
A história de Chernobyl, Fukushima e Goiânia
REUTERS/Valentyn Ogirenko/File Photo
Quarenta anos depois da explosão no reator 4 da usina de Chernobyl, na então Ucrânia soviética, as tragédias em uma planta nuclear no Japão e em uma área urbana de Goiânia ainda revelam as cicatrizes deixadas pela radiação e pelos limites da tecnologia nuclear.
Capaz de gerar eletricidade com baixas emissões e de salvar vidas na medicina, o átomo também protagonizou desastres em série, marcados por falhas humanas, riscos naturais extremos e desconhecimento.
Chernobyl: a noite em que o reator 4 silenciou o Leste Europeu
Na noite de 26 de abril de 1986, um teste de segurança de rotina saiu do controle na usina de Chernobyl. Com sistemas automáticos desligados e uma sequência de erros operacionais, o reator 4 entrou em instabilidade e explodiu, destruindo o prédio e incendiando a instalação.
Equipes de bombeiros e trabalhadores correram para conter as chamas sem saber da intensidade da radiação. Nos primeiros anos após o acidente, 134 indivíduos perderam a vida vítimas da síndrome aguda, em meio a queimaduras internas, queda de cabelo e internações prolongadas.
A explosão lançou uma nuvem radioativa que cruzou fronteiras, contaminou solo, rios e florestas em vários países europeus e esvaziou cidades inteiras na zona de exclusão. O choque reverteu planos de expansão da energia nuclear em diferentes governos e alimentou a desconfiança pública em relação aos reatores.
O desligamento definitivo de seu último reator operacional, a Unidade Número 3, aconteceu em 2000, 14 anos após o desastre.
Fukushima: o tsunami e a paralisação dos sistemas de resfriamento da usina nuclear
Em 11 de março de 2011, um terremoto de grande magnitude seguido por um tsunami devastador atingiu o leste do Japão e alcançou a usina de Fukushima Daiichi. A inundação paralisou os sistemas de resfriamento e provocou o derretimento severo do núcleo em três dos seis reatores.
Não houve mortes imediatas por exposição à radiação, mas dezenas de milhares de pessoas tiveram de abandonar suas casas às pressas. Relatórios posteriores apontaram que autoridades e operadores já conheciam os riscos sísmicos e de tsunami na região, mas deixaram de adotar todas as medidas de proteção necessárias.
O colapso nos sistemas de contenção levou a uma liberação maciça de materiais radioativos.
Mais de 80% dos radionuclídeos se depositaram no Oceano Pacífico, no maior despejo de radioisótopos no mar já registrado, afetando ecossistemas marinhos, rotinas de pesca e a economia de comunidades costeiras.
Goiânia: o brilho azul e a mobilização para conter a contaminação em área urbana
Em 1987, no centro de Goiânia, a tragédia teve origem em um aparelho de radioterapia abandonado. Sucateiros romperam o equipamento e expuseram uma cápsula de chumbo com apenas 19 gramas de césio-137, liberando um pó de intenso e fascinante brilho azul que circulou de mão em mão.
A curiosidade diante daquele brilho incomum espalhou o material por casas, quintais e objetos do cotidiano. Sem perceber o perigo, famílias inteiras se contaminaram. Centenas de pessoas receberam doses significativas de radiação, quatro morreram e o medo da invisível ameaça passou a dominar a cidade.
A resposta das autoridades demorou e permitiu que o césio se dispersasse ainda mais pelo tecido urbano.
Coube à Comissão Nacional de Energia Nuclear coordenar uma complexa operação de descontaminação, que gerou toneladas de rejeitos radioativos e deixou marcas físicas e psicossociais profundas nos moradores afetados.
De um teste mal conduzido em um reator soviético ao impacto de um tsunami no Japão e ao abandono de um aparelho médico em Goiás, Chernobyl, Fukushima e o acidente com césio em Goiânia se tornaram símbolos de como a combinação entre falhas humanas, natureza e desinformação pode transformar o avanço científico em tragédia.
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