
Gaza
REUTERS/Mohammed Fayq Abu Mostafa
Pode ser uma miragem no deserto do Sinai, no oásis de Sharm el-Sheikh: as negociações de cessar-fogo na guerra de Gaza estariam progredindo tão bem que o presidente egípcio convidou o presidente Donald Trump para a cerimônia de assinatura do primeiro acordo, talvez neste fim de semana.
Para o chanceler turco Hakan Fidan, um cessar-fogo pode ser anunciado ainda nesta quarta-feira. Ele explicou tanto otimismo: “As partes demonstraram grande vontade para trocar os reféns por prisioneiros”. Mas seu chefe, o presidente Recep Tayyip Erdogan, lembrou hoje que “a paz não é um passarinho de uma asa só”.
Um “alto funcionário” israelense soprou ao correspondente Barak Ravid, a quem o presidente Trump tem telefonado para revelar “furos de reportagem”, que “há progresso; sentimos um otimismo cauteloso”.
O que reforça a miragem de acordo foi a chegada a Sharm el-Sheikh de dois enviados especiais da Casa Branca que só viajariam se fosse para concluir as negociações, ou ajudar na sua conclusão, e que só deverão sair do deserto do Sinai com um acordo assinado: o negociador Steve Witkoff e Jared Kushner, o genro de Trump.
Israel mandou o ministro de Assuntos Estratégicos, Ron Dermer, confidente de Netanyahu. Delegações da Jihad Islâmica e do Front Popular para a Libertação da Palestina (PFLP) também chegaram. Todos os países envolvidos mandaram seus espiões-chefes.
Mas há alguns sérios problemas que já desmentiram os otimistas em outras negociações. Entre os 1.950 prisioneiros palestinos que o Hamas quer libertados, estão três líderes que Israel pretende manter em suas prisões perpétuas: Marwan Barghouti, preso há 23 anos, é o preferido por palestinos para se tornar um líder carismático como Yasser Arafat; Ahmad Saadat, o secretário-geral do Popular Front para a Libertação da Palestina (PFLP), que planejou o assassinato de um ministro israelense; e Abbas al-Sayed, condenado a 46 prisões perpétuas por 46 assassinatos.
Mesmo em Washington, com as árvores amarelecendo pelo outono, a miragem é vista desde o Salão Oval. O presidente Trump tem dito que um acordo está “ao alcance das mãos”, com o Hamas “aberto para negociações” e israelenses perseguindo a liberdade para seus 48 reféns, 20 dos quais vivos.
Um outro problema tem a ver com a retirada militar de Israel de Gaza. O Hamas tem sustentado que só liberta o último dos reféns quando as tropas israelenses voltarem à sua fronteira. Mas nos mapas que acompanharam o Plano de 20 Pontos de Trump há uma linha amarela formando uma zona tampão para Israel, de Norte a Sul.
Por fim, o Hamas declara que só vai baixar armas, e as entregar, à uma futura administração formada por palestinos tecnocratas sem filiação ao Hamas ou à Autoridade Palestina.
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