
Brexit
REUTERS/Annegret Hilse
O dado mais emblemático da última década britânica não está nos relatórios do Banco da Inglaterra, mas nos registros do Google Trends. Horas após o resultado do referendo de 23 de junho de 2016, a segunda pergunta mais buscada pelos britânicos era, literalmente: “o que é a União Europeia?”.
Dez anos depois, o cenário de curiosidade no buscador mudou drasticamente. Hoje, as perguntas que dominam o tráfego digital são: “quanto o Brexit custou ao Reino Unido?” e “o Brexit foi um erro?”. As respostas, baseadas em fatos e dados de pesquisa, ajudam a explicar por que o sentimento de arrependimento nacional (o chamado "Bregret") agora é a visão majoritária.
O custo do "furo lento" na economia
A análise econômica de dez anos mostra que o impacto não foi um colapso súbito, como previam os mais pessimistas, mas o que especialistas chamam de "furo lento". Um estudo atualizado do National Bureau of Economic Research (NBER) aponta que o PIB per capita britânico é hoje entre 6% e 8% menor do que seria se o país tivesse permanecido no bloco.
A produtividade também sofreu um baque de 4%, segundo o Office for Budget Responsibility (OBR), refletindo o peso da nova burocracia comercial que substituiu o mercado comum.
Enquanto outras economias do G7 recuperaram sua abertura comercial após a pandemia, o Reino Unido viu suas exportações de bens caírem quase um terço, tornando-se um destino menos atraente para investimentos que migraram para vizinhos como França e Alemanha.
Fronteiras e a queda dos líderes
A imigração foi o grande motor da campanha de saída em 2016. No entanto, as buscas recentes por “o Brexit causou os pequenos barcos?” (small boats) revelam a frustração com o controle das fronteiras. Ironicamente, a imigração líquida atingiu o recorde histórico de 900 mil pessoas em 2023, com o país trocando a origem dos imigrantes da Europa pelo resto do mundo para suprir carências em setores como saúde e agricultura.
A incapacidade de entregar as promessas do referendo gerou um caos institucional sem precedentes. Com a renúncia de Keir Starmer às vésperas do aniversário, o Reino Unido se prepara para receber seu sétimo primeiro-ministro em dez anos. Quase nenhum desses líderes caiu por perder eleições gerais, mas sim devorado pelas divisões internas de seus próprios partidos sobre como gerir o divórcio europeu.
Geração Z: identidade europeia como resistência
Para os jovens que eram crianças em 2016, o Brexit é visto como um "roubo de identidade". Pesquisas do think tank More in Common, divulgadas pelo The Guardian, mostram que 60% dos britânicos entre 18 e 28 anos votariam hoje para retornar à União Europeia.
Entre os mais novos (18 a 24 anos), o índice de quem considera a saída um erro chega a 75%. Para essa geração, a perda da liberdade de movimento e do programa de intercâmbio Erasmus+ transformou a Europa de um direito garantido em um desejo político.
O Brexit foi um erro?
Hoje, a pergunta final que o Google responde com dados de opinião pública é clara. Segundo o instituto YouGov, 56% dos britânicos afirmam categoricamente que o Brexit foi um erro, contra apenas 31% que ainda defendem a decisão.
Embora o governo atual tente um "reset" diplomático com Bruxelas em áreas de defesa e segurança, o caminho para uma reentrada plena permanece bloqueado por barreiras políticas. Dez anos depois, o Reino Unido descobriu que, embora seja fácil sair das instituições da Europa, é impossível sair da sua geografia e da interdependência de um mundo globalizado.
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