Internacional

Trump vê aliados internacionais caírem antes de eleição decisiva nos EUA

Presidente dos EUA amarga derrotas no Brasil, em Israel e na Sérvia antes de eleição crucial que poderá colocar a oposição democrata no comando do Congresso

6 min

30/10/2026 12:31 • Atualizado há 2 horas

Trump vê aliados internacionais caírem antes de eleição decisiva nos EUA

Donald Trump

Win McNamee/Pool via REUTERS

Os americanos vão às urnas na próxima terça-feira (3) escolher quem os representará no Congresso dos Estados Unidos. As eleições de meio de mandato (midterms) poderão mudar o equilíbrio de forças na Câmara dos Representantes e no Senado. Hoje, ambos são controlados por aliados conservadores do Partido Republicano do presidente Donald Trump.

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O pleito será realizado dias depois de Trump sofrer amargos revezes no xadrez político internacional, com a derrota de aliados importantes para a consolidação de seu projeto de poder.

No Brasil, o candidato favorito da Casa Branca, Flávio Bolsonaro (PL) — impulsionado indiretamente por meio de tarifaços comerciais e de uma campanha contra o "narcoterrorismo" — perdeu por uma diferença de 4,4 milhões de votos e fugiu na sequência para os Estados Unidos. Ele é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro e outros crimes.

Na Sérvia, os eleitores também deram vitória à esquerda e desbancaram o atual presidente Aleksandar Vucic, importante aliado de Trump na Europa.

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E em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu viu sua coalizão encolher no Knesset (Parlamento) e está sem maioria para governar. O resultado eleitoral ali abriu um quadro de incerteza para um dos aliados mais importantes de Trump no Oriente Médio.

Os resultados não servem como previsão para o desfecho das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Ainda assim, a vitória da lista estudantil na Sérvia, a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil e o baque sofrido pela coalizão de ultradireita de Netanyahu em Israel representam más notícias para Trump.

"Trump foi um forte apoiador tanto de Jair Bolsonaro [...] quanto de seu filho Flávio", lembra Lawrence J. Haas, especialista em política externa dos EUA do centro de estudos American Foreign Policy Council.

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"Trump não ficou nada satisfeito com as derrotas dos dois e não tem qualquer simpatia por Lula. Portanto, a relação [com o Brasil] deverá permanecer, na melhor das hipóteses, fria", diz Haas, que foi diretor de comunicação de Al Gore, vice de Bill Clinton, na década de 1990.

Trump apoia os Bolsonaro com acusações infundadas de fraude eleitoral

O Departamento de Estado dos EUA concedeu vistos a Flávio Bolsonaro e sua família. Ele se junta ao irmão Eduardo, ex-deputado federal condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentar interferir ilegalmente na Justiça em benefício do pai.

Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado, após se recusar a admitir a derrota nas eleições de 2022. Flávio enveredou pelo mesmo caminho ao se recusar a reconhecer o resultado de 2026 e apontar supostas irregularidades na votação, sem apresentar provas e usando argumentos incoerentes.

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A estratégia de alegar fraude eleitoral segue o script de Trump, que insiste, sem nenhuma prova, que Joe Biden e os democratas teriam "roubado" as eleições de 2020, o que não procede.

No dia seguinte às eleições no Brasil, Trump voltou a usar o mesmo argumento ao comentar a derrota de Flávio.

"Passou uma impressão muito ruim. A eleição, a maneira como os votos foram contabilizados, sabe? Com a prorrogação do horário de votação, foi muito estranho", disse. "Não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada. Francamente, não tomei partido, mas foi uma imagem péssima para o mundo. É mais uma eleição. Sabe, as eleições precisam ser incontestáveis, e aquilo me pareceu muito ruim."

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Adeus ao aliado Vucic na Sérvia, próximo de Putin

Vucic governava a Sérvia desde 2017 com mão firme e pretendia agora assumir o cargo de primeiro-ministro. No passado, ele afirmou que ele e Trump compartilhavam da mesma visão de mundo. O filho mais velho de Trump, Donald Trump Jr., visitou Vucic em Belgrado antes e depois de o pai ser eleito, em novembro de 2024.

A Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), que reúne os maiores expoentes da direita internacional e é ligada ao movimento trumpista Maga, havia anunciado recentemente a realização de um encontro em Belgrado em novembro. Vucic seria um dos principais palestrantes. Ainda não está claro se os planos serão mantidos.

Vucic e Trump também têm em comum a simpatia pelo presidente russo, Vladimir Putin. Nisso, o político sérvio destoava da maioria das lideranças europeias. E se recusou a aderir às sanções da União Europeia contra Moscou: Belgrado continuou comprando matérias-primas russas e, sob seu governo, a mídia estatal sérvia retratou a Rússia de forma mais positiva do que a UE.

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Trump também vem demonstrando uma postura cada vez mais favorável a Moscou. Em entrevista, admitiu se entender melhor com Putin do que com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski. E um de seus negociadores internacionais, Steve Witkoff, referiu-se a Putin recentemente como um "humanitário".

O fim do governo Vucic significa, portanto, que Trump perde um dos poucos aliados europeus pró-Putin que lhe restava.

Governo Netanyahu abalado em Israel

Em Israel, Trump também sofreu um baque, ainda que em menor proporção. Lá, o premiê Benjamin Netanyahu viu sua bancada aliada no Parlamento encolher para 53 assentos – oito a menos que o necessário para governar.

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Isso significa que a coalizão deNetanyahu, ainda que tenha sido a mais votada, terá que negociar com partidos da oposição se quiser se manter no poder.

Enquanto o grupo liderado pelo rival Gadi Eisenkot elegeu 48 deputados, a ala de partidos árabes, crítica à guerra em Gaza, amealhou 19 cadeiras — quatro a mais que na eleição anterior, em 2022.

A proximidade entre Trump e Netanyahu não começou apenas quando iniciaram juntos a guerra contra o Irã em fevereiro. Em 2018, durante seu primeiro mandato, o americano transferiu a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. A medida foi controversa porque Jerusalém é reivindicada, ao menos em parte, tanto por israelenses quanto por palestinos como capital. O campo político de Netanyahu celebrou a decisão na época.

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Hoje, os Estados Unidos continuam sendo, de longe, o parceiro mais importante de Israel, e Israel segue sendo um pilar fundamental da presença americana na região. Não está claro como essa relação evoluiria sob outro governo israelense; caso Netanyahu permaneça no poder, pouca coisa ou nada deve mudar.

Perspectivas pouco animadoras para Trump nas eleições de meio de mandato

Com a derrota de Vucic, Trump perde um aliado fiel; com a vitória de Lula, permanece no poder um presidente de quem ele não gosta.

Isso não é agradável para Trump, mas também não terá influência sobre a importante eleição em seu próprio país, afirma Haas. "Os americanos votarão com base em temas que os afetam diretamente e de acordo com a opinião que têm sobre o partido atualmente no poder."

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Mesmo assim, o cenário não parece promissor para Trump. "Ele tem os índices de aprovação mais baixos de um presidente antes de eleições de meio de mandato desde Harry Truman, em 1946", pontua Haas. "Os americanos estão muito preocupados com quanto ainda conseguem pagar para viver e rejeitam a guerra dos Estados Unidos contra o Irã."

Colaboraram Benjamin Alvarez Gruber e Rayanne Azevedo.

Autor: Carla Bleiker

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