Lifestyle

UE proíbe destruição de roupas não vendidas e impulsiona busca por brechós

Nova regra contra o desperdício de estoques coloca brechós, revenda e upcycling no centro das estratégias da indústria da moda

GABRIELLE PEDRO

01/07/2026 • 10:03 • Atualizado em 01/07/2026 • 18:16

A indústria do fast fashion na Europa terá que mudar a forma como lida com os estoques que ficam encalhados nas prateleiras. A partir de julho de 2026, grandes empresas da União Europeia estarão proibidas de destruir roupas, calçados e acessórios que não forem vendidos, uma medida inédita que busca reduzir o desperdício têxtil e estimular a chamada economia circular.

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A regra faz parte do regulamento Ecodesign for Sustainable Products (ESPR), que estabelece critérios de sustentabilidade para diversos produtos, incluindo maior durabilidade, possibilidade de reparo, reutilização e menor impacto ambiental durante todo o ciclo de vida.

Segundo a Comissão Europeia, entre 4% e 9% das roupas produzidas na Europa são destruídas antes mesmo de serem usadas. Grande parte desses itens acaba em aterros sanitários ou é incinerada, prática que gera cerca de 5,6 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) todos os anos.

Além de proibir a destruição dos estoques, a legislação exigirá que as empresas informem publicamente o volume de produtos descartados e justifiquem eventuais exceções, como itens danificados ou que ofereçam risco à segurança.

Interesse por “upcycling” dobrou na Europa

A mudança acontece justamente em um momento em que consumidores europeus demonstram cada vez mais interesse por alternativas ao consumo tradicional.

Dados do Google Trends levantados pela Sala Digital mostram que o interesse por upcycling (reciclagem) — prática de transformar peças usadas em novos produtos de maior valor agregado — cresce de forma consistente na União Europeia há mais de uma década.

Em 2010, o índice de buscas relacionadas ao termo nas categorias de moda e vestuário era de apenas 0,9. Em 2026, considerando os dados parciais do ano, o indicador chegou ao valor máximo da série histórica (100), mostrando que o tema deixou de ser um nicho e passou a integrar o comportamento de consumo europeu.

O crescimento acompanha uma tendência global de reaproveitamento de roupas, incentivo aos brechós e valorização da moda circular.

Vestidos de noiva e itens de luxo lideram pesquisas

As buscas realizadas pelos consumidores mostram que a procura por peças de segunda mão vai muito além das roupas casuais.

Entre os termos mais pesquisados nos últimos cinco anos na União Europeia estão:

  • Lojas online de roupas usadas;
  • Vestidos de noiva de segunda mão;
  • Bolsas e relógios de luxo usados;
  • Bolsas de grifes como Louis Vuitton;
  • Calçados, jeans e vestidos para festas usados.

As pesquisas também revelam um consumidor interessado em participar desse mercado, seja comprando ou vendendo peças.

Entre as dúvidas mais frequentes estão:

  • Onde vender roupas usadas?
  • Como abrir um brechó online?
  • O que é upcycling?
  • Como limpar calçados de segunda mão?
  • Onde doar roupas?
  • Como vender vestidos de noiva usados?

Os dados indicam que a reutilização deixou de ser apenas uma alternativa econômica e passou a fazer parte da cultura de consumo sustentável em diversos países europeus.

Buscas no Brasil

Embora o Brasil ainda não possua uma legislação semelhante à europeia para impedir a destruição de estoques da indústria da moda, o comportamento dos consumidores segue uma tendência parecida.

Levantamento do Google mostra que uma das pesquisas mais frequentes relacionadas ao tema é "brechó perto de mim", indicando o crescimento da procura por lojas de segunda mão - veja o gráfico na íntegra.

Outro destaque é o interesse pelos brechós infantis, segmento impulsionado pelo curto tempo de uso das roupas de crianças e pela busca por economia.

Especialistas apontam que esse movimento acompanha a expansão da economia circular, baseada na reutilização, revenda, reparo e reciclagem de produtos para prolongar sua vida útil.

Fast fashion amplia impacto ambiental

A preocupação da União Europeia ocorre porque a indústria da moda figura entre os setores de maior impacto ambiental no planeta.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o setor de moda e têxteis responde por 2% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, além de gerar cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano em todo o mundo.

O volume equivale, em média, a um caminhão de lixo cheio de roupas sendo queimado ou enviado para aterros a cada segundo.

A produção também consome enormes quantidades de recursos naturais. Apenas uma camiseta de algodão pode exigir cerca de 2.700 litros de água durante sua fabricação, enquanto tecidos sintéticos liberam microplásticos que acabam chegando aos rios e oceanos.

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