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Colômbia volta às urnas com disputa entre esquerda e milionário pró-Trump

Abelardo de la Espriella terminou 1° turno na liderança e disputa segunda rodada com senador de esquerda apoiado pelo presidente Gustavo Petro. Eleição pode marcar mais uma guinada à direita na América Latina.

Deutsche Welle
DEUTSCHE WELLE

20/06/2026 • 17:04 • Atualizado em 20/06/2026 • 17:08

A Colômbia volta às urnas neste domingo (21/06) para decidir em segundo turno se coloca os rumos do país nas mãos de Abelardo de la Espriella, ultradireitista novato na política e entusiasta do militarismo, ou de Iván Cepeda, senador de esquerda e filósofo apoiado pelo atual presidente, Gustavo Petro.

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A eleição, da qual devem participar até 41 milhões de eleitores, terá impacto decisivo no processo de paz do país com grupos armados e nas relações atualmente tensas com os Estados Unidos. A campanha eleitoral foi marcada por atentados a bomba no sul do país, ataques com drones explosivos e o assassinato de um importante candidato presidencial em Bogotá.

De la Espriella, que liderou o primeiro turno, em maio, com 43,7% dos votos, contra 40,9% de Cepeda, prometendo uma política dura de segurança pública, espera repetir o feito de outros presidentes eleitos recentemente sob a mesma bandeira na Bolívia, no Chile e no Equador.

O resultado do primeiro turno evidenciou o colapso total dos partidos de centro e da direita colombiana tradicional, que governaram o país durante grande parte dos últimos dois séculos. De la Espriella se apresenta como um outsider político, apesar dos laços familiares próximos com o influente político conservador e ex-presidente Alvaro Uribe (2002-2010).

Cepeda, por sua vez, é apoiado principalmente por progressistas e os mais pobres, que se beneficiaram da redução da pobreza, do aumento dos salários e da queda do desemprego num país que ainda é um dos mais desiguais do mundo.

A eleição é vista também como um referendo sobre o primeiro governo de esquerda do país. "Ambos os lados [Cepeda e De la Espriella] têm seguidores muito fervorosos, mas há uma parte do país que vota por medo de um modelo que considera daninho", disse Julian Lopez, analista da Nalanda Analytica, à agência de notícias AFP.

Agendas distintas de segurança pública e economia

Os dois candidatos têm visões muito diferentes sobre como enfrentar o tráfico de cocaína e a pior onda de violência na Colômbia em uma década. De la Espriella promete travar uma guerra contra grupos guerrilheiros envolvidos no tráfico de drogas que se recusaram a assinar um acordo de paz em 2016.

Apoiado abertamente pelo presidente americano Donald Trump, o candidato disse que, se eleito, buscará apoio dos Estados Unidos para uma campanha de 90 dias de bombardeios e pulverização de plantações de grupos armados que produzem coca, o principal ingrediente da cocaína.

Ele também quer eliminar o tribunal especial criado pelo acordo de paz com a guerrilha das Farc em 2016 para julgar os crimes mais graves da guerra, que a direita considera tendencioso contra os militares. Cepeda, por sua vez, tem sido uma figura central na política de negociação de "paz total" com grupos armados, priorizando o diálogo em vez do enfrentamento violento.

Críticos afirmam que Petro (que é constitucionalmente impedido de concorrer e indicou Cepeda para sucedê-lo) permitiu que grupos armados ficassem mais ricos com o tráfico, ampliassem seu território e ganhassem poder.

Em Bogotá, alguns diplomatas estrangeiros expressaram temor de que um retorno a políticas de segurança mais duras possa provocar retaliações de criminosos, lançando o país de volta a uma espiral de violência. Na economia, o vencedor herdará um país marcado pelo aumento da dívida pública, pela deterioração fiscal e pela desaceleração do investimento estrangeiro.

De la Espriella propõe um ajuste fiscal e a otimização do aparelho estatal, com a fusão de agências estatais e a redução dos gastos públicos. Também quer retomar a exploração e produção de petróleo, suspensas pelo atual governo, e impulsionar o gás natural, inclusive por fracking.

Cepeda, por sua vez, defende que o Estado assuma um "papel estratégico" para orientar e promover o desenvolvimento econômico da Colômbia. Ele promete uma "revolução econômica e social", com um "modelo econômico verdadeiramente produtivo, diversificado e socialmente inclusivo" para acabar com a pobreza, reduzir a desigualdade e gerar prosperidade. Também propõe um pacto fiscal "transparente e justo" para administrar a dívida.

Quem é Abelardo de la Espriella

Até bem pouco tempo atrás, o advogado criminalista Abelardo de la Espriella, de 47 anos, era conhecido por sua bem-sucedida carreira profissional e por suas excentricidades, longe de qualquer aspiração política.

A mudança veio em julho de 2025, com a criação do movimento de ultradireita Defensores da Pátria – resposta ao "momento sombrio" que o país, a seu ver, vivia sob Petro.

