
Colômbia vai às urnas neste domingo em eleição marcada por polarização
Reuters
A Colômbia chega ao segundo turno das eleições presidenciais de 2026, marcado para o próximo dia 21 de junho, em um cenário de indefinição que vai além das urnas.
O Google Trends revelou que os colombianos não estão usando o buscador para comparar planos de governo, mas para tentar decifrar quem são, de fato, os candidatos Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda.
O padrão de buscas indica que, em um ambiente de polarização extrema e desinformação, a identidade e a trajetória pessoal sobrepuseram o debate programático.
O que os colombianos pesquisam sobre os candidatos
Os dados de busca da última semana mostram que as dúvidas dos eleitores orbitam temas biográficos e ideológicos. Sobre o advogado de ultradireita Abelardo de la Espriella, as perguntas mais frequentes são: “Abelardo de la Espriella é ateu?”, “de onde ele é?” e “por que o chamam de O Tigre?”.
Já em relação ao senador de esquerda Iván Cepeda, o interesse digital foca em seu passado político e familiar: “Iván Cepeda foi guerrilheiro?”, “quem matou o pai de Iván Cepeda?” e “ele foi do M-19?”.
As respostas a essas buscas ajudam a entender as narrativas de campanha. Cepeda, filósofo e ativista, nunca integrou grupos guerrilheiros, embora seu pai, um senador comunista, tenha sido assassinado por agentes do Estado e paramilitares.
De la Espriella, por sua vez, usa o apelido “O Tigre” para projetar uma imagem de força e autoridade, inspirada em líderes como Nayib Bukele, enquanto sua religiosidade se tornou tema de debate em um país de forte tradição católica.
Identidade no lugar de propostas: a crise de confiança
Especialistas apontam que esse foco na alma dos candidatos revela uma crise de representação terminal. Com o colapso dos partidos tradicionais (como o Liberal e o Conservador), a política na Colômbia tornou-se hiper-personalizada. O eleitor não busca mais uma legenda ou um programa, mas uma identidade com a qual possa se conectar ou um inimigo para rejeitar.
Esse comportamento é amplificado por um ecossistema informativo hostil. A campanha de 2026 é descrita como "carregada de desinformação", com o uso de inteligência artificial generativa para forjar declarações ou retratar candidatos em situações comprometedoras. Quando o cidadão busca no Google se um candidato é "comunista" ou "ateu", ele está tentando navegar em um mar de narrativas fabricadas que substituíram o debate sobre o déficit fiscal ou a reforma da saúde.
Segurança e polarização como motores das buscas
A segurança pública, embora não apareça como termo direto nas perguntas biográficas, é o motor invisível desse padrão de interesse. A percepção de fracasso da política de “Paz Total” do governo Gustavo Petro, também registrou recordes na produção de cocaína e o retorno da violência política, como o assassinato do senador Miguel Uribe Turbay e trouxe o medo de volta ao centro da decisão.
Nesse contexto, o eleitor busca sinais de autoridade. As buscas biográficas servem para validar se o candidato tem a "mão dura" necessária ou se possui vínculos com o passado violento do país. A polarização faz com que o adversário não seja visto apenas como alguém com ideias diferentes, mas como uma ameaça existencial que precisa ser investigada no buscador.
O resultado do embate entre De la Espriella (43,7% no primeiro turno) e Cepeda (40,9%) interessa a toda a América Latina, uma vez que a eleição na Colômbia pode funcionar como um termômetro para saber se o ciclo progressista na região ainda tem fôlego ou se a guinada à direita radical observada em vizinhos como Argentina e Equador se consolidará.
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