
Rafael Menin, um dos acionistas da SAF do Galo
Pedro Souza / Atlético
O Atlético Mineiro, sob a gestão da SAF, enfrenta uma delicada situação financeira, com dívidas que alcançam a marca dos R$ 2,3 bilhões, de acordo com o economista César Grafietti, sócio da consultoria Convocados. Em entrevista à BandNews FM BH, Grafietti detalhou os números e os caminhos para o futuro do clube, comparando-o a outras SAFs no cenário nacional;
A Realidade da Dívida Atleticana: César Grafietti esclarece que a cifra de R$ 2,3 bilhões é a mais precisa, pois considera todas as dívidas, incluindo as onerosas (com juros), as operacionais (como salários e adiantamentos), e principalmente os adiantamentos feitos para a Arena, que somam quase R$ 500 milhões. Há uma diferença nos números divulgados, onde alguns falam em R$ 1,4 bilhão ou R$ 1,8 bilhão, mas essas metodologias deduzem valores a receber de vendas de jogadores ou não consideram os adiantamentos, o que, para Grafietti, não reflete a real necessidade de caixa do clube.
Dívida Onerosa e de Curto Prazo: A maior preocupação reside nas dívidas onerosas, que são aquelas contraídas com instituições financeiras ou pessoas físicas e que incidem juros elevados, chegando a quase 15% no Brasil. Grande parte dessas dívidas possui aval dos acionistas, adicionando uma dificuldade extra. Além disso, há uma alta concentração de dívida de curto prazo, com vencimento em até 12 meses, incluindo contratos de aquisição de jogadores, o que pressiona o caixa do clube no dia a dia.
Aumento da Dívida Apesar da Receita Recorde: Mesmo com receita recorde na temporada passada, a dívida do Atlético aumentou em cerca de R$ 140 milhões em diversas linhas. Isso se deve, em parte, a juros não pagos que foram renovados, crescimento de dívida com clubes e salários atrasados. Adicionalmente, o clube consumiu um caixa de R$ 200 milhões em 2024 (fruto de aportes feitos em 2023) para cobrir "buracos" operacionais, ou seja, todo o aporte anterior foi gasto para cobrir despesas e juros. Desde 2023, as dívidas da Arena MRV também foram consolidadas nos balanços, contribuindo para o aumento percebido.
Inviabilidade Orgânica: Grafietti enfatiza que o Atlético, com uma receita anual de aproximadamente R$ 600 milhões, não consegue resolver sua dívida de forma orgânica, ou seja, apenas com o volume de receitas. Mesmo que destinasse R$ 200 milhões anuais para o pagamento, mal cobriria os custos financeiros.
O Único Caminho: Aportes Financeiros: Para Grafietti, o único caminho para o Atlético resolver o problema de sua dívida é através de aportes financeiros dos acionistas da SAF.
Valor Necessário: Para estancar a situação e reduzir significativamente a dívida onerosa, seria necessário um aporte estimado entre R$ 600 milhões e R$ 700 milhões. O economista sugere que, operacionalmente, o clube deveria gastar no máximo 80% de sua receita, deixando 20% para pagar dívidas e fazer investimentos.
Riscos da Inação: Caso os aportes não sejam feitos, a dívida continuará aumentando, gerando mais despesas financeiras e, em algum momento, o clube pode "parar", como quase aconteceu com o Cruzeiro antes da SAF.
Decisão dos Investidores: A decisão de aportar mais recursos depende de uma análise de negócio: se o investimento valorizará o ativo e trará retorno, ou se o clube já atingiu um ponto onde os aportes necessários são tão grandes que o retorno se tornará limitado. Embora haja "capacidade" e "entendimento" da necessidade, a "vontade" dos acionistas e o acordo entre eles (sobre diluição em caso de não aporte) são cruciais.
