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Belo Horizonte quase se tornou capital do Brasil durante o Estado Novo

Projeto da década de 1940 previa a transferência da capital para BH enquanto Brasília fosse construída

MATHEUS HERMÓGENES

12/12/2025 • 16:27 • Atualizado em 12/12/2025 • 16:27

“Esboço de uma nova carta política do Brasil (Plano Segadas Viana com modificações de M.A. Teixeira de Freitas)”

“Esboço de uma nova carta política do Brasil (Plano Segadas Viana com modificações de M.A. Teixeira de Freitas)”

“O revisionismo territorial brasileiro”.Revista Brasileira dos Municípios 2-8 (1947) (jan/abr.), 793-808

A ideia de transferir a capital do Brasil do litoral para o interior existe desde a primeira Constituição Republicana de 1891. Durante o Estado Novo, nos anos 30, o governo Vargas buscava modernizar o país, especialmente por meio da organização das estatísticas nacionais. O principal defensor dessa ideia era Mário Augusto Teixeira de Freitas, um dos fundadores do IBGE. Para ele, o Brasil só alcançaria o desenvolvimento desejado se usasse plenamente os recursos naturais.

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Isso dependia de ocupar de fato o território, o que seria essencial para fortalecer o país. Quem explica essa história é Raul Amaro de Oliveira Lanari, historiador formado, mestre e doutor pela UFMG e professor da Faculdade de História da UFG. Ele pesquisou o projeto de Teixeira de Freitas e apresentou os resultados em sua tese de doutorado em 2016.

“Ele, desde cedo na sua trajetória, já tinha um projeto muito articulado. Ele chamava o projeto de reorganização nacional, que tinha uma série de elementos, como, por exemplo, a ocupação do interior do Brasil e dentro desse processo de ocupação do interior do Brasil, ele também defendia a transferência da capital para o interior brasileiro,” conta o historiador. “Então, ele propôs inicialmente a transferência da capital para Belo Horizonte sob o argumento de que se tratava de uma cidade ao mesmo tempo nova e já construída.”

Segundo Lanari, a partir do momento em que a capital no Brasil central fosse construída, a administração federal seria novamente transferida de Belo Horizonte para Brasília. A região de Belo Horizonte, mais especificamente a região do quadrilátero ferrífero, seria federalizada, sendo uma espécie de distrito federal industrial.

Teixeira de Freitas formulou a proposta inspirado no Plano Segadas Viana, que defendia dividir os antigos estados em unidades menores, de cerca de 250.000 km quadrados, para equilibrar melhor a distribuição de recursos. Ele acreditava que a racionalidade técnica, sobretudo a estatística, seria capaz de corrigir os problemas nacionais, por não estar sujeita às disputas políticas.

BH CAPITAL NACIONAL

Não existe e se na história, mas no aniversário de 128 anos de Belo Horizonte, podemos imaginar como teria sido se a cidade de Minas tivesse se tornado a capital do Brasil.

Uma primeira hipótese com essa transferência proposta da capital para Belo Horizonte, é que a cidade deixaria de estar sobre a esfera do governo mineiro e passaria a estar sobre a esfera do governo federal. Em termos políticos, Belo Horizonte deixaria de representar o sentido de modernidade que representou para Minas e passaria a servir ao projeto modernizador brasileiro em nível federal, tendo pontos positivos e negativos.

Se por um lado a ingerência do governo federal seria maior, por outro lado isso poderia dinamizar a vida de Belo Horizonte fazendo dela uma capital ainda maior no contexto da década de 30. Para Lanari, entre os pontos positivos da vinda da capital para BH, estaria o desenvolvimento da economia local em função da transferência do aparato estatal, o que poderia adiantar os índices de crescimento populacional, estrangulando ainda mais os serviços públicos prestados.

Lanari conta que segundo os jornais da época, a possibilidade de Belo Horizonte virar capital federal não agradou aos mineiros. “Aqui em Minas Gerais, especialmente em Belo Horizonte, o projeto foi recebido com grande consternação. O pessoal não gostou nada disso, né? Então, quando as notícias sobre a possibilidade de transferência da capital para Belo Horizonte chegam, uma série de matérias foram publicadas nos jornais locais, argumentando que o projeto, ele queria se aproveitar do esforço mineiro da construção de uma capital nova, moderna, higiênica, civilizada e que a ação do Teixeira de Freitas iria tomar dos mineiros o resultado do esforço que eles fizeram ao longo de pelo menos três décadas.”

Houve quem evocasse a lembrança de Tiradentes.

“As matérias jornalísticas advogavam a necessidade dos mineiros se insurgirem contra a proposta. Se baseavam inclusive na figura do Tiradentes como promotor da justiça e tudo mais, como inspiração para que os mineiros não aceitassem essa proposta,” revela.

Aparentemente, a opinião dos mineiros quanto a proposta continua a mesma quase um século depois: “Para ser sincero, eu não ia gostar muito se Belo Horizonte fosse a capital do país não, sabe? Trazer muita atenção política para cá, muitos olhos para a cidade. Eu acho que Belo Horizonte, apesar de ela ter uma importância e uma relevância bem grande no Brasil, de vez em quando é bom passar um pouquinho despercebida, a gente ter um pouquinho de liberdade para continuar sendo um lugarzinho mais sossegado, uma cidade grande que ainda tem um que vizinho de interior de vez em quando, para a gente ter continuar tendo paz nessa cidade que eu amo morar. Amo o jeitinho que ela é e não mudaria por nada,” diz o publicitário André Leonel.

A jornalista Mariana Rodrigues segue a mesma linha: “Eu não gostaria que Belo Horizonte fosse a capital do Brasil. Porque eu acho que isso implica em uma série de características que acabam se atribuindo a essa cidade que só faz sentido se você trabalha no governo ou se você usufruir daquilo de alguma forma. E costumam ser cidades mais caras, né? Onde o custo de vida é mais alto. Eu prefiro que BH fique ali, né? Mais pacata mesmo, mais na dela, do nosso jeitinho mineiro de ser. Não precisa trazer o congresso para cá não. Estamos bem sem ele.”

Há, porém, quem não ache a ideia de tudo ruim. A também jornalista Letícia Finamore acredita que se a capital tivesse sido transferida para BH, ela não teria saído daqui. “O povo ia gostar tanto da nossa hospitalidade, do nosso carisma, que eles iam deixar a capital por aqui mesmo,” comenta.

Mesmo não sendo capital federal, Belo Horizonte tem um lugarzinho especial guardado no coração de todo brasileiro e segue de braços abertos para receber a todos para um cafezinho com pão de queijo.