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A volta do vinil: apaixonados falam da paixão, influência e futuro dos discos

Segundo seus amantes, os discos de vinil proporcionam uma experiência única, com um poder maior de apreciação que as playlists automáticas não entregam

BEATRIZ FAILLA

28/02/2025 • 12:00 • Atualizado em 28/02/2025 • 12:00

Consumo dos discos de vinil cresce entre os mais jovens

Consumo dos discos de vinil cresce entre os mais jovens

Beatriz Failla/Band

Há quem diga que o vinil não voltou, ele sempre esteve ali. Às vezes apenas na estante como parte de uma coleção importante. Mas a volta do retrô aumentou a sua popularidade nos últimos anos, especialmente entre os jovens, e impactou o mercado musical.

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Thais Rodrigues, analista de marketing, teve a sua paixão por discos de vinil passada entre gerações na família. Ela descreve que seus pais sempre “rechearam a casa com muita música” e a sensação de ouvir um LP é como estar mais próximo do cantor. “Toda vez que eu coloco um vinil dentro de casa para tocar, é como se eu tivesse sentada no estúdio e ouvindo a pessoa cantar para mim”, ressaltou.

Caio de Mendonça, UX Researcher, tem um perfil no TikTok para falar sobre discos de vinil, e começou sua coleção em 2021, com a vontade de ter uma parte do artista dentro de casa. Buscando ter coisas “reais” e que fossem palpáveis.

“A gente acaba buscando ter coisas reais de fato, eu vejo isso na música com discos de vinil. É sobre ter conexão com a obra de um artista que você admira o trabalho, você vê aquilo na sua frente e consegue tocar nele sem necessariamente apertar um botão”, declarou Caio.

Coleção de discos de vinil do Caio de Mendonça. Foto: Arquivo pessoal

Coleção de discos de vinil do Caio de Mendonça. Foto: Arquivo pessoal

Segundo seus amantes, os discos de vinil proporcionam uma experiência única, com um poder maior de apreciação que as playlists automáticas não entregam. Mas mesmo os apaixonados nos LPs concordam que os aplicativos de música facilitam a vida por serem utilizados em qualquer lugar. Será sempre “um dueto de opostos”.

Vinil x Aplicativo de Música

A indústria musical foi migrando conforme os anos passaram. Do vinil até chegar aos aplicativos de música, ouvimos as fitas com as famosas “mixtapes”, depois passamos pelos CDs e chegamos nos MP3/MP4 tão populares na primeira década de 2000. Hoje vivemos na época dos streamings, marcada pela saturação de conteúdo, sendo musicais ou não. E já estamos evoluindo com a entrada da inteligência artificial na questão, colocando outro contexto ao universo musical.

Antes a forma de consumir música estava atrelada a uma experiência única, com aparelhos exclusivos. Enquanto os streamings podem ter propagandas e a influência do algoritmo no consumo, além de estar em um aparelho com “hiperinformação”, que divide com mais facilidade a atenção do ouvinte.

Essa diferença dos discos apontada por quem ama colocar ouvir o “bolachão” em casa, a meia luz e apreciando um vinho, contribuiu para que ele sobrevivesse mesmo com tamanha tecnologia. Afinal ele oferece algo que o digital não alcança: experiência tangível, ritual e conexão emocional, como defende o consultor de planejamento estratégico Cassio Gringberg.

“A praticidade do streaming é inegável, mas ao mesmo tempo ela acabou tornando o consumo de música mais impessoal. O vinil, por outro lado, exige tempo, atenção e presença – e isso tem um valor enorme no cenário atual”, destacou.

Pedro Neves, editor de vídeos, descreve que ao ouvir um LP consegue se sentir imerso e prestar atenção em detalhes que o fone de ouvido esconde. “Às vezes eu já ouvi um álbum várias vezes no fone de ouvido, e quando eu paro para ouvir ele no disco de vinil, eu fico, caramba, eu nunca tinha prestado atenção nessa produção, neste instrumento, nesse vocal escondido aqui atrás”, contou.

Coleção de discos de vinil do Pedro Neves. Foto: Arquivo pessoal

Coleção de discos de vinil do Pedro Neves. Foto: Arquivo pessoal

Já quando se trata da diferença da qualidade entre ouvir música no celular ou no disco, os especialistas defendem que caso seja um aparelho e discos apropriados, a disputa pode ser equivalente.

“A diferença primordial é que o vinil ele tem muita fidelidade, tem uma qualidade excelente, mas não é perfeita como o digital. O digital é a qualidade mais alta que existe em termos de fidelidade”, defendeu Bernardo Liz, dono da loja de discos de vinil Outrahora Store.

“Porém o digital pode acabar soando um pouco frio, especialmente quando muitas coisas são feitas com os mesmos plugins e os mesmos equipamentos. Além da produção atual ser muito massificada”, contrapõe o empresário.

Em conjunto com isso, Bernardo ainda explica que algumas frequências extremas de graves ou agudos não cabem no vinil, fazendo com que o som possa variar a depender do processo de masterização.

Ainda assim, para se ouvir o som em alta qualidade no vinil se faz necessário um toca-discos e LPs que sejam adequados. A depender do aparelho e dos discos, o som pode ser prejudicado.

A moda acaba e os discos de vinil?

Artistas aclamados pela geração Z têm lançado discos de vinil. Taylor Swift lidera o mercado, tendo batido o seu próprio recorde com a venda de 700 mil cópias em apenas um dia, segundo a Billboard.

O crescimento da indústria fonográfica brasileira, em 2023, foi puxado pelos discos de vinil, com um aumento de 136% nas vendas, segundo o relatório divulgado pela Pró-Música Brasil. Já no primeiro semestre de 2024, o aumento foi de 21% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Mas lançar um álbum de vinil não é só uma questão de formato, mas de posicionamento. Ele se tornou uma ferramenta de engajamento, de criar conexão mais profunda com os fãs e gerar receita de maneira mais previsível.

“Mais do que dinheiro, o vinil entrega posicionamento. Quando uma Beyoncé ou Billie Eilish lança um LP, elas não estão só vendendo música – estão criando um item que reforça a conexão com o público e que se torna memorável”.

“Os discos de vinil voltaram porque há uma leitura inteligente do mercado e da cultura do consumo e seu sucesso para além da nostalgia, está atrelado também ao posicionamento de mercado”, explica Cássio.

Loja de discos de vinil na Rua Augusta, em São Paulo. Foto: Beatriz Failla/Band

Loja de discos de vinil na Rua Augusta, em São Paulo. Foto: Beatriz Failla/Band

Quando questionado sobre o motivo de acreditar no retorno do “boom” dos discos de vinil, Marcelo Giacumo, dono de quatro lojas em São Paulo, respondeu que o consumo está atrelado ao “modismo”. O empresário acredita que a geração Z só passou a consumir discos de vinil nos últimos anos por causa da influência da internet. E estima que por isso, o crescimento do consumo dos discos do vinil está próximo do fim.

Ainda mais em um cenário em que ao invés de comprarem aparelhos certos, estão investindo em “maletas de crianças”, o que impacta na durabilidade dos toca-discos e LPs. Giacumo complementa dizendo que isso fez com que o brasileiro saísse do CD para um “downgrade” do vinil.

Em uma época em que a vida está acelerada, com áudios e vídeos sendo escutados em uma velocidade acima da velocidade normal e a sensação de estar sempre correndo e atrasado para algo faz com que ouvir discos de vinil se transforme em uma forma de “respiro”.

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