
A Ucrânia vive um dos momentos mais críticos desde o início dos ataques sistemáticos da Rússia à sua infraestrutura elétrica . A intensificação dessa ofensiva provocou cortes emergenciais de energia na maior parte do país durante a semana, em meio a um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos, com temperaturas abaixo de -10°C.
Quase meio milhão de pessoas fugiram da capital ucraniana, Kiev. Quem permaneceu ficou sem aquecimento, eletricidade ou água potável por dias.
A situação piorou nesta sexta-feira (23/01), após mais uma série de ataques russos. O ministro da Energia, Denys Shmyhal, classificou o dia como o mais difícil desde o blecaute de novembro de 2022. Enquanto isso, autoridades dos Estados Unidos, Rússia e Ucrânia se reúnem em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, para negociações sobre a guerra.
Durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na quinta-feira (22/01), o presidente Volodimir Zelenski disse que a Rússia estava deliberadamente atacando a infraestrutura crítica da Ucrânia para "causar apagões" e afetar os civis. "Esta é a face da Rússia e, na verdade, esta é a face desta guerra", disse.
Diante do agravamento da crise, a União Europeia anunciou o envio de 447 geradores emergenciais, avaliados em 3,7 milhões de euros, destinados a hospitais, abrigos e serviços essenciais. Segundo autoridades europeias, o objetivo é impedir que a Rússia "congele a Ucrânia até a submissão".
A Polônia também intensificou seu apoio, enviando centenas de geradores de suas reservas nacionais, além de outros 90 doados pela cidade de Varsóvia para atender especialmente à região de Kiev.
Sistema elétrico fragilizado
Segundo o operador nacional Ukrenergo, a combinação de mísseis e drones danificou diversas instalações de geração, deixando grande parte da população do país sem aquecimento durante uma forte onda de frio.
O Ukrenergo afirma que as usinas estão operando no limite devido aos danos acumulados desde os primeiros ataques à rede. Com metade de sua capacidade de geração perdida e forte dependência de energia nuclear, o sistema elétrico do país segue extremamente vulnerável.
O diretor da maior empresa privada de energia do país, Maxim Timchenko, descreveu a situação como "próxima de uma catástrofe humanitária", defendendo que qualquer acordo de paz futuro deve incluir a interrupção dos ataques russos à infraestrutura energética. Entre reparos emergenciais, quedas de temperatura e ataques contínuos, o país tenta evitar um colapso ainda maior.
Apesar da gravidade, as autoridades energéticas dizem esperar que as reparações mais urgentes sejam concluídas "em um futuro próximo", o que permitiria ao menos um retorno ao regime de cortes programados, em vez de apagões totalmente imprevisíveis.
Negociações em Abu Dhabi
Nesta sexta, representantes da Ucrânia, Rússia e Estados Unidos iniciaram conversas trilaterais em Abu Dhabi, mediadas pelos Emirados Árabes Unidos. É a primeira vez que se tem notícia de que funcionários do governo Trump se reúnem simultaneamente com negociadores dos dois lados da guerra .
As negociações devem continuar nos próximos dois dias. De acordo com um comunicado à imprensa, os Emirados Árabes Unidos esperam que essas discussões "contribuam para medidas tangíveis para acabar com uma crise que persiste há quase quatro anos e resultou em imenso sofrimento humanitário”.
A delegação russa será chefiada pelo general Igor Kostyukov, diretor da agência de inteligência militar GRU da Rússia. A comitiva ucraniana será liderada pelo secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa e ex-ministro da Defesa, Rustem Umerov.
Zelenski afirmou que o futuro da região do Donbass será central nas discussões e reiterou sua abertura para criar uma zona de livre comércio sob controle ucraniano no leste — proposta já discutida com Donald Trump em Davos.Segundo o americano, as propostas de paz estão "quase prontas", embora a questão territorial siga sem definição.
O Kremlin, por sua vez, reforçou que não há acordo possível sem resolver o "problema territorial", exigindo que Kiev retire suas tropas das áreas que Moscou anexou ilegalmente, mas cuja ocupação permanece incompleta.
"As Forças Armadas ucranianas devem abandonar o território do Donbass; devem ser retiradas de lá. Esta é uma condição muito importante para o fim do conflito", afirmou o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, durante sua coletiva de imprensa telefônica diária.
A Alemanha mostrou ceticismo de que a Rússia esteja disposta a fazer concessões territoriais nas negociações de paz na Ucrânia.
"Ainda há grandes dúvidas sobre até que ponto a Rússia está realmente disposta a abandonar suas exigências maximalistas", disse o porta-voz do governo, Steffen Meyer, logo após Moscou deixar claro que ainda exige que Kiev se retire de Donbass.
sf (AFP, AP, RT, ots)
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