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“A guerra acabou” em Gaza, mas a paz não começou

Cerca de 70 mil palestinos e quase 4 mil israelenses mortos depois, a situação dos palestinos continua igual, apesar do reconhecimento da Palestina por mais de 140 países

Por Redação
REDAÇÃO

13/10/2025 • 17:28 • Atualizado em 13/10/2025 • 17:28

Moises Rabinovici
Gaza

Gaza

REUTERS/Mohammed Fayq Abu Mostafa

“A guerra acabou”, disse Donald Trump. Mas a paz não começou. Para o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, um cessar-fogo está em vigor e a troca de reféns por prisioneiros palestinos foi concluída. Entre o fim da guerra e um cessar-fogo, a diferença é enorme.

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O Hamas invadiu Israel em 2023 para impedir que a Arábia Saudita embarcasse numa iniciativa de paz do ex-presidente Joe Biden que o deixava de fora, favorecendo a rival Autoridade Palestina. Cerca de 70 mil palestinos e quase 4 mil israelenses mortos depois, a situação dos palestinos continua igual, apesar do reconhecimento da Palestina por mais de 140 países.

O passeio da limusine de Trump por Jerusalém, ostentando a bandeira americana, reconhece como israelense a cidade que os palestinos sonham por capital, Al Kuds, ou A Santa. A presença de mais de 500 mil colonos judeus na Cisjordânia impede a criação de um estado palestino em território contínuo. O atual governo de Israel não aceita a solução de dois estados nem se mostra disposto a negociar os territórios conquistados na Guerra dos Seis Dias, em 1967, aos quais chama pelos nomes bíblicos de Judeia e Samaria.

Os problemas da criação de Israel, em 1947, não desaparecem com a troca de reféns por prisioneiros palestinos. Depois de cinco guerras eles continuam insolúveis, e têm o potencial de provocar mais conflitos. Mesmo o cessar-fogo corre perigo.

Os combatentes do Hamas estão ocupando o vazio da primeira retirada das tropas israelenses. Alguns, à paisana, outros uniformizados; uns policiando; outros caçando milicianos de pelo menos três grupos que surgiram recentemente.

A Cúpula da Paz em Sharm el-Sheikh teve uma notável ausência entre os 35 líderes presentes: o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Convidado em cima da hora pelo presidente egípcio, a pedido de Trump, se ele comparecesse o presidente turco Recep Tayyip Erdogan se retiraria. E ele é uma peça-chave num futuro acordo de paz. Haveria ainda um embaraço extra, diante do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, presente, mas posto fora do plano de 20 pontos que serviu de fundamento para o cessar-fogo em vigor. Israel não o quer no futuro de Gaza.

Os problemas que ficaram para ser resolvidos agora são perigosos para a paz. Como Gaza será governada? Quando Israel, que ainda ocupa 53% do território, vai se retirar totalmente de Gaza? A próxima retirada está condicionada ao desarmamento do Hamas, que quer manter-se armado. O ex-premiê britânico Tony Blair já foi defenestrado do papel de liderança que lhe propunha Trump, por seu passado na guerra contra o Iraque. Vários aliados árabes não o esqueceram. E ele já era apelidado de Tony da Arábia.

O futuro mais amplo, o que mobilizou os países do G7 recentemente, a solução de dois estados, com o reconhecimento da Palestina, não entra claramente no plano de 20 pontos gestado por Trump e oito países árabes. O dia histórico da libertação dos reféns e prisioneiros palestinos logo passará à História, com novos e urgentes desafios. Por quanto tempo o momento de paz, esperança e solidariedade será mantido?

Israel tinha no Líbano uma milícia cristã que servia como um alerta precoce aos problemas que poderiam chegar à sua fronteira. Em Gaza, duas das três milícias em ação, uma em Rafah, chefiada por Yasser Abu Shabab, e outra em Khan Yunis, de Hussam al-Astal, teriam sido armadas por Israel para confrontar o Hamas. Há uma terceira milícia, em Jabaliya e Beit Lahiya, que é comandada por um residente de Gaza, Ashraf al-Mansi.

“Que a guerra em Gaza seja a última do Oriente Médio”, pediu o presidente egípcio Abdel Fattah El-Sissi a mais de 35 líderes mundiais, em Sharm El-Sheikh. Na paz entre Israel e o Egito, o então primeiro-ministro Menachem Beguin repetia: “Não mais guerras, não mais banho de sangue”. Ganhou o prêmio Nobel da Paz com o presidente egípcio Anuar Sadat. E a guerra continua.

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