Você acredita que eu já li hoje que o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que acabou de ser destravado, que está prontinho para assinar, não vai ser a salvação da lavoura para o Brasil?
Como tem espírito de porco! Nada num país com PIB de mais de 2 trilhões de dólares, com mais de 200 milhões de habitantes, é 'a' salvação da lavoura. Volta no tempo. A gente tinha o regime militar, ele acabou. A gente festejou a volta da democracia. Tremenda conquista! Mas isso resolveu todos os nossos problemas? Claro que não. Abre o noticiário político. Olha quanta coisa tem para consertar.
Destaque econômico, por exemplo. Hiperinflação. Era um horror. Os preços subindo todo dia. Apareceu o Plano Real. Resolveu o problema depois de várias tentativas que não tinham dado certo. A gente matou um leão ali. Mas e os outros leões que apareceram no lugar? Câmbio desvalorizado, taxa de juros super alta... tá aí. Hiperendividamento público... também tá aí.
No campo externo, o Brasil tem um problema sério. É um país fechado. Um dos países mais fechados do mundo. Dá para medir isso de várias formas: presença do país no comércio global... baixa. Participação do comércio exterior no PIB brasileiro... baixa. Número de acordos comerciais fechados com outros países... baixo.
O acordo do Mercosul com a União Europeia não vai fazer o Brasil fechado virar o Brasil aberto. Mas é um tremendo de um empurrão e na direção certa. Empurrão rumo a um continente que pode comprar mais produtos brasileiros e de onde a gente pode também comprar mais produtos. E o Brasil, gente, é o país mais favorecido pelo acordo, até pelo tamanhão que tem. 80% das exportações do Mercosul para a Europa saem daqui. 76% das importações de produtos europeus vêm para cá.
A União Europeia é o nosso segundo maior parceiro comercial, atrás apenas da China. Pode crescer. E o acordo abre oportunidade do Brasil reduzir a dependência asiática, o que é ótimo. Isso num momento em que os Estados Unidos, que no discurso pregam abertura econômica, sentam a borduna com tarifa para tudo que é canto.
Além de uma perspectiva de crescimento nas exportações, que é preciso destacar, esse acordo acalma a relação entre os continentes. Hoje em dia, toda hora o Brasil toma um susto por alguma restrição que é imposta pela Europa. Com o acordo isso acaba, porque as restrições precisam ser negociadas.
Para alguns setores que estão preparados para enfrentar o mercado externo, esse acordo é excelente, de pronto uso. Como o setor da carne, celulose... Outros setores menos competitivos: têxtil, uma parte da indústria de máquinas ou automóvel, aí para esses o acordo prevê um tempo de adaptação.
Num país em que os governantes dão para a sociedade mais notícia ruim do que notícia boa, esse acordo, que é fruto da ação de vários governos, desde a gestão de Fernando Henrique Cardoso, é, sim, uma ótima notícia.
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