
“Esboço de uma nova carta política do Brasil (Plano Segadas Viana com modificações de M.A. Teixeira de Freitas)”
“O revisionismo territorial brasileiro”.Revista Brasileira dos Municípios 2-8 (1947) (jan/abr.), 793-808
A ideia de transferir a capital do Brasil do litoral para o interior existe desde a primeira Constituição Republicana de 1891. Durante o Estado Novo, nos anos 30, o governo Vargas buscava modernizar o país, especialmente por meio da organização das estatísticas nacionais. O principal defensor dessa ideia era Mário Augusto Teixeira de Freitas, um dos fundadores do IBGE. Para ele, o Brasil só alcançaria o desenvolvimento desejado se usasse plenamente os recursos naturais.
Isso dependia de ocupar de fato o território, o que seria essencial para fortalecer o país. Quem explica essa história é Raul Amaro de Oliveira Lanari, historiador formado, mestre e doutor pela UFMG e professor da Faculdade de História da UFG. Ele pesquisou o projeto de Teixeira de Freitas e apresentou os resultados em sua tese de doutorado em 2016.
“Ele, desde cedo na sua trajetória, já tinha um projeto muito articulado. Ele chamava o projeto de reorganização nacional, que tinha uma série de elementos, como, por exemplo, a ocupação do interior do Brasil e dentro desse processo de ocupação do interior do Brasil, ele também defendia a transferência da capital para o interior brasileiro,” conta o historiador. “Então, ele propôs inicialmente a transferência da capital para Belo Horizonte sob o argumento de que se tratava de uma cidade ao mesmo tempo nova e já construída.”
Segundo Lanari, a partir do momento em que a capital no Brasil central fosse construída, a administração federal seria novamente transferida de Belo Horizonte para Brasília. A região de Belo Horizonte, mais especificamente a região do quadrilátero ferrífero, seria federalizada, sendo uma espécie de distrito federal industrial.
Teixeira de Freitas formulou a proposta inspirado no Plano Segadas Viana, que defendia dividir os antigos estados em unidades menores, de cerca de 250.000 km quadrados, para equilibrar melhor a distribuição de recursos. Ele acreditava que a racionalidade técnica, sobretudo a estatística, seria capaz de corrigir os problemas nacionais, por não estar sujeita às disputas políticas.
BH CAPITAL NACIONAL
Não existe e se na história, mas no aniversário de 128 anos de Belo Horizonte, podemos imaginar como teria sido se a cidade de Minas tivesse se tornado a capital do Brasil.
Uma primeira hipótese com essa transferência proposta da capital para Belo Horizonte, é que a cidade deixaria de estar sobre a esfera do governo mineiro e passaria a estar sobre a esfera do governo federal. Em termos políticos, Belo Horizonte deixaria de representar o sentido de modernidade que representou para Minas e passaria a servir ao projeto modernizador brasileiro em nível federal, tendo pontos positivos e negativos.
Se por um lado a ingerência do governo federal seria maior, por outro lado isso poderia dinamizar a vida de Belo Horizonte fazendo dela uma capital ainda maior no contexto da década de 30. Para Lanari, entre os pontos positivos da vinda da capital para BH, estaria o desenvolvimento da economia local em função da transferência do aparato estatal, o que poderia adiantar os índices de crescimento populacional, estrangulando ainda mais os serviços públicos prestados.
Lanari conta que segundo os jornais da época, a possibilidade de Belo Horizonte virar capital federal não agradou aos mineiros. “Aqui em Minas Gerais, especialmente em Belo Horizonte, o projeto foi recebido com grande consternação. O pessoal não gostou nada disso, né? Então, quando as notícias sobre a possibilidade de transferência da capital para Belo Horizonte chegam, uma série de matérias foram publicadas nos jornais locais, argumentando que o projeto, ele queria se aproveitar do esforço mineiro da construção de uma capital nova, moderna, higiênica, civilizada e que a ação do Teixeira de Freitas iria tomar dos mineiros o resultado do esforço que eles fizeram ao longo de pelo menos três décadas.”
Houve quem evocasse a lembrança de Tiradentes.
“As matérias jornalísticas advogavam a necessidade dos mineiros se insurgirem contra a proposta. Se baseavam inclusive na figura do Tiradentes como promotor da justiça e tudo mais, como inspiração para que os mineiros não aceitassem essa proposta,” revela.
Aparentemente, a opinião dos mineiros quanto a proposta continua a mesma quase um século depois: “Para ser sincero, eu não ia gostar muito se Belo Horizonte fosse a capital do país não, sabe? Trazer muita atenção política para cá, muitos olhos para a cidade. Eu acho que Belo Horizonte, apesar de ela ter uma importância e uma relevância bem grande no Brasil, de vez em quando é bom passar um pouquinho despercebida, a gente ter um pouquinho de liberdade para continuar sendo um lugarzinho mais sossegado, uma cidade grande que ainda tem um que vizinho de interior de vez em quando, para a gente ter continuar tendo paz nessa cidade que eu amo morar. Amo o jeitinho que ela é e não mudaria por nada,” diz o publicitário André Leonel.
A jornalista Mariana Rodrigues segue a mesma linha: “Eu não gostaria que Belo Horizonte fosse a capital do Brasil. Porque eu acho que isso implica em uma série de características que acabam se atribuindo a essa cidade que só faz sentido se você trabalha no governo ou se você usufruir daquilo de alguma forma. E costumam ser cidades mais caras, né? Onde o custo de vida é mais alto. Eu prefiro que BH fique ali, né? Mais pacata mesmo, mais na dela, do nosso jeitinho mineiro de ser. Não precisa trazer o congresso para cá não. Estamos bem sem ele.”
Há, porém, quem não ache a ideia de tudo ruim. A também jornalista Letícia Finamore acredita que se a capital tivesse sido transferida para BH, ela não teria saído daqui. “O povo ia gostar tanto da nossa hospitalidade, do nosso carisma, que eles iam deixar a capital por aqui mesmo,” comenta.
Mesmo não sendo capital federal, Belo Horizonte tem um lugarzinho especial guardado no coração de todo brasileiro e segue de braços abertos para receber a todos para um cafezinho com pão de queijo.
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