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Proclamação da República vem após descontentamento dos militares com o Império, diz professor

Para o especialista, o ponto de virada que forjou essa identidade e insatisfação militar foi a Guerra do Paraguai

Da redação
DA REDAÇÃO

14/11/2025 • 12:39 • Atualizado em 14/11/2025 • 12:39

Resumo

O historiador Eduardo Bueno, em entrevista ao Canal Livre, afirmou que a Proclamação da República em 1889 foi motivada principalmente pelo ressentimento e ambição da classe militar, e não por um movimento popular.

A Guerra do Paraguai serviu como catalisador para o fortalecimento da consciência de classe dos militares, gerando desconfiança na elite política, rancor contra o Império e uma crise de lealdade ao imperador Dom Pedro II.

A insatisfação dos militares, marcada por salários baixos e falta de prestígio em relação à Marinha, foi verbalizada por Benjamin Constant, que articulou o golpe de 1889 como resposta ao abandono e à desvalorização sofrida pelo Exército.

O historiador e professor Eduardo Bueno, em participação no programa Canal Livre, traçou um panorama sobre os reais interesses que culminaram na Proclamação da República em 15 de novembro de 1889. Longe de ser um movimento popular, o evento foi, segundo o professor, um ato impulsionado primordialmente pelo ressentimento e pelas ambições de uma classe específica: a militar.

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Questionado sobre qual interesse foi priorizado no nascimento da República, já que o conceito pressupõe o "interesse do povo", Bueno foi direto:

"O interesse primordial naquele momento foi o que a classe militar brasileira se sentia desprestigiada pelo Império".

Para o especialista, o ponto de virada que forjou essa identidade e insatisfação militar foi a Guerra do Paraguai.

A Guerra do Paraguai: O berço da consciência militar

A experiência no campo de batalha foi o catalisador para que os militares desenvolvessem uma forte consciência de classe. Foi nesse ambiente hostil que os militares chegaram a uma conclusão amarga sobre a elite política do país.

"Ali eles concluíram que a classe política brasileira não era confiável. Porque não era, e provavelmente ainda não é", pontuou o historiador, traçando um paralelo com a atualidade.

Além da desconfiança nos políticos, a guerra também gerou:

  • Rancor contra o Império: A promessa de liberdade para muitos escravizados que lutaram na guerra não foi cumprida, o que gerou uma forte onda abolicionista dentro do Exército.
  • Crise de lealdade ao Imperador: O apreço por Dom Pedro II diminuiu, especialmente após ordens controversas, como a que o Duque de Caxias se recusou a cumprir, de "matar mulheres e crianças", mas que o Conde d'Eu executou.

Uma classe desprestigiada e mal paga

Eduardo Bueno destacou a hierarquia social dentro das próprias Forças Armadas como um fator crucial. A Marinha (a "Armada") era a força de prestígio, destinada aos filhos da elite que não eram primogênitos — já que estes herdavam as terras. O Exército, por sua vez, ficava em segundo plano.

Essa percepção de abandono foi verbalizada por um dos principais articuladores do golpe, Benjamin Constant, que em reunião no dia 9 de novembro, enquanto a corte imperial participava de um baile, discursou sobre "a nossa pobre classe militar, vilipendiada e mal paga". Para Constant, a situação era insustentável e a única saída era "derrubar o Império".

As frustrações não eram apenas corporativas, mas também pessoais. O próprio Benjamin Constant esperou por 12 anos por uma promoção, e em uma carta escrita durante a Guerra do Paraguai, desabafou: "Essa desgraçada classe militar. Eu não posso continuar aqui, tenho uma família para sustentar".

A República como a resposta

Em sua análise, o professor deixa claro que, embora houvesse republicanos com diversas motivações e um forte movimento abolicionista em curso, o motor da Proclamação foi a insatisfação militar.

O golpe de 1889 não nasceu do anseio popular, mas sim da necessidade de uma classe que se sentia desvalorizada, mal remunerada e traída pelo poder que jurou defender.

A conclusão de Bueno serve como uma lição histórica e um alerta: "Não trate mal o Exército".

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