Deu certo: 11 meses depois, ele largou na frente no primeiro turno, desbancando o uribismo na preferência do eleitorado colombiano de direita. E sem nunca ter ocupado um cargo público antes.

Com a promessa de transformar a Colômbia numa "pátria milagrosa", a exemplo de Coreia do Sul ou Irlanda, ele lista em seu plano de governo uma série de princípios para a segurança, a saúde, a educação, o campo, o meio ambiente, a cultura, as mulheres, o bem-estar animal, o setor de mineração e energia e o combate à corrupção.

Admirador de Trump e doador do Partido Republicano, De la Espriella fez fortuna como advogado defendendo clientes controversos, como o empresário Alex Saab, que está detido nos Estados Unidos sob acusação de lavagem de dinheiro, ou David Murcia Guzmán, protagonista do maior esquema de pirâmide da Colômbia.

No início dos anos 2000, atuou nos diálogos de paz entre o governo Uribe (2002–2010) e o grupo paramilitar de extrema direita Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC).

Com o sucesso nos tribunais, que o tornou milionário, abriu uma loja, a De la Espriella Style. Nela comercializa marcas próprias, como o rum Defensor, o vinho Fratellone e itens de vestuário e acessórios, como camisas, gravatas e lenços de seda para "defensores da pátria".

Nascido na Colômbia, De la Espriella também tem cidadania italiana e americana, o que gerou um debate entre juristas sobre se isso poderia representar um impedimento para ser presidente da Colômbia caso seja eleito.

Além de advogado e empresário, já foi cantor de ópera, tendo até mesmo gravado dois discos como tenor.

Católico, tem semelhanças física e ideológica com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, conhecido por sua linha-dura na segurança, e é frequentemente criticado por comentários sexistas e homofóbicos.

Aos que o criticam por nunca ter ocupado cargos públicos, responde que isso é uma vantagem, pois o libera de compromissos com políticos e grupos econômicos, e ressalta sua experiência de empresário bem-sucedido.

Seu companheiro de chapa para a vice-presidência é o economista José Manuel Restrepo, que, com seu prestígio acadêmico, conferiu um tom de maior sobriedade à campanha. Restrepo é defensor da austeridade na economia.

De la Espriella é casado desde 2008 com a administradora de empresas Ana Lucía Pineda, com quem tem quatro filhos.

Quem é Iván Cepeda

Correligionário de Petro no partido Pacto Histórico, o senador de 63 anos passou décadas defendendo as vítimas do conflito armado na Colômbia, denunciando violações de direitos humanos e promovendo processos de paz.

Ele é filho da líder de esquerda Yira Castro, falecida em 1981, e do senador da União Patriótica Manuel Cepeda Vargas, assassinado em 1994 por agentes do Estado em cumplicidade com paramilitares.

O assassinato do pai o transformou numa das vozes mais visíveis na denúncia do extermínio da União Patriótica, partido de esquerda cujos integrantes foram vítimas de assassinatos, desaparecimentos e deslocamentos forçados durante as décadas de 1980 e 1990. Diferentemente de Petro ou De la Espriella, Cepeda não é dado a improvisações: nesta campanha, leu todos os seus discursos, que leva impressos em papel.

Cepeda cresceu numa família marcada pela militância política de esquerda e passou parte da infância na antiga União Soviética e em Cuba. Anos depois, voltou a se exilar na França devido a ameaças por seu trabalho na defesa dos direitos humanos.

Formado em filosofia pela Universidade de São Clemente de Ohrid de Sófia, na Bulgária comunista dos anos 1980, cursou também um mestrado em direito internacional humanitário na Universidade Católica de Lyon, na França.

Antes de chegar ao Congresso, trabalhou com organizações sociais e foi um dos fundadores do Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado (Movice). Sua carreira política começou em 2010, quando foi eleito representante de Bogotá na Câmara pelo Polo Democrático Alternativo. Quatro anos depois, chegou ao Senado, onde vem sendo reeleito desde então.

Sua notoriedade nacional cresceu especialmente pelos debates que impulsionou no Congresso sobre paramilitarismo e supostos vínculos de setores políticos e empresariais com organizações armadas ilegais, o que o colocou em conflito com Uribe.

Entre 2012 e 2016, participou como facilitador nas negociações de paz entre o governo colombiano e as Farc, que levaram ao acordo assinado durante a presidência de Juan Manuel Santos (2010-2018). Também participou de aproximações com a guerrilha do Exército de Libertação Nacional (ELN) e de processos de submissão à justiça de grupos armados ilegais.

Há alguns anos, foi diagnosticado com câncer de cólon, pelo qual foi tratado com cirurgia e quimioterapia. Embora tenha tido uma recaída, desde 2022 está em tratamento oncológico e sem complicações.

Cepeda é casado com a antropóloga Pilar Rueda Jiménez. Sua companheira de chapa para a vice-presidência é a senadora indígena Aída Quilcué, reconhecida por sua trajetória na defesa dos direitos dos povos originários e das comunidades afetadas pelo conflito armado.

ra/jps/as (AFP, EFE)