
Donald Trump e Benjamin Netanyahu
REUTERS/Jonathan Ernst
Como nos faroestes, a tropa surge para socorrer os caras-pálidas cercados pelos pele-vermelhas. É o que sugere o presidente Trump em um ultimato ao Irã: “Os EUA estão prontos para agir” se a repressão iraniana matar manifestantes pacíficos, entre os quais sete já morreram em seis dias. Israel também bateu seus tambores de guerra, mas se revidar a alguma provocação poderá unir os iranianos contra “o inimigo externo”, ou “a conspiração sionista”
O jornal Tehran Times reagiu: “Uma publicação provocativa nas redes sociais do presidente dos EUA, Donald Trump, desencadeou uma onda de reações em todo o establishment político e no panorama das redes sociais do Irã, reavivando memórias de longa data do intervencionismo americano e expondo o que as autoridades iranianas descrevem como a profunda hipocrisia incorporada na retórica de Washington sobre os direitos humanos.”
A fronteira entre solidariedade ao povo iraniano e a sabotagem ao regime do Irã é quase invisível. O corneteiro anunciando o socorro dos caras-pálidas provocou sinais de fumaça na República Islâmica: “Trump deveria saber que a intervenção dos EUA em problemas internos corresponde ao caos em toda a região e à destruição dos interesses americanos”, escreveu Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, na plataforma X, bloqueada no Irã. “O povo americano deveria saber que Trump iniciou o aventureirismo. Eles deveriam cuidar de seus próprios soldados.”
O trauma iraniano da “intervenção estrangeira” nasceu com o golpe, apoiado pela CIA, que derrubou, em 1953, o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, substituído pelo Xá Mohammad Reza Pahlavi. Seguiram-se os protestos estudantis, em 1999-2000. O Movimento Verde, em 2009-2010. Manifestações nacionais contra a situação econômica em 2017-2018. A revolta pelo preço do combustível, em novembro de 2019. Protestos pela escassez de água e pão, em 2021. E a maior de todas as crises, “Mulher, Vida e Liberdade”, em 2022-2023, depois da morte de curda-iraniana Mahsa Amini, presa pela delegacia de costumes por usar incorretamente o jihab, o véu sobre o cabelo.
Durante o “Movimento Verde”, que contestou o resultado da eleição presidencial em 2009, o então presidente Barack Obama foi extremamente cauteloso, evitando o rótulo de “inimigo externo”, para preservar a diplomacia nuclear. Na verdade, ele ajudou a consolidar o regime sem impedir a repressão.
Em seu primeiro mandato, Donald Trump apoiou abertamente os manifestantes iranianos, em 2017 e 2019. Mas ele não fala mais, explicitamente, em “mudança de regime”, focado no colapso econômico, que desvalorizou o Rial, a moeda local valendo hoje 1.450 milhão riais por 1 dólar, a causa dos protestos atuais. O ex-presidente Joe Biden equilibrou sanções contra unidades militares de repressão e o fornecimento de internet sem censura aos manifestantes, via Starlink.
Uma analogia: os EUA tentam ajudar a oposição iraniana a abrir uma porta trancada por dentro. E não pode derrubar a porta. Uma metáfora: a ebulição social está dentro de uma panela de pressão. Quando ela atinge o ponto de explodir, o governo iraniano usa a técnica de “ventilação”, abrindo a válvula que controla a pressão. O que se diz é que a panela já está rachada.
Falta à oposição iraniana o que os palestinos tiveram e continuam tendo: apoio público mundial. O silêncio internacional beneficia o regime iraniano. Nesses últimos seis dias de tumultos em Teerã e em várias outras cidades importantes do Irã, só o Wall Street Journal deu foto e manchete em sua capa da segunda-feira passada com a rebelião no Irã. Parece que o mundo não está observando. E a repressão, como o Rial, se desvalorizou, sem custo político.
Em compensação, o silêncio de figuras como o premiê Benjamin Netanyahu é bem-vindo, porque ele é considerado “radiativo”, embora a rádio israelense em persa transmita apoio e incentivo aos manifestantes em tempo integral, perguntando: “O que quer o povo iraniano?”. Para Israel, a queda da República Islâmica significa, provavelmente, o fim do Hezbollah, Hamas, Houthis e de militantes no Iraque e Síria – e também da ameaça nuclear e de mísseis balísticos.
O filho do Xá no exílio nos EUA, Mohammad Pahlavi, tem se introduzido nos protestos como um provável sucessor da ditadura islâmica, mas não tem a popularidade que ele se atribui. E a diáspora iraniana no mundo não parece acreditar na oportunidade para uma mudança de regime.
Aviões gigantes Antonov da Bielorrússia estão desembarcando armas de repressão no aeroporto de Teerã. O governo iraniano tenta obter reservas vendendo drones e mísseis em cripto moedas, para escapar das sanções econômicas. A falta de água se tornou tão dramática quanto a inflação. “A vida ficou simplesmente impossível para os iranianos comuns e cada vez mais pessoas cometem suicídio porque não podem pagar o básico da vida”, disse o cientista independente iraniano Alireza Nader, do Grupo de Pesquisa Nader. Ele acrescentou: “A desvalorização da moeda e a escassez de água são alguns dos gatilhos imediatos para estes protestos... O colapso ambiental vira político. Quando o Estado não consegue garantir água, meios de subsistência ou estabilidade alimentar, perde a crédito”.
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