Risco de Dissolução: Existe a possibilidade de que o clube fique nas mãos apenas dos acionistas que optarem por fazer os aportes, dependendo do acordo entre eles. Em casos extremos, como visto em clubes europeus, a falta de aportes pode levar à falência ou à necessidade de vender o ativo por um valor ínfimo, abrindo caminho para uma reestruturação severa, como uma recuperação judicial.
Por Que o Atlético Não Adotou a Recuperação Judicial (RJ): Apesar de ser uma alternativa para outros clubes, como Cruzeiro e Vasco, a recuperação judicial é dificultada para o Atlético por três fatores principais:
1. Conflito de Interesse dos Banqueiros Acionistas: Sendo donos de um banco, pedir recuperação judicial em uma de suas empresas pode afetar a percepção do mercado sobre seus outros negócios.
2. Aval dos Acionistas: Boa parte das dívidas do Atlético tem aval dos acionistas, o que significa que, em caso de RJ, os credores poderiam executar esse aval e os acionistas teriam que pagar integralmente a dívida.
3. Dívidas da Arena: A estrutura de dívidas da Arena, com garantias bem estruturadas (como bilheteria e cadeiras), geralmente não entra na recuperação judicial, o que significa que o clube continuaria perdendo essas receitas e não resolveria uma parcela significativa do problema.
Grafietti pondera que a RJ no Brasil se tornou um "calote institucionalizado", pois os clubes em RJ não pagam dívidas por seis meses e buscam descontos de até 90%, o que gera uma distorção competitiva em relação aos clubes que tentam pagar suas contas em dia.
Comparação com Outras SAFs e Classificação de Risco: Grafietti utiliza um sistema de "rating" para classificar o risco financeiro dos clubes, que vai de Triple A (melhor) a E (pior). O Atlético recebeu uma classificação D, indicando um alto risco de não conseguir pagar suas contas.
Fatores do Rating D: Esta classificação se deve a um aspecto operacional com pouco resultado (custos muito próximos das receitas, sendo as vendas de atletas cruciais para equilibrar as contas) e uma dívida muito grande em relação às receitas.
Cenário das SAFs: Embora seja cedo (apenas três anos de operação para a maioria), Grafietti avalia que a maior parte das SAFs ainda está "patinando".
Cruzeiro: A fase atual do Cruzeiro, sob Pedro Lourenço, é "mais gastona" e "menos responsável financeiramente" do que a primeira fase de Ronaldo, que, embora não tenha injetado muito dinheiro, operava dentro de suas possibilidades e era "melhor gestão".
Bahia (Grupo City): É a SAF que mais chama a atenção positivamente devido à grande capacidade financeira do Grupo City, que permite um projeto de reconstrução a longo prazo, com aportes significativos e a quitação de dívidas para começar "com a empresa limpa".
Red Bull Bragantino: Também é um caso de sucesso financeiro, sustentado pelo dinheiro do controlador.
Vasco e Botafogo: Enfrentam situações financeiras apertadas, com o Vasco em recuperação judicial.
Juros Altos: Grafietti critica a justificativa de que os juros altos foram uma surpresa. Ele afirma que "todo mundo sabia que aquela taxa de juro de 2% era irreal" e que o aumento era esperado, não sendo uma justificativa primária para as dificuldades das SAFs.
Gestão e Eficiência: Além dos aportes, Grafietti defende a importância da eficiência na gestão esportiva. Ele argumenta que apenas investir dinheiro não garante competitividade; é preciso gastar melhor o que se tem. Vender jogadores pode gerar caixa, mas com o risco de perda técnica e até rebaixamento, como alertado pelo acionista Rafael Menin. O caminho ideal, segundo o economista, é uma combinação de aportes financeiros, corte de custos e busca por eficiência na gestão.
A situação do Atlético é um alerta sobre a complexidade da transformação de clubes em SAFs no Brasil, onde a capacidade de investimento e a disciplina financeira são cruciais para a sustentabilidade a longo prazo.
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