
Goleiro egípcio Mostafa Shoubir defende o pênalti desperdiçado pelo argentino Lionel Messi
Paul Childs-7.jul.2026/Reuters
Hoje, aos 39 anos, cansado e depois de desperdiçar um pênalti decisivo, Lionel Messi ainda teve o resultado nas próprias mãos. A ciência explica por que continuar depois do erro é mais raro (e mais valioso) do que nunca errar.
Imagine a cena. Você erra, na frente de todo mundo, exatamente no momento em que mais precisava acertar. O erro é visto, comentado, repetido em câmera lenta. E, ainda por cima, o resultado continua contra você. A maioria das pessoas, nesse instante, já começou a se despedir mentalmente do que queria alcançar.
Foi mais ou menos isso que aconteceu no jogo entre Argentina e Egito. Com o time perdendo, veio a chance de empatar em uma cobrança de pênalti. Ele bateu, o goleiro adivinhou o canto e defendeu. O erro ficou ali, exposto, justamente no momento em que toda a expectativa de um país estava concentrada em uma única cobrança. Pouco depois, o time sofreu mais um gol e passou a perder por 2 a 0, um placar que, faltando pouco tempo para o fim da partida, praticamente sentenciava a eliminação.
É aqui que a história muda de direção. Aos 39 anos, depois de correr o jogo inteiro, depois de errar em público e de ver o placar ficar ainda mais desfavorável, Messi não se escondeu. Nos minutos finais, já visivelmente cansado, participou diretamente da reação da equipe e, na sequência, ajudou a construir o gol que definiu o resultado. Em poucos minutos, o time saiu de uma derrota praticamente certa para uma vitória que carimbou a vaga na próxima fase.
O que chama atenção não é o talento (isso o mundo já sabe que ele tem há décadas). É a decisão, tomada no pior momento possível, de continuar jogando como se o erro anterior não existisse.
A psicóloga Angela Duckworth, da Universidade da Pensilvânia, dedicou anos de pesquisa a entender exatamente esse tipo de comportamento. O conceito que ela batizou de "grit" (uma combinação de paixão e perseverança sustentada ao longo do tempo) aparece, em seus estudos, como um previsor mais forte de sucesso do que talento ou inteligência isolados.
Segundo Duckworth, o que diferencia quem alcança resultados relevantes não é a ausência de fracasso, mas a disposição de continuar se esforçando logo depois dele, sem deixar que o erro anterior defina o restante da tentativa.
Isso contraria um instinto muito humano. Depois de um erro público, o corpo pede recuo: baixar a cabeça, jogar mais devagar, proteger-se de errar de novo. É uma reação de defesa, não de fraqueza. O problema é que, se você obedece a ela, o erro que já aconteceu acaba definindo tudo o que vem depois. E o resultado final deixa de estar nas suas mãos.
A cena desse jogo é um lembrete simples e direto: errar não encerra a partida. Só a decisão de parar de tentar a encerra.
Plano prático: três movimentos para esta semana
O primeiro é separar o erro do resultado final. Na próxima vez que você errar algo importante (uma reunião, uma conversa, uma decisão), escreva, em uma frase, o que aconteceu e, logo abaixo, o que ainda está em aberto para ser feito depois disso. O erro é um fato pontual. O resultado final ainda está sendo escrito.
O segundo é dar o próximo passo mesmo cansado. A vontade de desistir costuma aparecer justamente quando você já gastou toda a energia do dia. Escolha, nesta semana, continuar por mais dez minutos exatamente no momento em que o corpo pedir para parar. É nesse pequeno intervalo que a maioria das pessoas desiste — e é exatamente por isso que ele importa tanto.
O terceiro é observar o que você faz logo depois de um erro público. Você se recolhe ou continua se colocando à disposição? Não precisa ser corajoso o tempo todo. Mas repare se o seu padrão automático, depois de errar, é sumir ou seguir tentando.
Ninguém lembra do pênalti perdido. Todo mundo vai lembrar da virada. E a diferença entre as duas coisas não foi talento. Foi a decisão de continuar jogando depois do erro.
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