O que vale mais? A escolha do novo ministro do Supremo ou a redução da fila do INSS, que já está chegando a 3 milhões de pessoas? Pelo tempo, pela energia que os poderosos de Brasília dedicam a uma discussão e a outra, fica parecendo que emplacar o novo ministro do Supremo vale muito mais. Mas muito mais do que resolver a desordem que impera no INSS.
E é engraçado, vai. Tem um tipo de discussão que interessa pro poder, um tipo de discussão que interessa pro país. E muitas vezes elas são excludentes. Porque se a discussão interessa pro poder, a gente fica olhando e vê que não interessa tanto assim pro país. E se interessa pro país, muitas vezes o poder não demonstra a preocupação que deveria ter por ela.
Você passeia pelo noticiário político, é Jorge Messias em toda parte. Claro, tem notícia sobre os Bolsonaro, sobre todos eles, até porque eles estão sempre inventando um jeito de aparecer. Claro que tem noticiário sobre o Lula, que também não fica muito atrás, nesse final de semana ele até gravou um pronunciamento.
Mas o noticiário sobre Jorge Messias impressiona. Primeiro porque parece que Jorge Messias virou um divisor de águas no mundo das grandes discussões jurídicas. É como se o Advogado-Geral da União, indicado por Lula pro Supremo, fosse entrar no STF e revolucionar aquela casa. Os hábitos, os acordos, as tensões, as manias, as convicções... vai ficar tudo diferente com a chegada de Jorge Messias, uma espécie de Rui Barbosa dos tempos modernos.
Ele até pode se revelar um grande ministro. Mas vamos combinar? Pro Brasil hoje, tanto faz como tanto fez se Jorge Messias vai virar ministro do Supremo ou se vai trombar na sabatina do Senado. Se trombar, vai dar o que falar, porque a recusa vai ser contabilizada como uma grande derrota de Lula, ele vai ter que escolher outro nome. Se ele virar ministro, também deu a lógica. Daqui a pouco os senadores que trabalham contra Jorge Messias vão estar lá bajulando sua Excelência nos coquetéis do poder. "Meu amigo!", como sempre foi.
E aí a gente volta à pergunta original: investir em Jorge Messias vale mais do que investir no combate às filas do INSS? Se vale mais investir no combate às filas, é bom o governo começar a agir. O ministro Rui Costa, da Casa Civil, tem que entrar em ação. O próprio presidente Lula também. Porque o ministro da Previdência e o presidente do INSS, que deveriam se juntar pra reduzir as filas que só crescem, nem se falam direito. Eles conversam por ofício. É isso mesmo, eles mandam recadinho um pro outro por ofício. E as filas do INSS não param de subir.
Do início do governo Lula pra cá, essa fila quase triplicou. A gente não enxerga uma perspectiva de mudança. Se o governo resolvesse agir com energia, a mesma que tem dedicado pra aprovar o nome de Messias no Supremo, talvez alguma coisa mudasse. Mas por alguma razão, a fila do INSS não é prioridade.
E uma possível explicação pode estar no fato de que, se o INSS começasse a conceder os benefícios devidos, as contas públicas iriam sofrer. Então, vai rolando do jeito que dá. Essa seria uma briga de interesse do Brasil: combater as filas. Mas brigas de interesse do Brasil, como a gente tá vendo, nem sempre interessam ao poder.
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