Band Jornalismo

Anvisa libera Embrapa para pesquisar cultivo de cannabis medicinal

Decisão busca reduzir dependência de insumos importados e baratear custo de medicamentos para pacientes com condições graves, como a Síndrome de Dravet

IGOR CALIAN

02/01/2026 • 21:54 • Atualizado em 02/01/2026 • 21:54

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu uma autorização excepcional para que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) realize estudos sobre o cultivo da planta cannabis no Brasil.

Compartilhar

A iniciativa tem como foco principal o uso medicinal e científico, visando o desenvolvimento de tecnologia nacional para a produção de matéria-prima. Atualmente, o país apresenta uma alta dependência de produtos importados, o que eleva consideravelmente o preço final dos tratamentos para o consumidor.

O objetivo central da pesquisa, segundo Clenio Pillon, Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, é garantir a soberania brasileira na produção e no processamento dessas matérias-primas. A nacionalização da produção é vista como o caminho fundamental para tornar os medicamentos derivados da cannabis mais acessíveis à população.

Hoje, o Brasil já conta com mais de 670 mil pacientes em tratamento com produtos à base da planta, mas os custos permanecem proibitivos para muitos; em casos de importação, uma única seringa de medicamento pode custar cerca de R$ 2.700 (500 dólares).

Eixos da pesquisa e impacto clínico

O projeto liderado pela Embrapa deve avançar em três frentes principais. A primeira consiste na caracterização do material genético da cannabis, permitindo produções com padrões específicos de qualidade. A segunda foca na fundamentação científica para oferecer subsídios técnicos seguros para a regulamentação do setor. Por fim, o estudo buscará o melhoramento do cânhamo, uma variedade da cannabis voltada para aplicações industriais em fibras e sementes.

O impacto desses estudos reflete-se diretamente na vida de famílias que dependem do insumo para controle de doenças crônicas. Um exemplo é o caso de pacientes com a Síndrome de Dravet, condição que provoca crises de epilepsia graves e automutilação. Relatos de familiares indicam que, após o início do tratamento com o extrato da planta, pacientes que chegavam a ter centenas de convulsões mensais conseguiram zerar as crises, alcançando autonomia para estudar e conviver socialmente.

Associações e o mercado nacional

Enquanto a pesquisa científica oficial avança, o suporte a muitos pacientes tem sido viabilizado por associações como a "Cultive". Criada por Cidinha e Fábio, pais de uma paciente, a entidade auxilia cerca de 150 famílias através da extração artesanal do remédio em estrutura própria. A expectativa do setor é que, com o envolvimento da Embrapa, o cenário de ilegalidade ou de custo excessivo seja superado.

Para Bruno Pegoraro, presidente do Instituto Ficus, a tendência com a produção nacional é o barateamento do custo de produção. Isso permitiria a expansão do mercado medicinal interno, integrando a cannabis de forma definitiva ao sistema de saúde brasileiro como uma opção terapêutica viável e de baixo custo.

Tópicos relacionados