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Bob Marley 80 anos: como o “embromation” mantém o reggae vivo no Maranhão

Nesses 80 anos de Bob Marley, reportagem do Band.com.br explica as estratégias do ludovicense para popularizar o reggae no Maranhão, mesmo sem fluência em inglês

Édrian Santos
ÉDRIAN SANTOS

31/01/2025 • 18:33 • Atualizado em 31/01/2025 • 18:33

Bob Marley é homenageado em várias partes de São Luís

Bob Marley é homenageado em várias partes de São Luís

Foto: Jorrimar de Sousa

Há 80 anos, nascia aquele que se tornou a maior referência do reggae mundial, um ritmo genuinamente jamaicano, criado a partir da junção de sonoridades africanas e até do calypso. Trata-se de Bob Marley, um artista caribenho que se passaria, facilmente, por um ludovicense, gentílico da cidade brasileira que se tornou ponto de partida para a popularização das músicas dele e de tantas vozes regueiras país adentro.

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Reconhecida por lei como Capital Nacional do Reggae, a “Jamaica Brasileira”, São Luís, mantém viva a tradição do ritmo que ganhou o mundo na voz de Bob Marley. Lá, as “pedras”, “pedradas” e “pedras de responsa” que interessam os ludovicenses são, justamente, as que cruzaram o Caribe, a partir da década de 1970, via ondas de rádio e/ou Porto do Itaqui, segundo as duas principais teorias sobre a chegada do ritmo à capital do Maranhão.

O maranhense gosta de ouvir Bob Marley, Eric Donaldson, Gregory Isaacs, Donna Marie e tantos outros ícones do autêntico reggae jamaicano, amplificados, no Maranhão, pelas dezenas de radiolas que levam não só entretenimento, mas uma identificação da negritude brasileira com a do povo caribenho.

O recurso do “embromation”

Nem mesmo a diferença entre os idiomas conseguiu barrar a admiração da população de Upaon-Açu, a ilha onde está a capital maranhense, pelo ritmo da terceira maior ilha do Mar do Caribe. É que o ludovicense deu o “jeitinho brasileiro” dele de criar a própria “tradução” das músicas em inglês, uma estratégia que ajuda a manter viva a tradição do reggae roots há décadas, principalmente entre os mais pobres, devido à falta de acesso ao ensino de línguas.

A verdade é que o ludovicense também precisou usar o “embromation” para dar outro sentido às músicas, o que fez surgir os chamados “melôs”. Segundo a jornalista e pesquisadora Karla Freire, em publicação na Revista Internacional de Folkcomunicação, trechos em inglês de canções parecidos com o português ganharam uma adaptação fonética para a nossa língua.

“Como a maioria dos fãs do reggae de radiola, em São Luís, não entende as letras cantadas em inglês, foi preciso dar um novo sentido às músicas [...]. Na maioria das vezes, eles utilizam um trecho da música que se pareça com alguma palavra em português para criarem a identificação do som, através de uma adaptação fonética”, escreveu Freire no artigo A trajetória do reggae em São Luís: da identificação cultural à segmentação.

Caranguejo, cachaceiro, Cohab?

Como exemplo, o verso “White witch gonna get ya”, da música “White Witch”, virou “Olha o caranguejo”. Por causa disso, até hoje, o maranhense chama a canção de “Melô do Caranguejo”. Já “So Jah Jah Say”, de Keith Poppin, virou “Melô do Cachaceiro”, também consequência da adaptação fonética.

Mas a popularização do reggae, no Maranhão, não dependeu apenas dos “erros de tradução”. Isso porque, para memorizar as canções, muitos DJs homenageavam pessoas e bairros. A depender da música, até desafetos se tornaram títulos de “melôs”.

No Maranhão, população dança reggae “agarradinho”/Foto: Band Maranhão

No Maranhão, população dança reggae “agarradinho”/Foto: Band Maranhão

“Sweet Dreams”, de Judy Boucher, virou “Melô de Andressa”. O “Melô de Poliana” foi nomeado por um DJ de radiola para homenagear a mulher amada. A pedra oficial se chama “Think Twice”, de Donna Marie. Já o “Melô da Cohab”, originalmente conhecido como “Rainy Sunset”, de Tyrone Taylor, homenageia um bairro de classe média de São Luís.

São Luís também é Jamaica

Nesses 80 anos de Bob Marley, a cidade repleta de nomes, entre Athenas Brasileira, Cidade dos Azulejos e Ilha do Amor, mostra-se cada vez mais apaixonada pelo ritmo que transformou São Luís na Jamaica Brasileira. Afinal de contas, é lá que está o único museu do reggae fora da Jamaica.

“O reggae é parte da vida do maranhense. Nos influencia de todas as maneiras possíveis, ou seja, o reggae é um elemento cultural que ajuda a formar o jeito de ser do maranhense da atualidade”, declarou Ademar Danilo, diretor do Museu do Reggae de São Luís, em entrevista à Band Maranhão.