Band Jornalismo

80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025

Segundo dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil continua sendo o país com mais assassina pessoas trans no mundo

Da redação
DA REDAÇÃO

26/01/2026 • 08:14 • Atualizado em 26/01/2026 • 08:14

Mortes de pessoas trans

Mortes de pessoas trans

Tomaz Silva/Agência Brasil

Pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025, segundo dossiê divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) nesta segunda-feira (26).

Compartilhar

Segundo o levantamento, no comparativo entre os anos de 2023, foi percebida uma queda consecutiva, desta vez em 34% no número de assassinatos contra pessoas trans, de 122 para 80 casos em 2025, e de 145 em 2023 para 122 em 2024 – a maior queda observada na série histórica.

Conforme a associação, a combinação entre o avanço da agenda antitrans e a ausência de respostas efetivas do Estado resultou, em 2025, na manutenção do Brasil como o país que mais assassina pessoas trans no mundo desde 2008, pelo 18º ano consecutivo.

“Diante desse cenário reiterado e amplamente documentado, a inação do Estado brasileiro torna-se insustentável e vergonhosa perante a comunidade internacional. Manter-se, por quase duas décadas consecutivas, no topo do ranking global de assassinatos de pessoas trans não é uma fatalidade, mas o resultado direto da ausência de políticas estruturais, da negligência deliberada e da incapacidade de enfrentar a transfobia como problema central de direitos humanos, segurança pública e saúde coletiva”, diz trecho do dossiê.

“O Brasil deveria se envergonhar desse lugar e reconhecer que cada novo relatório que reafirma essa posição representa uma falha institucional contínua”.

Perfil das vítimas

Ainda conforme o levantamento, o perfil das vítimas é majoritariamente de jovens trans negras, empobrecidas, nordestinas e assassinadas em espaços públicos.

A faixa etária dos 18 aos 29 anos concentra o maior volume de casos, com 31 assassinatos (54% do total), o que representa uma realidade alarmante em que quase metade das vítimas não chega a completar três décadas de vida.

Somado o registro de uma vítima adolescente de 16 anos, “os dados confirmam a tendência histórica de genocídio da juventude trans, em que a exposição precoce à marginalização e a falta de redes de proteção familiar, social e estatais encurtam drasticamente a trajetória de vida dessa população”.

Assassinatos por estado

No topo do ranking, Ceará (CE) e Minas Gerais (MG) lideram com o maior número de ocorrências, registrando 8 casos cada. Eles são seguidos de perto por Bahia (BA) e Pernambuco (PE), ambos com 7 mortes.

Na faixa intermediária, os estados de Goiás (GO), Maranhão (MA) e Pará (PA) apresentam 5 registros cada, enquanto Paraíba (PB), Paraná (PR), Rio Grande do Norte (RN) e São Paulo (SP) contabilizam 4 ocorrências cada um.

Com números menores, aparecem Mato Grosso (MT) e Rio de Janeiro (RJ) com 3 casos cada, seguidos por Alagoas (AL), Distrito Federal (DF), Espírito Santo (ES) e Mato Grosso do Sul (MS), todos com 2 registros.

Os estados do Amazonas (AM), Amapá (AP), Rio Grande do Sul (RS), Santa Catarina (SC) e Sergipe (SE) registraram 1 morte cada.

Por fim, o dossiê aponta cinco estados em que não foram encontrados registros no período: Acre (AC), Piauí (PI), Rondônia (RO), Roraima (RR) e Tocantins (TO), todos com zero casos.

“A ‘ausência’ de casos em estados como Acre, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins deve ser interpretada com cautela em um cenário de precariedade de dados e/ou de políticas públicas. O ‘zero’ estatístico não quer dizer que o estado seja seguro ou que assassinatos não ocorreram, mas é um reflexo do silenciamento, invisibilização e da exclusão social extrema. Esse fenômeno cria um contraste nítido com estados como o Ceará (8 casos) ou Minas Gerais (8 casos), onde a existência de dados, embora trágica, indica ao menos um sistema minimamente capaz de identificar e dar visibilidade à violência que vitima essa população”, aponta o dossiê.

Tentativa de homicídio

Em 2025, foram registrados pelo menos 75 tentativas de homicídio, aumento de 32% em relação a 2024, quando a associação registrou 57 casos. Em 2023 foram 69 tentativas de assassinato; em 2022 foram 84 casos; em 2021 sobreviveram 79 vítimas; no ano de 2020 haviam sido 77 tentativas; 50 em 2019; 72 em 2018; e 58 em 2017.

Dados entre 2017 e 2025

Entre 2017 e 2025, período em que a Antra passou a sistematizar esses dados de forma contínua, foram mapeados 1.261 assassinatos de travestis, mulheres transexuais, homens trans, pessoas trans masculinas e não binárias no Brasil.

Nesse intervalo, registraram-se 181 casos em 2017, 163 em 2018, 124 em 2019, 175 em 2020, 140 em 2021, 131 em 2022, 145 em 2023, 122 em 2024, e 2025 com 80 casos, resultando em uma média de 140 assassinatos por ano.