas por jogadores como Arboleda, Calleri e Diego Lugano.

“Lugano, Leandro Guerreiro e o Renan foram os que mais se prontificaram a nos ajudar com várias coisas”, afirmou.

Coleção de camisas I Foto: Torcida Dragões da Real

Coleção de camisas I Foto: Torcida Dragões da Real

De onde veio o dinheiro e o que ainda falta pagar

André nega qualquer aporte do São Paulo e afirma que o imóvel é alugado, com contrato de compra obrigatória ao fim do período.

“A casa ainda não é nossa. Eu pago aluguel todo mês. Existe um contrato com obrigatoriedade de compra.”

Segundo ele, o acordo prevê cinco anos de prazo, dos quais ainda restariam cerca de três para a Dragões captar os recursos necessários.

“Eu ainda tenho três anos para juntar esse dinheiro e comprar a casa. Se isso não acontecer, existe uma multa alta. A gente é obrigado a comprar.”

Sobre o financiamento da reforma, o presidente cita parcerias comerciais e apoio direto de associados, principalmente por meio de permutas.

“A gente fechou parceria com marca de cerveja, que deu freezer, chopeira e copos. Teve sócio que ajudou com vidro e material de construção. Foram parcerias de quem acreditou no projeto.”

Participação de ídolos

Entre as ações para viabilizar a sede, André destaca o leilão de um jantar com Diego Lugano, realizado internamente e sem custos operacionais.

“Nós leiloamos um jantar com o Lugano para dez pessoas e arrecadamos cerca de 80 mil reais. Ele arcou com tudo. A arrecadação foi integral para a casa.”

Segundo ele, a estratégia foi pulverizar as fontes de receita para evitar dependência de grandes financiadores.

E os repasses de ingressos?

O repasse de ingressos é outro tema recorrente entre torcedores. André reconhece o incômodo de parte da torcida, mas afirma que a prática é institucional e comum no futebol brasileiro.

O torcedor pode achar imoral ou injusto, e é direito dele. O que não pode é tratar como ilegal. Não foi uma relação com o Júlio Casares, é uma relação institucional entre torcida e São Paulo.

Ele afirma que o debate costuma ganhar força em jogos de maior apelo.

“O São Paulo não atinge a capacidade máxima em cinco ou sete jogos no ano. Essa discussão aparece sempre nos jogos grandes.”

Ao falar do impacto prático do repasse, o presidente associa o tema à manutenção da estrutura de arquibancada.

“A gente não olha só para o valor do ingresso, mas para a estrutura, para o bandeirão e para a recepção. Às vezes, sem a torcida organizada, aquela pessoa não conseguiria ir ao jogo.”

Como a Dragões atua para pressionar o São Paulo além do protesto

No campo político, André evita avaliações sobre Harry Massis Jr. e afirma que ainda não há tempo para julgamentos. Para ele, a crise vivida pelo clube tem origem estrutural e passa diretamente pela política interna.

“O problema do São Paulo é político. Onde você é mais eficaz? Estando dentro da política do clube.”

Segundo André, a Dragões incentivou associados a adquirirem títulos do clube como forma de ampliar presença institucional.

“Hoje temos cerca de 70 sócios do clube ligados à Dragões e dois conselheiros.”

Para o presidente, a mudança real ocorre de forma gradual.

“Eu não preciso gritar para mudar. Eu comecei a pensar mais como xadrez. Às vezes você fica meses para andar 1%.”