
Gerson Machado
Reprodução/Bora Brasil
No último domingo (30), a morte de um jovem de 19 anos em um zoológico de João Pessoa (PB), após invadir a jaula de uma leoa, trouxe à tona questões urgentes sobre cuidados com saúde mental — especialmente em casos de esquizofrenia.
O rapaz, identificado como Gerson de Melo Machado (conhecido como “Vaqueirinho”), vivia com sintomas psicóticos ativos e já passara por perícias psiquiátricas que confirmaram o diagnóstico.
Mas afinal: o que é a esquizofrenia, como ela se manifesta e como deve ser tratada?
O que é esquizofrenia
A esquizofrenia é um transtorno mental grave que afeta a forma como a pessoa pensa, sente e se comporta. Ela pode causar uma ruptura com a realidade: alguém com esquizofrenia pode ter dificuldade em distinguir entre o que é real e o que é fruto da mente.
Segundo o Hospital Albert Einstein, essa condição muitas vezes envolve desorganização dos pensamentos, alterações nas emoções e no comportamento.
Pessoas com esquizofrenia podem apresentar delírios (crenças fixas que não condizem com a realidade) e alucinações (percepção de coisas que não existem — como vozes, visões, sensações táteis, etc.).
Também há frequentemente prejuízo na motivação, no planejamento e no convívio social.
Sintomas comuns
Os principais sinais da esquizofrenia incluem:
- Delírios — Crenças falsas e persistentes, apesar de evidências contrárias.
- Alucinações — Ouvir vozes, ver coisas que não existem, sentir sensações táteis ou olfativas inexistentes.
- Pensamento desorganizado — Dificuldade em organizar ideias, discurso confuso ou ilógico.
- Comportamento desorganizado ou agitado — Ações imprevisíveis, comportamento inadequado ou desconectado da realidade.
- Embotamento afetivo — Redução da expressão emocional: ausência de reações, fala monótona, aparência “apagada”.
- Retirada social / isolamento — Dificuldade ou desinteresse em manter relações sociais, se afastar de família e amigos.
Esses sintomas podem aparecer de maneira gradual ou repentina — e variam muito de pessoa para pessoa.
Causas
A causa exata da esquizofrenia ainda não é totalmente conhecida. Sabe-se, porém, que uma combinação de fatores pode contribuir para seu surgimento:
- Fatores genéticos — Ter parentes de primeiro grau com o transtorno aumenta o risco.
- Fatores neurobiológicos — Alterações no funcionamento cerebral, inclusive de neurotransmissores como a dopamina, podem gerar desequilíbrios que favorecem a doença.
- Fatores ambientais e pré-natais — Problemas durante a gravidez ou parto, infecções virais, desnutrição, etc.
- Fatores psicossociais — Traumas, estresse crônico, abuso, negligência, isolamento social.
No caso do jovem de João Pessoa, relatos de familiares e da rede de assistência social indicam histórico de negligência, instabilidade familiar e vulnerabilidade social — elementos que reforçam a importância de um olhar atento para fatores de risco.
Diagnóstico
O diagnóstico da esquizofrenia é clínico e feito por um profissional de saúde mental — geralmente um psiquiatra.
Esse diagnóstico baseia-se em critérios específicos (como os definidos no DSM-5), que consideram a presença e duração dos sintomas, impacto na vida da pessoa, e exclusão de outras causas (como intoxicação, uso de drogas ou outros transtornos).
Quando há suspeita — especialmente diante de delírios, alucinações ou comportamento grave — é essencial procurar atendimento o quanto antes.
Tratamento
Embora a esquizofrenia seja uma condição crônica, existem tratamentos eficazes para controlar os sintomas, melhorar qualidade de vida e favorecer adaptação social. As principais estratégias incluem:
- Antipsicóticos — Medicamentos que ajudam a controlar delírios, alucinações e outros sintomas graves. São a base do tratamento medicamentoso.
- Terapia psicológica — A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pode ajudar a pessoa a lidar com sintomas, entender padrões de pensamento e promover autocuidado.
- Terapia de grupo / redes de apoio — Grupos de convivência ou apoio psicológico ajudam a reduzir o isolamento, facilitar a socialização e dar suporte emocional.
- Intervenção social e suporte contínuo — Acompanhamento médico-psiquiátrico regular, apoio familiar e comunitário, e cuidado social (moradia, trabalho, reabilitação) aumentam a chance de recuperação ou estabilização.
O objetivo é permitir à pessoa retomar, tanto quanto possível, uma vida independente e com qualidade.
Prevenção e cuidados: o papel da atenção precoce
Não há uma forma garantida de prevenir a esquizofrenia — especialmente em quem já apresenta predisposição genética. Porém, algumas medidas e estratégias podem reduzir riscos e favorecer detecção e tratamento precoce, como:
Estar atento a sinais iniciais (isolamento, mudanças de comportamento, desconfiança excessiva, alucinações) e buscar ajuda profissional rapidamente.
Evitar o uso de drogas e abuso de substâncias psicoativas, que podem precipitar ou agravar crises.
Manter ambiente de apoio emocional, reduzindo estresse e incentivando suporte familiar e social.
Garantir acompanhamento psiquiátrico e psicológico contínuo, especialmente em pessoas com histórico de vulnerabilidade.
No caso de vulnerabilidade social — como abandono, pobreza, negligência familiar — o Estado e a sociedade têm um papel fundamental em garantir acolhimento, tratamento e suporte digno.
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