Como a crise financeira atinge brasileiros que vivem e empreendem no Paraguai
Quebra do banco digital Ueno bloqueia contas de empresários, afeta atendimentos e retém até fundos da Conmebol
A derrocada do banco digital Ueno, no Paraguai, desencadeou uma forte onda de incertezas financeiras e passou a impactar diretamente a rotina de milhares de brasileiros que residem e mantém negócios no país vizinho. Na imprensa, o caso ganhou a alcunha de "Master do Paraguai" por semelhanças com as fraudes descobertas no banco de Daniel Vorcaro no Brasil.
Continua depois da publicidade
Correntistas que tentam acessar o aplicativo da instituição continuam sem conseguir visualizar saldo ou realizar qualquer tipo de transação, enquanto as agências físicas permanecem de portas fechadas.
O colapso atinge em cheio uma comunidade estimada em quase 300 mil brasileiros que vivem em território paraguaio, gerando transtornos imediatos no fluxo de caixa do comércio, nas folhas de pagamento de empresas e na prestação de serviços.
Impacto no comércio e negociação com fornecedores
Comerciantes e empresários relatam o choque de perder o acesso repentino aos recursos de suas operações. O empresário Cleiton, que mora no Paraguai há 25 anos e comanda quatro empresas com cerca de 120 funcionários, viu parte expressiva de seu capital de giro ficar travada nas contas da instituição.
Continua depois da publicidade
Para contornar o impasse e honrar os compromissos do negócio, ele precisou recorrer a adiantamentos e empréstimos em outras instituições bancárias, além de negociar prazos com fornecedores enquanto aguarda uma solução definitiva para os saldos retidos.
No setor de serviços, a paralisação do sistema financeiro também esfriou o consumo. Dono de uma clínica de estética no país, o médico brasileiro Thayki relatou que pacientes estão cancelando ou remarcando consultas e procedimentos por falta de liquidez imediata, já que a quebra da instituição pegou a população de surpresa.
Repercussão no esporte e prejuízo milionário da Conmebol
A crise institucional ultrapassou o cotidiano dos moradores e atingiu o esporte profissional. Jogadores paraguaios que atuam no futebol brasileiro se mobilizaram para cobrar punição rigorosa aos gestores do banco. O zagueiro Gustavo Gómez, capitão do Palmeiras, assinou uma carta em nome dos atletas da seleção paraguaia afirmando que os jogadores também figuram entre as vítimas do bloqueio financeiro.
Continua depois da publicidade
A instabilidade financeira alcançou até mesmo a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol). A entidade máxima do futebol continental teve cerca de R$ 76 milhões bloqueados no banco em meio à intervenção decretada pelas autoridades monetárias.
Intervenção e início do pagamento do fundo garantidor
Diante da gravidade da situação, o Banco Central do Paraguai interveio na instituição e deu início aos repasses do fundo de garantia de depósitos aos correntistas afetados, incluindo os investidores e clientes brasileiros.
Nesta primeira fase de ressarcimento, os pagamentos estão priorizando quem possui saldo de até 10 milhões de guaranis (cerca de R$ 8,8 mil) e mantém conta ativa em outro banco. Foi o que ocorreu com o médico brasileiro Matheus, residente no Paraguai há oito anos, que conseguiu reaver cerca de 9,5 milhões de guaranis por meio de transferência para outra instituição bancária.
Continua depois da publicidade
Apesar dos primeiros estornos a pessoas físicas, empresários que mantêm valores expressivos sob titularidade jurídica ainda enfrentam indefinição. É o caso de correntistas como Sandro, que teve liberados apenas os recursos pessoais de sua conta física, mas segue sem previsão sobre a devolução do capital retido nas contas empresariais.
