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Brasileiros ilegais nos EUA citam ‘pânico e desinformação’ com política migratória de Trump

Presidente assinou série de ordens para deportar pessoas sem documentos válidos e fechar fronteiras

Luiza Lemos
LUIZA LEMOS

20/02/2025 • 08:25 • Atualizado em 20/02/2025 • 08:25

Donald Trump

Donald Trump

REUTERS/Elizabeth Frantz

Desde que Donald Trump chegou ao poder há um mês, o presidente dos Estados Unidos assinou uma série de decretos que endureceram a política de imigração do país. Dentre elas, o aumento das deportações, o fechamento da fronteira com o México e suspensão da entrada de refugiados.

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A comunidade brasileira, uma das maiores no país, é um dos alvos das medidas do republicano. Atualmente, os Estados Unidos reúnem pouco mais de 2 milhões de imigrantes, segundo o Ministério das Relações Exteriores do país, sejam legais ou não. Com os decretos, brasileiros indocumentados, ou seja, com documentação irregular no país, relatam medo, pânico e desinformação.

Gilberto Vitoriano, que está no país desde 2021 e atualmente com visto de turista expirado, se assustou com as políticas migratórias, mas tenta se tranquilizar por viver de maneira correta na Flórida. “É assustador ver que agora o norte-americano não quer mais você, mas botei na minha mente que só vão atrás de pessoas com um problema com os Estados Unidos”, diz.

Vitoriano cita que pegou um número de identificação, como o CPF brasileiro, para poder pagar impostos e, assim, tentar fugir de uma deportação. “Quando você paga, não deve para a Justiça, faz as coisas direitinho, dentro da lei, acredito que a tranquilidade é maior”, sugere.

Apesar de indocumentado e morando em um estado republicano, que facilita a deportação de imigrantes, Vitoriano se sente despreocupado. “Todo mundo esperava que a Flórida perseguisse o pessoal, mas o governador Ron DeSantis já havia feito isso no ano passado. Agora a sensação é de tranquilidade”, avalia.

Victor Queiroz, que vive desde 2019 nos Estados Unidos, também está com o visto expirado. Para ele, os decretos de Trump geram pânico pela desinformação que paira no país. “Não dá para saber qual é a real, a sensação é de confusão, de falta de informação, que se transformam em pânico”, afirma.

Ele conta que antes, mesmo com um visto de turista, conseguia emprego tranquilamente. Atualmente, ele diz que os donos de empresa estão com medo de contratar imigrantes. “Eles têm medo de levar multas, de contar com um cara e no outro dia ele é deportado. Todos estão cautelosos. Era natural conseguir logo um emprego, agora pensam duas vezes antes de te contratar”, lamenta.

Tanto Victor quanto Gilberto estão na categoria de imigrantes que estão em ‘overstay’, quando a pessoa chegou ao país de forma legal e depois ficou fora de status ou não manteve o visto.

É o que explica o advogado Marcelo Gondim, especialista em direito migratório, que indica que pessoas assim podem regularizar a situação. “Pessoas assim podem se casar com cidadãos americanos ou terem filhos nos Estados Unidos, que ao completarem 21 anos, que assim recebem o perdão automático do país”, indica.

‘Brasileiros estão buscando se legalizar’

ICE é a agência que faz as deportações nos EUA | REUTERS/Kevin Mohatt

ICE é a agência que faz as deportações nos EUA | REUTERS/Kevin Mohatt

Com medo de deportações, muitos brasileiros com visto de estudante ou turista, que não permitem o trabalho remunerado nos Estados Unidos, procuram o escritório do advogado Marcelo Gondim para se regularizar no país. A equipe dele trabalha atualmente com mais de quase 5 mil pedidos de vistos.

“O pessoal agora busca uma forma de se legalizar, porque sabem que não vai ter alguma forma de defesa caso sejam pegos pelo ICE”, diz Marcelo, citando a Polícia de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, que ganhou destaque após aumentar as operações contra imigrantes ilegais no país.

Marcelo conta que muitos clientes têm medo de serem deportados ou pegos pela agência policial. “Até quem é residente tem esse medo. Quem mora em estados governados pelo partido Republicano estão com mais pânico ainda, porque o governo ajuda o ICE a prender, investigar e encontrar as pessoas”, relata.

O advogado cita que, uma vez deportada, é difícil reverter a situação migratória, devido a uma política que impede a revisão do que foi decidido por consulados. “Há uma doutrina aqui de ‘'impossibilidade de revisão de decisões consulares'. Houve um caso onde o consulado negou o visto ao salvadorenho Luis Cordero e a Suprema Corte confirmou a decisão, reforçando a doutrina e o separando da esposa, que era americana”, conta.

Para quem entrou ilegalmente, é possível se regularizar

Brasileiros que entraram pela fronteira do México ou por outros meios ilegais podem regularizar a situação migratória. O advogado Marcelo Gondim explica que, primeiro, é preciso pedir o perdão para os Estados Unidos para não ser expulso.

“É preciso pedir o perdão, voltar ao país de origem, fazer a entrevista e pedir a residência. Quem está fora do status de seis a 12 meses, ganham um castigo de três anos de banimento se não pedirem o perdão. Quem passa de 1 ano e sai voluntariamente, pega o castigo de 10 anos”, explica.

Pedir o perdão pode dar a residência nos Estados Unidos. Outro modelo de pedido, segundo Gondim, é pedir asilo, mas o Brasil não tem uma situação grave para este tipo de pedido. “O pedido de asilo mais famoso de brasileiros são de LGBTQIA+, já que é um país conhecido pela perseguição a pessoas da comunidade”, informa.

Real enfraquecido atrapalha pedidos de visto

Gondim conta que nos últimos meses, a maioria dos vistos estão sendo negados a brasileiros. “É preciso ter laços fortes com o Brasil, condição financeira sólida. Então é inviável uma pessoa com essa defasagem da moeda vir e não querer ficar”, relata.

Ele explica que pelo dólar estar a quase R$ 6, o consulado entende que é difícil para um turista sem laços fortes e situação financeira adequada apenas passear nos Estados Unidos, ou apenas estudar. “Há médicos, advogados, engenheiros e profissionais com visto negado porque acham que não há laços o suficiente com o Brasil”, conta.

Sonho americano fica mais distante para brasileiros

Victor Queiroz quer aproveitar que está irregular nos Estados Unidos para voltar de vez ao Brasil. Ele, que foi motivado pelas oportunidades que o país apresentava, se deparou com uma realidade bem diferente. “Queria conseguir trabalhar e mandar dólar ao Brasil, mas é difícil se deparar com um país tão sujo e desorganizado. Temos aquela impressão de primeiro mundo, mas é um choque de realidade”, conta.

Por isso e pela cultura de consumo dos Estados Unidos, Victor pretende voltar ao Brasil. “Somos desumanizados aqui por não ter coisas, não ter objetos. A cultura é consumista, então para ser alguém é preciso ter coisas. E isso acaba indo, em contrapartida, com o que a gente acredita, no Brasil é o contrário disso”, afirma.

Gilberto Vitoriano, por sua vez, não pensa em voltar para o Brasil, apesar das dificuldades nos Estados Unidos. “Eu já esperava um trabalho duro, braçal, mas tive oportunidades. O difícil foi entender a vida em dólar e as altas nos preços, a inflação descontrolada”, diz.

“Se eu voltar ao Brasil, vai ser apenas para visitar meus pais, que deixei no país. Se eu for deportado, iria buscar tudo o que tenho, minhas economias e iria para a Europa”, pontua.